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Tente uma Revolução de Ano Novo – por Jennifer Weiner

Tradução deste texto, enviada pela leitora Ediane Tiago.

Donald J. Trump quer que você entre em dieta. Já posso ouvir você dizendo: “Donald Trump sequer me conhece!” Mas você o conhece.

Estamos todos familiarizados com os padrões de beleza feminina do Senhor Trump. Graças às fitas vazadas, aos tão divulgados comentários sobre as mulheres que ele não considera atraentes o suficiente para serem assediadas, uma década de conversas com Howard Stern*, as modelos com quem ele foi casado, os concursos de beleza que ele comandava e aos elogios à sua filha Ivanka, sabemos que a beleza, aos olhos do presidente eleito dos Estados Unidos da América, é alta, esbelta e jovem.

Se você se encaixa neste modelo, você ficará bem. Se você não se enquadra? Janeiro é quando você sentirá mais pressão para caber dentro desses padrões. Antes de pressionar-se, considere os ganhos reais.

Dietas podem monopolizar a sua energia, drenar seu tempo e fazer um estrago na sua autoestima. Elas voltam sua atenção para dentro, mudando seu corpo, não o mundo. Além disso, há uma propensão, muito bem-documentada, em falhar, não importam os níveis de dedicação ou determinação empreendidos.

Mas aqui estamos nós, novamente, no mês das resoluções de Ano Novo, no mês em que mesmo a pessoa mais fiel à aceitação própria pode cair na conversa dos vendedores e discursos deste primeiro mês.

Neste ano, a noção de (auto) aperfeiçoamento é especialmente sedutora. Dietas e resoluções, em geral, abordam a esperança. Esperança de que as coisas possam melhorar. Esperança de aprender uma nova língua, livrar-se da gaveta cheia de tralhas, perder esses 20 quilos para o seu bem.

Não importa o quanto 2016 fez você sentir-se maltratado, atingido ou triste. O canto da sereia do aperfeiçoamento individual nunca soou tão alto. Nós não podemos resolver as divisões ocorridas no país**. Não podemos parar a violência, não podemos evitar que a morte leve os artistas e atores que definiram nossa juventude. Nem é possível estender magicamente o prazo de um presidente que não se dedica a trocar mensagens furiosas pelo Twitter com um garoto de 12 anos de idade, por sentir-se intelectualmente desafiado por ele. Mas talvez a gente possa, pelo menos, entrar nos nossos jeans de antes da era em que tudo deu errado.

Além disso, o coro daqueles que nos fazem sentir vergonha do próprio corpo (os body shamers) nunca foi tão alto, ou legitimado.

Trump uma vez chamou a Miss Universo Alicia Machado de “Miss Porca”, aumentando a sua rejeição política. O novo passatempo de Ann Coutler (polêmica advogada e jornalista de extrema-direita) é o de postar fotos de mulheres grandes com os dizeres “Sem garotas gordas, não haveria protestos” (postagem à qual a escritora Jennifer Wrigth prontamente comentou: “Enquanto estamos envergonhados, a parabenizo por perder esse último meio quilo: o seu coração”).

ann-coutler

Foi-se o tempo em que você ouvia falar de dieta apenas em seu círculo íntimo. Um colega de trabalho que estava fazendo Paleo, a sua avó dizendo o quanto você parecia mais saudável quando pesava menos e te lembrando, intencionalmente, de pedir a salada sem molho. Agora, se você está no Facebook ou Instagram ou em qualquer outro lugar, será invadido, não só por anúncios pagos, mas por atualizações de status do seu ex-colega de quarto, amigo do clube do livro, ou daquele primo de segundo grau. Eles vão postar imagens de exercícios ou estatísticas de pulseiras ou relógios inteligentes (a exemplo da Fitbit).

Com as mídias sociais, chegaram a curadoria, a competição, as noções socialmente aprovadas de como a beleza e a felicidade se parecem e a crença implícita de que, se você tentar de novo, tentar um pouco mais, você também pode ser bem-sucedido como aquele primo distante que você não encontra há seis anos.

