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Sofrer por ser magra?

Eu não assisto Bem Estar. Eu não assisto Fantástico. Eu não assisto Globo Repórter. Eu não assisto nenhum tipo de programa de TV que passe informações sobre saúde para a comunidade de maneira superficial e irresponsável. Porque me irrita.

…Então eu certamente nunca assisto o programa da Fátima Bernardes.

Hoje foi diferente.

Eu fui cortar o meu cabelinho de manhã e precisei ficar aguardando um pouco até ser chamada pela cabeleireira. A televisão estava ligada no “Encontro”, no big deal.

Eu juro que não estava prestando um pingo de atenção, estava concentrada trocando algumas mensagens no whatsapp, e de repente a seguinte frase chamou a atenção dos meus ouvidos como se fossem radar:

“A Carol é uma daquelas pessoas que sofrem por serem muito magrinhas.”

WHAT?!

Eu então comecei a prestar atenção e percebi o que estava acontecendo: eles exibiram uma reportagem sobre o movimento Vai Ter Gorda na Praia e logo em seguida desviaram o foco para mostrar “o outro lado” – o [suposto] sofrimento das pessoas magras.

Não me entenda mal: ser chamada de “pau de virar tripa”, ouvir que “quem gosta de osso é cachorro” e precisar recorrer à sessão infantil na hora de comprar roupas são, sim, situações chatas.

Mas será que tem cabimento afirmar que pessoas SOFREM unicamente pelo fato de serem magras? A frase proferida no programa hoje de manhã ficou martelando de modo insistente dentro da minha cabeça, a tarde toda! Até porque o último texto que eu escrevi neste Blog foi sobre como a obesidade é um problema muito mais grave, complexo e profundo do que normalmente imaginamos.

O preconceito contra a obesidade mata mais do que qualquer doença que um gordo possa ter. Porque não são poucas as vezes em que uma pessoa adoece porque foi tratada sem um pingo de dignidade. Todos nós sofremos pressão para modificar a nossa aparência de alguma maneira, porque a nossa sociedade tem o corpo em altíssima conta e é como se todos os corpos de todas as pessoas fossem domínio público – mas o estigma da gordura é algo muito maior do que simples pressão.

Me pergunto de verdade: alguma pessoa nesse mundo já entrou em depressão clínica grave… por ser magra? Já cogitou e/ou tentou suicídio… por ser magra? Perdeu a vida social e se isolou… por ser magra? Já foi torturada na escola… por ser magra?

Eu aceito falar sobre como ser acentuadamente magro pode ser um incômodo. Aceito que existem algumas situações desfavoráveis e comentários indesejados. Mas precisamos lembrar que o corpo magro não é constantemente visto como um problema (muito pelo contrário!!!) e que pessoas magras não vivem a constante sensação de habitar num mundo que não lhes pertence.

Continuo achando absolutamente inconcebível colocar as dificuldades diárias de gordos e magros no mesmo patamar, portanto dou o meu relato em primeira pessoa sobre porque ser magra não é um fator sofrimento:

Eu nunca me sentei numa cadeira e temi que se quebrasse a qualquer momento;

Eu nunca entalei numa catraca;

Todos os meios de transporte têm lugar para mim;

Consigo comprar roupas sem dificuldade;

Não “tenho que” comprar uma peça só porque serviu;

Tenho o privilégio de escolher entre as peças disponíveis;

Não preciso de roupas “Less Size”;

Caso as roupas da loja sejam grandes demais para mim, isso é fácil de resolver: mando ajustar;

Nunca fui reprovada em entrevista de emprego pelo fato de ser magra;

Nunca passei o constrangimento de trabalhar num lugar no qual não houvesse uniformes do meu tamanho disponíveis;

Quando eu estou numa festa, ninguém olha o que eu coloco ou deixo de colocar no prato;

Não recebo palpites indesejados sobre formas de ganhar peso;

Não existe cirurgia para corrigir o meu corpo;

Nunca sofri bullying na escola por causa do meu aspecto físico;

Ninguém relaciona características morais negativas com a imagem do meu corpo. Se fazem suposições, são todas positivas (corpo magro supostamente reflete disciplina, autocontrole, organização…);

Nunca fui apagada do álbum de fotos oficial da balada por causa do meu corpo magro;

Nunca ninguém me disse: “você só faz magrice!”

Ninguém tentou me explicar que eu devo ganhar um pouco de peso em nome da minha saúde;

Nunca ouvi um “você precisa emagrecer” da boca do médico sem nem ao menos ter mencionado os motivos que me fizeram buscar uma consulta;

Sempre vejo pessoas parecidas comigo na televisão;

Eu não tenho vergonha de comer na frente dos outros;

Não preciso de um movimento VAI TER MAGRA NA PRAIA para me representar, porque eu nunca fui mal-vinda nela;

Ninguém fala que tem “fetiche” por corpos como o meu;

Ninguém nunca me disse que eu “não tenho corpo” para usar certas roupas;

Pessoas na internet jamais se reuniriam para “rachar” uma foto minha de biquíni;

Eu poderia continuar escrevendo mais e mais e mais coisas.

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(Corpo MAGRO é a coisa que as pessoas mais querem nessa vida!!)

Mas o que eu estou querendo dizer é: além de receber uns apelidos e sofrer uma implicância aqui e outra ali…

Me explica como é que um corpo magro pode SOFRER inserido dentro de uma cultura que simplesmente venera a magreza?