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“Eu sou feminista e não aceito o meu corpo.”

Durante a última semana, várias pessoas me enviaram o link deste texto, dizendo que se identificam muito com a situação.

Vamos falar sobre isso.

O meu objetivo não é chamar ninguém de “feminista de meia tigela”, nem dizer que essas moças são hipócritas. De maneira alguma!

Mas uma vez que eu trabalho diretamente com o tema, acho importante dar uma palavra sobre essa questão.

Eu sou uma pessoa ativa na internet e isso proporciona o contato com várias mulheres e com discussões sobre vários temas importantes, muitas vezes relacionados aos direitos da mulher e ao combate às situações sociais opressoras.

Conheço blogueiras que fazem trabalhos incríveis, cada uma dentro da sua expertise.

Mas eu não tenho dúvidas de que a minha seara – a problemática do CORPO – é a mais difícil de desconstruir. A insatisfação corporal pode atingir a mais roxa das feministas! E além de tudo, PARECE ser uma questão menor, inócua, inocente. Que mal tem querer perder dois quilos?

Vejo moças com muita consciência política, e sempre prontas para militar pelos seus direitos… que se sentem constantemente tentadas por uma nova dieta. Ou por um remedinho. Muitas têm transtorno alimentar (os mais usuais são compulsão e bulimia).

Antes de dar continuidade, gostaria de ressaltar que questionar os padrões de beleza e aceitabilidade da sociedade ocidental é, definitivamente, um ato político.

No entanto:

– Ter um bom relacionamento com o próprio corpo é FUNDAMENTAL para a saúde emocional, psicológica, mental e física de qualquer indivíduo. Fazer as pazes com o corpo é uma coisa boa para melhorar a qualidade de vida, seja a pessoa em questão de esquerda, de direita, de diagonal ou de revesgueio. A vergonha do corpo pode deixar um indivíduo doente de muitas maneiras. Portanto, eu bato tanto na tecla da aceitação (que de modo algum significa a mesma coisa que “conformismo”) NÃO porque toda mulher deva ser uma tombadora, destruidora, diva lacradora do rolê e postar fotos de lingerie para provar que é feminista… mas sim porque isso faz bem para a saúde. De verdade. Inclusive, observem a pressão de uma certa ditadura do lacre que vem crescendo, que transforma o objetivo do processo de aceitação corporal em ~SAMBAR NA CARA DA SOCIEDADE~, sendo que aceitação é algo que você deve buscar por você, não para esfregar na cara dos outros.

Dito isso, pergunto: Por que é tão difícil aceitar o próprio corpo?

R: Porque todos acreditam que ser atraente [de acordo com critérios bastante específicos] traz felicidade e sucesso. Porque esta é uma ideia que foi muito, muito, muito, MUITO bem vendida.

Não é difícil identificar que sofrer violência física partida de um homem é uma coisa ruim.

Não é difícil identificar que ganhar um salário menor do que os homens é uma coisa ruim.

Não é difícil identificar que violência patrimonial é uma coisa ruim.

Não é difícil identificar que assédio sexual é uma coisa ruim.

Não é difícil identificar que ser taxada de emocionalmente desequilibrada é uma coisa ruim.

Não é difícil identificar que vale a pena romper relacionamentos abusivos.

Não é difícil compreender que slutshaming é uma coisa que pode culminar em suicídio.

…Mas quem é que não quer perder uns quilinhos????

Uma situação de violência contra a mulher é sempre algo mais do que NÍTIDO. Mas a cultura da beleza é tão sutilmente tóxica que cada mulher que sofre pressão estética interpreta o seu desejo de ser mais bonita [aka mais magra] como uma demanda individual. É como se a a insatisfação com o seu corpo partisse de você e fosse uma experiência particular (“que mal tem querer melhorar minha estética?”) – mas não é. É um fenômeno assustadoramente coletivo.

Por mais feminista que uma pessoa seja, é muito difícil se desfazer de uma promessa de felicidade.

Ninguém quer apanhar do namorado, mas um jeans 38 não seria nada mau.

(Pode ser que você não compre o machismo, mas compre esta vida)

Então chegamos aos problemas causados por uma sociedade que venera a magreza.

O ser humano valoriza a estética e as formas corporais desde que o mundo é mundo. Há registros milenares de adornos e técnicas rudimentares de maquiagem. O ideal de corpo promovido pela antiguidade clássica não é segredo para ninguém. E tudo isso é normal.

O que é diferente HOJE é o papel central que a beleza (que virou sinônimo de magreza) ocupa na vida das pessoas. Para muitos de nós, a manutenção dos atributos físicos é a coisa mais importante que existe.

E perseguir uma beleza inatingível, e se atingível, efêmera… é um grandíssimo fator de sofrimento.

Mas a pressão para que os nossos corpos sejam magros é algo que vai muito além da beleza!

Todos os corpos sofrem uma cobrança sufocante que parte da indústria da moda, indústria do emagrecimento, indústria cosmética, indústria do sexo, indústria farmacêutica, da família, dos amigos, dos colegas de trabalho…e também dos órgãos oficiais de saúde e autoridades governamentais. É doutrinamento que vem de absolutamente todos os lados.