Pode ser difícil dizer não à tentação. Os especialistas concordam, contudo, que as promessas de Janeiro dificilmente levam a mudanças positivas e permanentes. Christopher Wharton, professor de nutrição e sustentabilidade na Universidade do Estado do Arizona, não é fã de resoluções. “Elas vêm de uma ideia de que você falhou, não fez direito. Agora é hora de acertar”, diz. “Mas isso coloca você em um lugar negativo”,completa.

Parte do truque para resistir às tentações é apenas entender quanto o mundo está trabalhando duro para influenciar seu pensamento. “O peixe só percebe a água, quando ela se vai”, diz Bernard Luskin, um psicoterapeuta que se especializou no impacto da internet e outros meios de comunicação sobre o comportamento.

Agora, estamos nadando em um mar de propagandas. Essas mensagens chegam online mais depressa do que nunca e “a intensidade e a velocidade da comunicação estão causando um prejuízo no pensamento crítico”, diz Luskin.

Se você ainda quiser fazer mudanças, entenda que chegou onde está não porque é fraco ou falho, mas porque você se adaptou a um ambiente que o incentiva a dirigir em vez de usar a bicicleta ou a pé, o motiva a assistir à TV em vez de fazer qualquer outra coisa. Não é uma rotina que três horas semanais de academia são capazes de contrariar, diz o Professor Wharton.

A sugestão dele é ir além. Não basta trocar o leite integral pelo desnatado ou subir as escadas. É preciso reordenar a vida para refletir seus valores, suas prioridades, em vez de ficar apenas trabalhando nas margens.

Ou você pode se concentrar no plano político. As indústrias fitness e de perda de peso e até mesmo, ao que parece, o presidente eleito preferem ter você contando calorias, em vez de perceber as mudanças ocorridas no mundo desde Novembro. Eles querem ver seu dinheiro gasto em planos comerciais de dieta em vez de aplicado na ajuda a instituições como a Planned Parenthood. Então você pode começar a se aceitar como é e trabalhar por algo que mais importante para o mundo do que a forma do seu corpo.

Pessoalmente, estou planejando pegar o dinheiro que iria, neste Janeiro, para os Vigilantes do Peso ou para o livro da dieta do momento e utilizá-lo na compra de passagens de ônibus entre a Filadélfia e Washington. Pretendo me juntar à marcha das mulheres em 21 de Janeiro.

Neste dia, meu treino será marchar com minha mãe, seu companheiro e mulheres de todo o país. Estaremos unidos em nossa oposição a um presidente que rotineiramente se engaja no tipo de machismo tóxico que levaria qualquer garoto da terceira série para a cadeira de castigo.

Vou ocupar espaço em um mundo que diz às mulheres que elas não devem fazer barulho, um mundo que nos diz para ser quietas e complacentes. Trabalharei por dias melhores para mim, meus pares e minhas filhas.

Que Janeiro seja um tempo de autoaceitação, não de autoaperfeiçoamento. Que os líderes apreciem as mulheres pelo talento, não pela aparência. Que eles entendam que, de todas as coisas do mundo para mudar e consertar, a menos importante será sempre a forma física.

Tradução
Artigo: Try a New Year’s Revolution
Autora: Jennifer Weiner
Coluna publicada no The New York Times
Data de publicação: 31/12/2016

Jennifer Weiner é autora do livro de memórias “Hungry Heart”, ou Coração faminto, em tradução livre.

Notas da tradução:

*Howard Stern é um locutor de rádio, humorista e escritor norte- americano para quem Donald Trump deu inúmeras entrevistas, recheadas de frases misóginas.

**A eleição de Trump dividiu os Estados Unidos e deflagrou uma onda de protestos. Muitos consideram a sua eleição uma afronta aos direitos das mulheres, negros e latinos.