Carnismo, ‘Alergismo’ e racismo.

A internet é um ambiente hostil e complicado. Estar nela é como se deslocar num campo minado. Quando você menos espera, mexe num vespeiro sem precedentes.

Foi o que aconteceu quando reproduzi este tweet da Rita Lobo no NSE:

rita

(Sobre a expressão “distúrbio alimentar”: ela estava falando sobre ortorexia nervosa – que não está no DSM, mas é um comportamento alimentar desajustado que cresce a olhos vistos)

É incrível notar como poucos caracteres podem desencadear uma guerra digital, e também me deixa estupefata a força da represália.

Na verdade, quando a militância te MARCA não tem mais jeito – você fica de mãos atadas:

Se você mostra os prints da discussão…você está EXPONDO.

Se você discute…você está SILENCIANDO.

Se você apaga os comentários… você está CENSURANDO.

Se você ignora…você está DESMERECENDO.

Se você apaga a p*rra toda e recua…você é COVARDE.

Se você aciona a moderação…você NÃO QUER DEBATE ABERTO.

Não tem o que fazer.

Essa galera do “mais amor, mais empatia” que acredita muito que o mundo seria muito melhor se todos fossem TÃO BOAS PESSOAS como elas são as mesmas que vão te dar chutes no rim até virar purê depois te lambuzar no mel e tacar no formigueiro. Tem que rachar, tem que tombar, tem que lacrar, tem que destruir – porque “close errado” no Código Penal internet é um crime sem perdão.

Porque certamente iremos construir um lugar melhor para os nossos descendentes passando 80% dos nossos dias na internet lendo o que as pessoas escrevem, reclamando de “falsa simetria”, “roubo de lugar de fala”, “empatia seletiva” e problematizando, problematizando MUITO.

Pessoas alérgicas, veganas, que só comem coisas FIT ou que simplesmente não gostam de maionese sentiram-se profundamente ofendidas desde ontem. E claro, protestaram sem parar, organizando boicotes, escrevendo textão, dando testemunhos inflamados, desejando que o filho dos outros tenha uma alergia alimentar e SOFRA muito, acionando a AACD, me escrevendo impropérios até vencer pelo cansaço – por causa de um tweet sobre maionese.

Sobre toda essa indignação alimentícia, o que eu tenho para falar é o seguinte:

Mas acho que tenho direito de me pronunciar a respeito da acusação de racismo (sim, racismo!) que igualmente surgiu a partir do post da Rita Lobo.

 

Como eu disse anteriormente: se você mostra o que aconteceu você “expõe”, se você apaga você é “covarde”, se você ignora você “desmereceu”…e por aí vai. Não tem saída.

Mas o que aconteceu foi o seguinte:

  1. Eu publiquei o tweet da Rita Lobo.
  2. As pessoas começaram a comentar no post.
  3. Uma vez que as propostas nutricionais/culinárias da Rita Lobo e da Bela Gil são polos opostos (tipo o Alfa e o Ômega…) é claro que algumas pessoas começaram a dizer que gostam mais da Rita Lobo do que da Bela Gil (pela questão nutrição restritiva, ayuverda, gluten-free, cheia de regras etc…)… É uma coisa inevitável.
  4. PROBLEMATIZARAM.
  5. Porque não se pode comparar a Rita Lobo com a Bela Gil, nem colocar uma em detrimento da outra… porque criticar a Bela Gil é racismo.
  6. Ou seja: as pessoas ZOAM (zoam sim…eu me incluo no pacote) a Bela Gil NÃO porque ela sugere que as pessoas escovem os dentes com argila, faz churrasco de melancia e preparações gluten-free desnecessárias…mas porque ela é negra.

Uma vez que neguei (e nego!) veementemente que falar sobre a Bela Gil dentro de um Post Sobre a Rita Lobo configura racismo – fui formalmente acusada de ser racista.

citou-bela-gil

(A grave questão racial: alguém citou a Bela Gil. Alguém…citou…Bela Gil)

Vou falar o que eu acho:

A Bela Gil não tem diploma de nutricionista válido no Brasil (já foi notificada pelo CRN por isso). Dá dicas de saúde controversas e sem comprovação. Recomenda prática de jejuns, coisa que não endosso. Confunde a população com regras desnecessárias sobre restrição de glúten, lactose e outros nutrientes, Promove um tipo de alimentação restritivo e de difícil acesso.

A moça que me acusou de ser racista insistiu que a Bela Gil é sempre duramente criticada – fato que nego. Qualquer nutricionista sabe que falar sobre ela é dar a cara a tapa diante do seu fandom. Bela Gil é a MUSA da culinária clean-FIT-diferentona-ayuverda-Topzera. Escrever sobre ela é tabu e é pedir para ter dor de cabeça.

Se tem uma pessoa na família Gil que passa um PERRENGUE, é a Preta. Sempre ridicularizada, pressionada, marginalizada – por ser “feia”, gorda e “se alimentar mal”. Um mal exemplo em todos os sentidos [supostamente]. O público enaltece a Bela Gil porque ela está na crista da onda dos modismos dietéticos, da “saúde” e do “Bem Estar. Inclusive, é frequentemente comparada com a irmã – a “gorda desleixada” que sempre leva a pior.

Você pode acreditar nisso… ou se juntar ao coro para me chamar de racista.

Isso aqui vai dar treta, vai atrair RACHADORES, vai sacudir a MILITÂNCIA… e eu honestamente estou cansada dessa galera que trava guerras por minúcias.

(Aqui tem!!!!!!)

É impossível agradar a todos. E não vale a pena tentar.

Ter página grande e ser uma pessoa ativa na internet é SEMPRE se perguntar: “qual nicho específico de pessoas eu vou revoltar dessa vez?”

A gente faz o que pode.

Vida que segue, amanhã é segunda e eu preciso fazer meu trabalho.

 

 

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