– Gordos devem emagrecer.

– Magros não devem se deixar engordar.

Portanto, ser magro não significa somente ser mais atraente, mas também um dever moral e cívico.

Não existe absolutamente NENHUMA situação e NENHUMA forma de discurso que negue as normas higienistas que constroem um “bom corpo”. Um corpo socialmente aceitável e válido.

E há agravantes: as informações que as pessoas conhecem e propagam a respeito de corpo e controle de peso são errôneas.

O princípio fundamental da cultura do emagrecimento é a crença na ideia de que nós podemos ter o corpo que quisermos, moldando a nossa figura por meio da “força de vontade” como se fosse massinha de modelar. E que se você NÃO CONSEGUE seguir uma dieta e um programa de exercícios até atingir o seu objetivo, é porque não se esforçou o suficiente.

Ou seja: toda mulher é uma Deborah Secco em potencial, mas não se esforça para isso.

Isso é uma galopante mentira.

Nós podemos modificar a nossa forma física até certo ponto. E o “certo ponto”  do qual eu estou falando é muito distante da ideia mental de “corpo atingível” que as pessoas fazem.

(Escala de insatisfação corporal – Stunkard)

Marque a silhueta que corresponde ao seu corpo. Em seguida, marque o corpo que você gostaria de ter. Quanto maior a distância entre as silhuetas, maior é a sua insatisfação corporal, e mais irrealistas as expectativas.

Outra coisa: se você não se gosta AGORA, dificilmente vai se gostar se for mais magra. Muitas mulheres mergulham numa jornada de emagrecimento buscando felicidade, sucesso e paz interior… mas descobrem da pior maneira que ser mais magra não é tudo isso. Se você crê que O ÚNICO problema que você tem é ser gorda, uma vez que você retira este “muro” da frente, aparece uma montanha de problemas que você não estava reparando que estavam ali, uma vez que só se preocupava em ser mais magra.

Mais uma: ter um “corpo dos sonhos” é uma coisa que exige MUITO tempo, esforço, dinheiro e generoso favorecimento genético. É dedicação exclusiva. Você está constantemente comparando os bastidores da sua vida com o espetáculo das celebridades. O preço de um corpo de parar o trânsito é altíssimo, acredite.

Como eu disse anteriormente, você não tem a obrigação de ser uma deusa-lacradora e se achar maravilhosa. Mas ter um entendimento realista sobre o seu corpo pode ser crucial para a sua saúde.

Estou dizendo o seguinte: se uma pessoa passa a vida absorvendo a mensagem de que o seu corpo é feio, inadequado, uma vergonha… como é que ela vai ter coragem de abraçar uma rotina de atividade física e expor este “corpo horrível”?

Faça uma lista mental de quantas coisas você já perdeu de fazer na vida por sentir vergonha do seu corpo. Isso é triste, não? Você tem planos de viver assim pelo resto dos seus dias?

I have never stopped hating my body

(“Eu nunca parei de odiar meu corpo”: Sam, 63 anos – você NÃO PRECISA viver desse jeito tão limitante. É possível escolher diferente)

A aceitação corporal sempre resulta em melhor qualidade de vida. E isso é mais importante do que qualquer tipo de militância de LACRAÇÃO.

Mas para finalizar, vamos falar sobre a questão que realmente concerne o feminismo:

estatua

(Mulher com a criança no quadril -1979, do costa-riquenho Francisco Zuniga)

Eu vou falar uma coisa séria para vocês…

Essa sensação ruim a respeito do nosso tamanho e o volume que o nosso corpo ocupa tem raiz numa séria crise que a sociedade tem em relação ao corpo feminino.

A nossa sociedade é patriarcal e por este motivo, valorizamos tudo que se relaciona com o masculino: força, autocontrole, pragmatismo, objetividade, disciplina, produtividade.

As qualidades femininas simplesmente não têm lugar: introspecção, emotividade, criatividade, generosidade, abundância, sensibilidade.

Um corpo feminino com culote, barriga, quadril, estrias, celulites, pouca definição é uma epítome de tudo isso! O corpo da mulher incomoda apenas por existir. Por desafiar silenciosamente todo um sistema de valores e crenças.

Durante as últimas décadas, o padrão de beleza foi ficando cada vez mais magro, cada vez mais infantilizado, cada vez mais andrógino… suprimindo cada vez mais as características corpóreas essencialmente femininas. E acredite: isso não tem nada a ver com beleza.

O que se pede hoje é que as mulheres tenham um percentual de gordura semelhante ao masculino. E não é natural. Porque as mulheres TÊM mais gordura corporal do que os homens. Novamente: a ideia não é ficar bonita – é ser forçada a se assemelhar ao homem.

Existem razões MUITO profundas por trás do desejo de ser menor [mais magra]

Fazer dieta significa comer menos.

Comer menos significa diminuir as dimensões corpóreas.

Diminuir as dimensões corpóreas significa ocupar menos espaço no mundo.

Ocupar menos espaço no mundo significa sumir.

E sumir é o que a sociedade patriarcal faz com tudo o que é feminino.

Pensem nisso. De verdade.