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“Além de 13 porquês”

Recentemente recebi o relato de uma leitora que se sentiu encorajada a partilhar sua história após ter assistido a série do Netflix “13 Reasons Why“.

É uma experiência com bullying, rejeição, agressão (física e psicológica), baixa autoestima, isolamento, depressão, humilhação, decepção… e sobrevivência!

Ao longo do texto, identifico a autora como “Fernanda” (nome fictício) com o intuito de preservar sua identidade.

Segue o testemunho:

“Além de 13 porquês.

Bom, vou separar meu relato em 3 fases.

Infância: foi boa, talvez até uma das melhores fases (vulgo “a menos pior”) da vida. Com 5 anos comecei a ter os primeiros sinais de bullying. Eu era gordinha, meus cabelos eram rebeldes e armados, meus dentes eram tortos. Mas sempre fui uma criança feliz, sempre fui boa em fazer amigos, meus amiguinhos eram até legais comigo.

Com uns 8 anos, eu não lembro ao certo minha altura, mas acredito que não muito fora do normal das outras meninas. Porém, foi aí que começou o meu pesadelo durante o colégio. Meu peso, com 8 anos era 60kg. Eu já usava calça 40. Todas as outras garotas usavam tamanho 12/14.

Então, eis que um certo dia, na aula de ciências, a professora teve a brilhante ideia de pesar os alunos e escrever no quadro. Eu entrei em pânico. Eu não queria me pesar. Disse à professora que eu não queria, que não estava à vontade. Ela disse: “tudo bem, você fica por último”. Uau, que grande solução. Me lembro até hoje, todos os pesos na faixa de uns 20/30kg… quando chegou a minha vez fui lá e me pesei. A professora anotou no quadro. Todos começaram a rir. Eu me lembro que voltei chorando pra casa.

Depois, nos últimos anos, sempre ouvi as piadinhas/musicas como “gorda, baleia, saco de areia..”. Ainda nessa época, nas aulas de educação física, tinham a linda ideia de fazer a brincadeira do parzinho. Você não conhece? Vou te dizer!

Havia duas filas, uma de meninas, outra de meninos. Todos ficavam de costas uns para os outros, ia intercalando a vez de cada um. A brincadeira funcionava da seguinte maneira: um menino chegava atrás de você e batia palmas. Você virava, se gostasse de quem era batia palma e saiam os casaizinhos.

Como vocês devem esperar, ninguém nunca bateu palma pra mim. No final da brincadeira eu sempre estava lá, virada de costas esperando e chorando. Aí pra não ficar “feio”, quem era meu parzinho era sempre a professora..

Outro fato: um dia esqueci meu estojo e pedi uma caneta emprestado ao menino que sentava na minha frente. Ele não me emprestou, e além de não me emprestar ele perfurou meu braço com a caneta. Não foi apenas um furo, foram vários. Meu braço saiu sagrando. Não contei para ninguém, afinal de contas era apenas mais uma brincadeira de mau gosto.

Enfim, essas foram alguns dos fatos que marcaram minha infância com alguns “porquês”.

Adolescência: terror. É a época mais cruel. É onde eu vi os meus amiguinhos se transformarem em demônios. Essa é a fase onde todos querem ser alguém, e nem sempre esse alguém é bom. Vamos lá.

A sala era dividida entre patricinhas ricas, meninos populares e bonitinhos, os “nerds” e os excluídos.

Primeiro ano: nessas alturas você já sabe onde eu estava… os excluídos eram os únicos amigos que eu tinha. Os meninos? Ah! Quem não gostava do mais bonitinho da sala? Eu estava nessa lista.

Bom, só nessa lista. Eu nunca tinha beijado, namorado, nada desse tipo. E eu via todas as meninas comentando que perderam o famoso “BV”. Quando elas perguntavam “Fernanda, você já perdeu também?”, para tentar ser aceita eu dizia que sim, que já tinha beijado várias vezes (eu inventava caras que nem existiam).

Quando eu me declarei ao primeiro menino que gostava, ele disse que tinha nojo de mim e que eu jamais teria um namorado. E que se um dia eu transasse, isso aconteceria porque eu seria estuprada (um dos meus piores porquês…).

Eu tinha 15 anos nessa época, estava pesando 80kg e usava manequim 46. Não encontrava roupas legais, nada servia em mim. Quando eu saía pra comprar roupas eu já entrava na loja chorando. Eu só queria me vestir como as outras meninas… Mas infelizmente isso nunca aconteceu.

Foi aí que as coisas começaram a piorar: eu “amava” os garotos, e eles tinham nojo de mim. Eu não saía com as outras meninas porque eu não era “legal e bonita” o suficiente.

Baixa autoestima, tristeza, isolamento e rebeldia: era o que eu tinha dentro de mim. Fui seguindo, levando, aturando todos os xingamentos e agressões. Eu era revoltada com tudo e todos. Meu porto seguro eram alguns de meus familiares e em grande parte meus amigos virtuais. Eles sempre estiveram comigo, mais presentes dos que os que estavam presentes.

