O Peso da Obesidade.

ATENÇÃO: O intuito deste texto não é, de maneira alguma, negar ou minimizar a importância das comorbidades associadas ao quadro de obesidade.

Primeiramente, quero esclarecer que este texto não é um relato de experiências pessoais, e por esse mesmo motivo, sempre piso em ovos quando preciso falar do tema “obesidade”, porque ao que parece, se eu não vivi, não posso falar sobre. E realmente, de acordo com a ética da militância de internet eu posso falar de muitos temas, menos desse. No fim das contas, concluo que é simplesmente surreal ser uma profissional que lida com corpo, alimentação e saúde TODOS OS DIAS e ter de colocar o tema da problemática do corpo gordo na gaveta. É impraticável. E sem sentido.

Eu não sou gorda, nunca fui gorda. Sinto decepcionar. Mas o assunto sim, me concerne. Me concerne muito.

Porque nós precisamos falar sobre obesidade.

Dito isso, continuo:

amanda

(Amanda Rodrigues – falecida em decorrência de complicações de cirurgia bariátrica)

Tomei conhecimento da  história da Amanda hoje, e fiquei com o coração na mão. Porque trajetórias como a dela – a angústia de um corpo gordo que foi ridicularizado, patologizado, transformado em problema e que culminou em uma cirurgia bariátrica mal sucedida não é nem um pouco rara. Consigo lembrar de algumas:

(troquei os nomes para preservação das pessoas envolvidas)

O primo da minha paciente Fernanda, que sofreu por toda a vida por ser gordo e decidiu fazer gastroplastia aos 20 anos: emagreceu mais de 30Kg, para então descobrir que a vida não se torna mais fácil ou indolor quando se é magro – desenvolveu um quadro de depressão severa que progrediu a olhos vistos. Antes do seu suicídio, aos 22 anos, foi levado a uma terapeuta espírita não-licenciada que tratou o seu transtorno mental como “espírito obsessor”. NÃO ESTOU desmerecendo a doutrina espírita – mas não podemos prescindir dos médicos da Terra.

A querida amiga da minha paciente Letícia, que após ter passado meses desempregada por ter sido sumariamente recusada em todas as suas entrevistas pelo fato de ser gorda (SIM: pelo fato de ser gorda!) – decidiu se submeter a uma cirurgia bariátrica pelo SUS, movida pelo sonho de finalmente ser reinserida no mercado de trabalho…morreu 36 horas após o procedimento.

A minha amiga, também blogueira, Alice… que sofreu com obesidade mórbida por boa parte da vida adulta e decidiu encarar o Bypass Gástrico como seu o mais absoluto último recurso – operou. Passaram-se meses e meses… mas o emagrecimento simplesmente não ocorreu conforme o previsto. Os médicos, nutricionistas e psicólogos pressionaram mais e mais… Porque o problema, claramente, era que ela “não estava se esforçando” o suficiente. Alice come pouquíssimo e passa três horas na academia todos os dias: e emagrece GRAMAS. No começo dessa mesma semana ela me contou que descobriu que foi vítima de erro médico: a anastomose (passagem do estômago para o intestino) não foi feita no diâmetro adequado, portanto a disabsorção [o processo que favorece a intensa perda de peso após a cirurgia] não ocorreu. Alice tem um estômago que comporta pouquíssima comida, mas um intestino que absorve de igual maneira. Ou seja: estaca zero. É como se ela nunca houvesse operado e ganhou de brinde várias deficiências vitamínicas e constante síndrome de dumping. Me disse que pensa em suicídio todos os dias.

Manuela, a quem atendo quinzenalmente, encontra-se na “obesidade”, segundo classificação pelo IMC. Ela fez gastroplastia há seis anos. Mutilou o corpo, mas nunca conseguiu tratar a sua relação disfuncional com a comida. Poucos meses após a operação, passou a beber três latas de leite condensado por dia. Engordou tudo de novo. Está fazendo tratamento comigo, embora o seu médico gastroenterologista seja irredutível na ideia de que ela tem que “ir para a faca” novamente.

Enfim…são MUITAS histórias. Eu conheço dezenas. Você provavelmente também conhece dezenas!

Portanto, este é um texto sobre obesidade.

Não tenho a menor intenção de discorrer sobre estatísticas que aumentam em progressão geométrica. Não quero empregar a expressão “epidemia de obesidade” – porque não a considero adequada, uma vez que EPIDEMIA, no sentido pleno da palavra, significa o rápido alastramento de doenças infectocontagiosas. “Epidemia de obesidade” é uma generalização de sentido figurado e eu não gosto de usá-la: gordos não “contaminam” ninguém.

A gripe espanhola foi uma epidemia.

