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“JEJUM INTERMITENTE”

Então, pessoal…

Eu realmente vivi para ver o ato de comer se tornar “fora de moda”. Realmente vivi para ser tachada de louca porque sugiro que as pessoas não deixem de se alimentar. Realmente vivi para ser grosseiramente ofendida por inúmeros membros da classe médica por não aderir à cruzada contemporânea contra os carboidratos.

Eu evito ao máximo escrever ou falar a respeito do tal “jejum intermitente” porque eu conheço a força do protesto febril dos adeptos.

Recentemente o tema ganhou força e muitas pessoas estão tentando reduzir drasticamente a quantidade de alimentos que consomem, intercalando com longos períodos sem comer coisa alguma. O resultado? Tem gente desmaiando no chão do banheiro, se machucando, “vendo tudo ficar preto”, tendo episódios de compulsão alimentar galopantes. Recebo relatos tristes de pessoas que colocaram a saúde em risco porque compraram a ideia de que comer é “desnecessário”.

Então vamos lá. Vou contar a vocês o que eu penso sobre isso.

Há ao menos uma década, as pessoas que estabeleciam metas para permanecer horas sem comer ao longo do dia estavam dentro das comunidades pro-ana no Orkut. Ninguém usava essa expressão chique que parece tão cheia de aval médico (“jejum intermitente“) – antigamente o nome disso era “No Food”.

O interessante disso tudo é que o público reconhecia que era um discurso perigoso, propagado por pessoas adoecidas.

Não é mais assim.

A relação das pessoas com a comida vai de mal a pior. As pessoas têm tanto medo de comer que só se sentem com a consciência tranquila quando não comem absolutamente nada.

Você já pensou nisso?

Faça uma investigação mental e pense se hoje em dia existe algum tipo de alimento idôneo que não irá te engordar ou te matar [e o aspecto mais maluco disso tudo é que muitas pessoas preferem a segunda opção à primeira – não estou exagerando]

Pão engorda e contém glúten. (não importa o fato de que boa parte das pessoas nem sabe O QUE É o glúten)

Carnes têm hormônios e muita gordura saturada.

O leite tem lactose [coisa que você NÃO PODE comer, mesmo sem saber nada sobre isso] e segundo aquele médico cardiologista e nutrólogo, causa até demência.

ele também falou que sol causa câncer, e o protetor solar TAMBÉM

As hortaliças e legumes estão cheios de agrotóxicos.

As frutas estão cheias de frutose – o veneno glicêmico DO MAL.

Você ouviu as recentes teorias sobre as substâncias ilegais que o governo está colocando na nossa água???????????

PENSE por um segundinho: existe alguma coisa que possa ser ingerida sem te causar peso na consciência?

Não é à toa que as pessoas estão investindo no NADA. Se você não comer NADA, não tem erro, certo?

A diferença é que agora justificativas como “você não precisa de comida“, “comer é um vício“, “seja superior à fome” e “as pessoas que querem te convencer a fazer três refeições diárias estão te sabotando” não estão mais nos Blogs das anoréxicas e saem da boca de médicos que parecem galã de novela mexicana.

(Vamos brincar de adivinhação? Vocês acham que eu peguei a figura acima num site proana ou num instagram sobre jejum intermitente?)

Eu estou tentando me comunicar com o público de forma clara e honesta. Não tem como competir com grandes apelos como: “VOCÊ VIU O QUE A DEBORAH SECCO FAZ PARA TER AQUELE CORPÃO?”

Vou contar para vocês: não é fácil nadar contra a corrente. Mas a gente segue tentando, certo?

Portanto vou dar a vocês meu conjunto de razões para não endossar a prática do No Food “jejum intermitente”:

1) Todos os argumentos a favor da prática de jejuns são técnicos.*

As pessoas enchem a boca para falar sobre o jejum intermitente como estratégia para manejo de condições clínicas como resistência à insulina, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e CLARO, para o emagrecimento. O pessoal do jejum ADORA argumentar com chuva de ESTUDOS RANDOMIZADOS™.

Interessante.

Acontece que precisamos lembrar que existe um ser humano envolvido. Tem cabimento estabelecer um protocolo como “padrão ouro” se a aplicabilidade dele é mínima?

Não adianta se comprometer com coisas que só funcionam no âmbito teórico.

Ficar horas em jejum é perigoso não somente por questões físicas, mas também por conta do impacto mental, emocional e cognitivo somado ao severo comprometimento da vida social.

Uma pessoa que tem uma rotina agitada, casa para cuidar, trabalho, filhos para criar NÃO PODE sair por aí sem comer como se isso fosse uma tarefa fácil de cumprir. Mais complicado ainda se existe algum tipo de relacionamento emocional com a comida. Jejum intermitente é uma pistola engatilhada na mão de um compulsivo.

