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Jogo dos oito erros.

Oi 🙂

Vamos conversar a respeito de coisas muito, muito erradas? Vem comigo!

Observe a imagem abaixo:

Esta figura circulou bastante nas redes sociais durante a última semana, principalmente nos perfis que defendem a dieta lowcarb. As pessoas riram, compartilharam, fizeram textões demonizando o pão e marcaram umas às outras na imagem.

Você consegue enxergar inadequações nesta publicação? Ou ela lhe parece informativa, normal?

Se você não consegue perceber algo de MUITO errado nesse tipo de conteúdo, vou te dar um toque: você precisa repensar as suas concepções sobre saúde e controle de peso. Porque tá tudo errado. Tudo. Mesmo.

Me acompanhe neste jogo de oito erros:

1) As mulheres não têm cabeça.

É natural para você ver postagens de “motivação” fitness com corpos de pessoas sem a cabeça?

Reflita.

Porque não existe nada de natural nisso. À medida em que somos expostos à imagens de corpos esbeltos e tonificados sem qualquer tipo de identidade, começamos a absorver a mensagem de que o que nos confere valor é a silhueta. O corpo.

A cabeça é um elemento muito importante. Fundamental.

A cabeça coordena o todo, nos difere dos demais, determina nossas preferências e personalidade…conta a nossa história.

QUEM são as duas mulheres da imagem? Qual o rosto delas? O nome? Uma mulher sem cabeça não é nada, não é ninguém. E quando as coisas que mais importam para você são o seu peso, suas medidas, seu percentual de gordura ou o número da etiqueta das sua roupas… você também se torna ninguém. E desconecta das suas particularidades, qualidades, talentos, tudo aquilo que te faz um ser humano único.

Desenvolva um olhar crítico e questione as mensagens que fazem você acreditar, de forma declarada ou sutil, que a coisa que mais interessa em você é o que existe do pescoço para baixo – porque a realidade é exatamente o oposto!!

2) Corpo não vale como anamnese.

É simplesmente absurdo e risível sugerir que possa ser possível determinar o que um indivíduo come apenas OLHANDO para o corpo dele. Isso não existe.

Quando eu olho para uma pessoa, eu simplesmente não posso determinar os alimentos que ela costuma ingerir (ou não). Ninguém pode!

É fantasioso, praticamente uma lenda urbana, propagar por aí que a mulher mais magra assim o é porque não come pão.

Só podemos descobrir o que alguém andou comendo testemunhando ou perguntando.

Nunca faça julgamentos a partir de realidades que você desconhece.

3) Corpo não vale como exame clínico.

As pessoas que publicam esse tipo de conteúdo na maioria das vezes estão unicamente preocupadas com o aspecto físico. Mas há quem tenha a pachorra de alegar que estão promovendo saúde.

Não é o caso. Nunca é.

Da mesma maneira que é impossível determinar o que uma pessoa come na base do “olhômetro”, o corpo das pessoas também não revela indicadores de saúde.

Não sabemos o que as duas mulheres costumam comer (fato agravado pelo fato de que elas não têm cabeça, logo, também não têm boca…), assim como não sabemos a quantas anda a saúde delas.

O que eu sei sobre colesterol, glicemia, pressão arterial, função tireoidiana e outros parâmetros clínicos no corpo dessas duas mulheres?

R: Rotundamente NADA.

Ou seja: é apenas uma imagem estigmatizante que condena as pessoas parecidas com a mulher da primeira foto por SUPOSTAMENTE não terem força de vontade o suficiente para deixar de comer pão.

100% bobagem.

4) Pessoas magras comem pão!!

Se você chegou até essa altura do campeonato acreditando que “o segredo” das pessoas magras é não comer pão… só te digo: sai dessa vida.

A maioria das pessoas magras é magra por motivos de… elas SÃO assim. É a constituição delas. Não existe nenhum “trabalho de manutenção” envolvido.

ESQUEÇA de uma vez por todas a ideia de que todos os magros são “gordos em potencial” que só não engordam porque controlam o que comem. Isso é besteira. As coisas definitivamente não são assim.

Uma parcela mínima das pessoas magras que você vê por aí faz grandes sacrifícios para “manter” o corpo.

Pessoas magras comem de tudo. Pão, doce, fritura, todas as coisas supostamente “erradas” ou “proibidas”. E até MAIS do que os gordos, se você quer saber (justamente porque quando a pessoa é magra, ninguém fica torrando a paciência dela em torno das escolhas alimentares que ela faz)

EU, Paola, autora que vos escreve, tenho o corpo mais parecido com o da a mulher “sem pão” e garanto para vocês que TÁ TENDO pão na minha vida.

Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiii nutricionista que come pão!!!!

Sim, sou. Como. Amo.

Venham me pegar com tochas e picaretas.

5) Perda de peso e medidas não é emagrecimento.

Já expliquei isso em outros momentos, mas vou falar novamente: “murchar” não é emagrecer!!

Existe um mecanismo enganoso em torno do hábito de cortar carboidratos para emagrecer.