Enfim, foi assim até o terceiro ano. Eu já estava acostumada. Já nem me importava mais, eu só queria que tudo aquilo acabasse logo. Tinha pensamentos suicidas, eu chorava muito, eu implorei durante anos para sair de lá. Mas a resposta sempre foi que era um “colégio bom”. Bom, para mim nunca foi.

Eu tentava a todo custo ser aceita por aqueles que eram populares. Meninas bonitas, de cabelos longos, magras, que viviam em festas… aquele padrão bosta que a gente conhece.
Pois bem, comecei a me arrumar, mudar um pouco das minhas roupas, tentei emagrecer. Até consegui fazer parte daquele estimado grupo que eu sempre quis. Eu achei agora as coisas iriam melhorar. Afinal, eu estava sentando perto do menino mais popular, o que todas as garotas gostavam. Desenvolvemos uma amizade, achei que tinha quebrado a barreira de ser estranha, eu até me sentia especial por isso. Nos conversávamos todos os dias, ele desabafava e eu estava sempre lhe dando apoio.

Eu até me considerava a melhor amiga dele, eu estava começando a realmente gostar dele, mas ele sempre me falava da menina que ele gostava. Me doía ouvir aquilo, mas eu como amiga deveria ajudá-lo e aconselhar… Parecia então que tinha conquistado então aquilo que eu sempre quis! Os outros meninos que nunca tinham falado comigo as vezes me davam “oi”, até conversávamos.

As coisas já não estavam tão ruins. Claro que ainda eram péssimas, mas pra quem já estava com água no pescoço, aquilo de certo modo me confortava.

O tempo foi passando.

Era véspera de formatura, todas as meninas já tinham o par para entrar e eu estava lá, esperando um abençoado ter piedade de mim e me chamar pra entrar no baile. O inesperado aconteceu: o tal do menino (meu até então melhor amigo) quis entrar comigo na formatura. Eu me senti incrível. Era tudo que eu queria. O tão dia esperado da formatura chegou, foi legal!

No outro dia depois da formatura, fomos conversar sobre a festa. Eis que a minha maior decepção aconteceu. Enquanto conversávamos, o celular dele estava em cima da mesa, e num momento de descuido pude ver uma notificação do WhatsApp de um grupo chamado “Fernanda gorda”.

No momento eu fiquei sem reação. Não estava entendendo… será que realmente era eu? E pra minha surpresa, era. Um grupo de mais de um ano, com todos os meninos da sala, inclusive o meu “melhor amigo”. Eram fotos minhas, tiradas enquanto eu não estava vendo. Fotos que eu postava nas redes sociais. Com comentários horríveis e cruéis. Me zombando, denegrindo. Todos os segredos que eu compartilhava com meu “melhor amigo”… tudo estava exposto naquele grupo. Eu me senti um lixo. Tudo que eu tinha construído, tudo que até então eu achava que tinha conquistado foi apenas uma mentira.

Meu melhor amigo, meu inimigo. Fui apunhalada pelas costas por quem eu menos esperava. Faltavam apenas dias para as aulas acabarem, enfim eu via a luz na escuridão. Seria o fim de tantos anos de sofrimento… Os dias se passaram e tudo acabou.

Atualmente: depois do encerramento do ensino médio, eu tomei a decisão de me afastar de todos que me fizeram mal. Bloqueei todos de tudo. De todas as redes sociais. Entrei na faculdade… e tudo mudou.

Se eu esbarro com algum deles na rua, abstraio e finjo demência. Ou até mesmo dou um lindo sorriso. Eles às vezes nem me reconhecem, e se reconhecem, ficam envergonhados ou sem reação.

Aos 17 anos a faculdade foi um lugar onde eu poderia ser quem eu sou. Ninguém me julgava, ninguém. Aqueles idiotas ficaram pra trás. Porém as marcas que eles me fizeram me assombram até hoje. Eu superei e venho superando diariamente. Me tornei uma pessoa feliz, e o principal: livre, livre de tudo que me fez mal, de quem me feriu. Eu não os desejo o mal. No começo eu desejei, mas hoje não mais.

Espero que eles tenham evoluído, se arrependido de alguma forma. E se isso não aconteceu…pobre deles.

Eu só desejo o bem, porque se tem uma coisa nessa vida que a gente aprende é que tudo que a gente planta, a gente colhe. É a minha vitória.

Eu sou feliz, amada, com poucos mas bons amigos. E no final foi exatamente aquilo: o patinho feio virou cisne.

Resumo: eu espero, de todo coração, que se você leu até aqui, supere tudo que você já passou. Eu desejo que essa seja apenas uma parte da sua história! Daqui uns anos você vai ver que tudo isso se resolveu é tudo te tornou mais forte.

Este é apenas o meu relato de superação.

E lembre-se, você não está sozinho. Jamais. ❤”