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Um problema MUITO sério.

Estou reservando tempo na minha tarde para alertar novamente sobre o tamanho do problema que está acontecendo neste país. É uma doença grave. E se chama Fitness.

Não é segredo para ninguém que a magreza está em alta. Dieta está em alta. Musculação e crossfit estão em alta. Demonizar carboidrato está em alta. Enaltecer a prática de jejuns está em alta.

Por favor, entenda: tudo isso é muito perigoso.

Eu não estaria batendo na mesma tecla até sangrar meus dedos se este não fosse um assunto MUITO IMPORTANTE.

Eu não quero jogar um balde de água fria no seu estilo de vida. Eu não quero sabotar o emagrecimento das pessoas só por “recalque”. Eu não quero fazer “bullying” com pessoas saradas.

Eu não sou cardiologista nutróloga.

Eu não sou fisioterapeuta.

Eu não sou atriz da globo.

Eu não sou ex-bbb.

Eu não sou médica nefrologista.

Eu não sou blogueira.

Eu não sou life coach.

Eu sou uma pessoa que escolheu dedicar a vida para estudar alimentação humana. E transtornos alimentares. Eu não entendo de design de interiores, origami, nanotecnologia, aeromodelismo, filmes iranianos nem astrofísica. Mas acredite: eu entendo sobre relação com a comida.

É muito difícil remar contra a maré e manter os pés no chão enquanto todos estão deslumbrados com teorias sobre “vício em açúcar” e as maravilhas da indução da cetose.

Mas eu não vou desistir.

Durante a última semana apareceram duas celebridades falando sobre restrição alimentar nos grandes meios de comunicação.

Uma delas contou ao público como encontrou prazer e ficou familiarizada com a sensação de estar com fome.

A outra falou sobre perda de peso drástica no puerpério: “consegui amamentar apenas por 15 dias”

Considero um dever moral alertar o público a respeito de práticas corporais que não têm absolutamente nada a ver com saúde. Comentei sobre o quanto é perigoso naturalizar a restrição alimentar e como isso pode ser porta de entrada para problemas mais sérios.

Fui, então, acusada de “Fitness-Shaming” (ou seja, de estar sendo saradofóbica ou coisa que o valha)

Na reportagem sobre a cantora que encontrou prazer na escassez, várias pessoas apareceram para comentar: “precisamos ter mais empatia!”

Calma, gente.

Estamos misturando as coisas.

“Empatia” é uma das palavras altamente banalizadas na internet, e que agora aparece em todos os momentos mesmo que isso não faça sentido nenhum.

Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. É compreender emocionalmente as outras pessoas. É imaginar como seria caminhar alguns quilômetros com as sandálias do outro.

…Empatia não é a aceitação bovina das coisas.

Eu entendo que buscar um corpo mais magro pode ser uma jornada fascinante.

Eu entendo que traçar objetivos para serem atingidos é muito entusiasmante.

Eu entendo que não é nada difícil venerar magreza vivendo num mundo que venera magreza.

Eu entendo que aprender a burlar a fome gera uma sensação de poder e superioridade (o que a literatura chama de “orgulho anoréxico”).

Eu entendo que o estilo de vida fitness tem um magnetismo difícil de desviar.

Eu entendo que para algumas pessoas, perder peso progressivamente é uma coisa que causa felicidade e um desejo intenso de continuar.

Eu entendo que muitas inseguranças que a pessoa passou ao longo da vida podem ser mascaradas num projeto de transformação do corpo.

No entanto, COMPREENDER as motivações e os sentimentos do outro não é a mesma coisa que ignorar os aspectos inadequados e errados.

“Sentir prazer na restrição alimentar” é uma fala EXTREMAMENTE disfuncional e nós não podemos deixar de identificar e apontar isso em nome da “empatia”.

(Isto NÃO É uma motivação para ser saudável: é um convite para levar o corpo ao mais absoluto limite)

Mas Paco, por que você fala tanto sobre isso?

R: Porque o trabalho de redução de danos está ficando cada vez pior.

Lido com muitas pessoas que descobriram da pior maneira que a glória de ser fitness dura pouco e depois a conta chega.

Vou contar uma coisa para vocês…

Ser radical com as coisas é o caminho mais fácil. Acreditar numa regra única (“carboidratos são do mal” ou “praticar jejum é a solução”) é delegar a responsabilidade pelo autocuidado. É terceirizar a vida. É acreditar no Jejum, que é O Poder Maior. É não precisar pensar, decidir ou se conhecer. Pensar nas coisas em termos de “8 ou 80” é a lei do menor esforço.

(Imagem enviada por leitora do NSE)

As pessoas querem solução rápida. As pessoas querem caminho único. As pessoas querem perder MUITO peso, MUITO rápido. As pessoas apenas se jogam na vida num estado acrítico e reativo… E não querem pensar em mais nada.

Como competir com um mercado que movimenta trilhões de dólares ao redor do mundo? (desculpa, eu não sou terraplanista)

Semanalmente eu recebo dezenas de depoimentos de pessoas que desmaiaram no chuveiro,  se machucaram, cortaram a testa nessa brincadeira de jejum. Adolescentes que choram de medo da comida. Mulheres magras que juram de pés juntos que são gordas. Pessoas que têm ataques de pânico na presença de um pão. Pessoas que perdem a vida social, estão com o casamento por um fio, se lesionaram seriamente por causa de tanto treino.

Repito: FITNESS é uma máquina de destruir vidas.

Se você não acredita em mim, peço que escute este áudio que foi enviado por uma leitora no meu Whatsapp:

Transcrição:

“…Teve até um aniversário da minha mãe, uma comemoração atrasada que eu não fui. Porque no dia não deu para mim (sic) preparar todos os mantimentos que eu comeria na festa [da minha mãe]

Eu sei que no dia eu me desesperei.

Eu me alimentei OK, fiz tudo bonitinho.

Mas… Eu me senti culpada. Era a minha mãe, sabe? Era o dia dela.

E a única coisa que me passava na cabeça era a porcaria de um percentual de gordura.

Um percentual de gordura que nem é saudável, p**!

Que não me trouxe saúde nenhuma, que não me trouxe segurança nenhuma…

Pelo contrário: porque (tipo) nunca era o suficiente, então a insegurança de nunca estar suficiente ia crescendo…”

Não pense que este relato é raro.

São dezenas, centenas de casos assim.

Será que AGORA deu para entender a seriedade deste assunto?