O nosso corpo tem estoque de carboidrato, você sabia disso? Se chama glicogênio. O glicogênio é armazenado no fígado e nos músculos. Ao contrário do tecido adiposo, que é capaz de expandir indefinidamente, o glicogênio que conseguimos estocar é limitado.

Quando você diminui drasticamente [ou corta] o consumo de carboidratos, o corpo vai precisar buscar a energia que não está mais obtendo a partir dos alimentos.

Você acha que ele retira essa energia diretamente da gordura?

Não.

Na falta de fornecimento de carboidrato, o corpo consome as reservas de glicogênio.

E cada molécula de glicogênio está sempre unida a duas ou três moléculas de água.

Resultado: a pessoa perde peso, porque consome o glicogênio e perde ÁGUA.

Quando a restrição se torna intolerável e a pessoa retoma o consumo dos carboidratos, a consequência disso é que a reserva de glicogênio se forma inteirinha de novo. Juntamente com a água. E o peso volta.

Uma vez que todo o peso volta, a pessoa conclui: “o carboidrato COM CERTEZA é o maior vilão da minha vida”

Por isso existem inúmeras pessoas vivendo hoje totalmente reféns do processo:

1.cortar carboidratos.

2. perder peso.

3. voltar a consumir.

4. ganhar peso.

Emagrecer significa: aumentar o tecido livre de gordura dentro do corpo. E pode ter certeza que isso não acontece em uma semana.

6) Carboidrato NÃO É vilão.

Você tem ouvido as pessoas falarem HORRORES sobre os carboidratos? Que eles são a causa de todos os nossos problemas, nos deixando gordos e doentes?

Se acalme.

Isso não é verdade. É puro terrorismo.

Eu fiz um vídeo explicando sobre os carboidratos e sobre porque não devemos adotar atitudes extremas. Quando for possível, reserve um tempinho para escutar:

 

7) Você NÃO PRECISA ser o mais magra possível.

Este, no meu entendimento, é o ponto mais importante:

VOCÊ NÃO PRECISA TER O CORPO DA MULHER “SEM PÃO”!!!!

Não é o seu dever ser o mais magra possível.

Não é verdade que “quanto mais magra, melhor”.

Não é verdade que existe algo de inadequado ou errado com o tipo de corpo da mulher “com pão”.

Se você tem um corpo saudável e estável e usa manequim 42… você não precisa usar 38.

Se você tem uma rotina feliz e equilibrada e tem 65Kg… você não precisa pesar 50!!!!

Se você não tem nenhuma justificativa clínica para adotar medidas para perder peso… você não precisa emagrecer.

Não é um “fato natural” que você sempre tenha o desejo de ter o corpo mais magro da história da sua vida. Isso não faz o menor sentido.

Ao contrário do que falei anteriormente a respeito das pessoas naturalmente magras, precisamos agora falar sobre as mulheres artificialmente magras.

Muitas vezes para que o seu peso seja radicalmente mais baixo, você precisa se comprometer com uma VIDA HORRÍVEL.

Entenda: se você não é naturalmente parecida com a mulher magra da foto, o preço de moldar seu corpo na direção dessa desejada magreza é uma VIDA HORRÍVEL.

Você compreende a seriedade disso?

Cismar com um tipo de corpo que não te pertence significa comer pouquíssimo, treinar até a exaustão, dormir com fome, perder a vida social… Passar fome. Literalmente.

Além de tudo, pessoas que forçam uma magreza que não lhes é natural podem também abusar de métodos controversos como cigarro, anfetaminas, laxantes, diuréticos e até vômitos autoinduzidos.

Se ferir em nome de um manequim que não condiz com o seu tipo físico não tem NENHUMA RELAÇÃO com autocuidado ou com ter uma vida saudável.

Você já parou para pensar que talvez não exista nada de “errado” com o seu corpo, suas medidas ou seu peso?

QUEM FALOU que você tem a obrigação de ser parecida com a mulher mais magra?

Você conhece a canção “Try”, gravada pela Colbie Caillat?

Ouça de novo. Preste atenção. Acompanhe a letra AQUI.

Solte

Este

Chicote

Você não precisa dele.

Ao invés de ficar gastando a sua energia pensando sobre cortar o pão da sua vida para ficar magra, se pergunte:

Quando você está sozinha, sem mais ninguém… você gosta de você?

8) São duas pessoas DIFERENTES.

A montagem poderia fazer algum sentido se estivesse mostrando uma comparação entre dois momentos da vida DA MESMA PESSOA. Seria controverso por outros motivos, mas ao menos teríamos uma contraposição válida.

A figura faz uma comparação entre duas mulheres sem cabeça, completamente diferentes e fora de contexto.

Não é a história de uma única pessoa que deixou de comer pão. É uma comparação de “Joana” com “Brigite”. Não tem nexo nenhum.

Certo?

Deixo o meu sincero agradecimento ao pessoal da Low Carb porque eu guardei a figura para usar no consultório para explicar às minhas pacientes como as coisas NÃO DEVEM ser.

OBRIGADA PELO MATERIAL