(Se você tem compulsão alimentar, ISTO é o jejum na sua vida)

*E os argumentos que NÃO SÃO técnicos podem todos ser encontrados no fórum proana mais perto de você. Bacana, né?

2) Ficar em jejum é uma imposição tão grande quanto comer a cada três horas.

Os adeptos do jejum intermitente também gostam muito de falar sobre o grande absurdo que é a famosa regra do “comer de três em três horas”.

Eu também acho um absurdo.

Acontece que as soluções para as coisas não precisam funcionar na base do 8 ou 80. “Não é verdade que precisamos comer a cada três horas, então vamos FAZER JEJUM” – Oi? Você acha isso razoável?

Eu sou uma nutricionista muito irresponsável que diz às pessoas que elas devem comer quando sentem fome. QUE LOUCO NÉ?

O que você precisa entender sobre o apetite é que ele é uma sensação física muito dinâmica. Não, ele realmente não brota no seu corpo a cada três horas. Então quando é que ele aparece?

R: depende.

Depende do clima, das atividades que você fez, das suas emoções e da composição da refeição que foi feita.

Se você come um prato de macarrão, fica com fome duas horas depois.

Se você vai na churrascaria rodízio, só sente fome no outro dia.

E se alimentar de modo saudável significa saber administrar essas sensações físicas.

O médico galã mexicano te falou que MENTIRAM quando disseram que era necessário comer a cada três horas, bacana. Mas ficar sem comer na hora que o apetite aparece é uma imposição também!!

Se no meio das suas 23 horas de jejum você fica com fome e vai chupar gelo para esquecer, isso é um desrespeito ao organismo ASSIM COMO comer quando o corpo não precisa.

4) Você não é um monge tibetano.

O jejum é uma prática milenar presente em inúmeras religiões e filosofias de autoaperfeiçoamento. E eu não tenho nada a dizer a respeito disso porque muitos praticam jejuns como forma de desenvolvimento espiritual.

Mas pode ter certeza: o pessoal que está por aí praticando jejuns tem objetivos bastante diferentes. Estamos testemunhando um boom de ascetismo no meio de uma sociedade secular. Bastante curioso, mas o que está sendo cultuado é um corpo magro. As blogueiras mais famosas do Instagram não estão interessadas em alcançar o Nirvana.

As pessoas que praticam jejuns com seriedade e por motivos espirituais têm muito preparo físico e mental para isso!

Se você aderiu aos jejuns por causa do “corpão da Deborah Secco” e nunca fez nenhum tipo de exercício de autoconhecimento… desculpa, preciso te informar: não vai prestar.

Não há como combinar a rotina de um ocidental workaholic com as práticas de um monge tibetano. Conheça seus limites (e repense suas prioridades...)

5) Nossos ancestrais não ficavam sem comer POR OPÇÃO.

O pessoal do JI também adora romantizar a pré-história.

Eles dizem que os nossos ancestrais passavam longos períodos sem comer – e é aí que os objetivos de jejuar e emular a vida de um neandertal se encontram.

Fato digno de nota: o homem primitivo praticava frequentes jejuns porque não tinha outra alternativa.

Existe uma diferença IMENSA entre passar fome porque o ambiente te força e passar fome voluntariamente.

Você acha que se um homem pré-histórico TIVESSE A OPORTUNIDADE de se alimentar todos os dias, ele iria escolher não comer?

Por quanto tempo você acha que é possível viver simulando uma condição de privação que não existe?

Você não foi “evolutivamente desenhado” para recusar alimento. Não caia nesse papo. TODOS OS SERES VIVOS, dos mais simples aos mais elaborados, buscam e honram a possibilidade de se alimentar.

Se uma pessoa está inapetente e/ou recusa o alimento, existe algo errado. Ela pode estar sofrendo de alguma doença orgânica séria ou de transtorno alimentar restritivo, como as autoras dos sites proana que eu mencionei anteriormente.

ORGANISMOS VIVOS SAUDÁVEIS NÃO ESCOLHEM NÃO COMER!!

Pelos motivos apresentados eu não endosso, não prescrevo e não recomendo a prática de jejuns em nome do emagrecimento. Não tenho ressalvas em relação ao jejum praticado por questões espirituais/religiosas.

E se você está com os dedos prontos para me escrever que “O pesquisador do jejum intermitente GANHOU O NOBEL“, só deixa eu te lembrar que o trabalho que ele fez foi com leveduras

(Isto é uma cultura de leveduras)

ENTENDA: Você não é um “pool” de células. Você é um ser humano. E muito do complexo.