A obesidade cresce exponencialmente em decorrência de fatores genéticos, econômicos, culturais, sociais, ambientais e políticos. Ela não é causada por um vírus.

Este não é um texto para exibir imagens de fragmentos genéricos de pessoas gordas, falando sobre o quanto essas pessoas que “não cuidam da própria saúde” sobrecarregam o SUS e o orçamento mundial dos custos do controle das doenças crônicas.

Nada disso. Eu não quero falar sobre isso. Já se fala sobre isso. Se fala DEMAIS.

gordos

(Fragmentos genéricos de pessoas gordas)

As pessoas gordas não são fragmentos genéricos. Elas são pessoas. Pessoas com sentimentos, talentos, amorosidade e sonhos – pessoas como a Amanda.

Eu preciso externalizar que eu detesto a palavra “obeso”.

Eu odeio, odeio essa palavra.

De acordo com a literatura e a ética profissional, supostamente é mais elegante e menos ofensivo tratar os nossos pacientes gordos como “obesos”.

Mas eu NUNCA uso essa palavra. Me chamem de subversiva.

Quando você diz que uma pessoa é gorda, isso é factual. Uma pessoa pode ser alta, baixa, negra, branca, ruiva, loira, gorda ou magra – é uma característica física.

“Obesidade” é uma sentença.

Quando eu afirmo que uma pessoa é obesa eu estou jogando toneladas de estigma na cabeça dela. Ela se torna muito mais pesada sob a sombra dessa palavra.

A pessoa obesa (incluída no CID [10 E66] e classificada oficialmente como “doente” pela American Medical Association desde junho de 2013) é aquela que além de ser gorda, carrega um mundo de comorbidades. Ela é estatística. É um lamentável fruto contemporâneo da combinação do sedentarismo e má alimentação. É aquela que “não se cuidou” e SE DEIXOU adoecer. É aquela que, no imaginário popular, prefere um sundae a ter “qualidade de vida”. É aquela que faz um rombo no orçamento público por causa de tanto remédio que tem que tomar. É aquela que simplesmente se nega a resolver os seus problemas por meio da “força de vontade”.

Repito: eu odeio essa palavra. Eu nunca digo isso para ninguém.

Também ressalto que a diferença entre ser ‘gordo’ e ser ‘obeso’ pode ser uma questão de gramas! Veja isso:

O IMC (Índice de Massa Corporal) é uma relação numérica que se faz entre o peso e a altura do indivíduo (peso dividido pelo quadrado da altura) –  você fica na zona de segurança de ter “sobrepeso” até o IMC 29,99999999 – engorde um pouquinho e PÃAM: você se tornou um obeso!

(Somente na última semana, recebi relatos entristecidos de duas pessoas que haviam estado no consultório médico e recebido uma “carteirinha oficial de obeso”, somente por terem engordado um quilo ou dois)

SOBRE O IMC:

Como foi mencionado anteriormente, o IMC é uma demonstração numérica do tamanho de um indivíduo. E ele não é um indicador de saúde preciso.

O IMC não diz nada a respeito da composição corporal dos indivíduos – que parte do peso é músculo? Água? Gordura? Massa óssea?

O IMC não diz nada a respeito de marcadores bioquímicos como hemograma, lipidograma, glicemia, balanço hormonal – muitíssimo mais úteis na atuação de qualquer profissional da saúde.

O IMC não diz nada a respeito dos hábitos diários dos indivíduos – como ele se alimenta ou se é sedentário. Favor lembrar: o que determina se uma pessoa está saudável não é o peso… são os HÁBITOS que ela cultiva.

O IMC não faz recorte do CONTEXTO DE VIDA da pessoa – quais são os elementos perpetuadores das dimensões desse corpo?

Para que você seja declarado um obeso, basta ser grande o bastante. Literalmente.

É fato muitíssimo digno de nota que o IMC é um dado sobre dimensões corpóreas, que pertence à ciência da antropometria, que é um segmento da ANTROPOLOGIA portanto, não é da área de biológicas.

Antropometria é registro das particularidades físicas dos indivíduos. É a ciência da mensuração do corpo humano.

Permita-me lembrar que antes de serem marcadores de saúde (yeah, right…) os registros das características físicas das diferentes populações legitimaram discursos como o da eugenia.

Permita-me lembrar que a eugenia é a ideologia da seleção genética, ou seja: a determinação de qual seria o tipo de ser humano mais superior, mais puro, mais “apto”.

Permita-me lembrar que a eugenia é uma corrente de pensamento que legitimou acontecimentos como escravidão e holocausto.

Permita-me lembrar que as pessoas que não tinham características físicas “aceitáveis” quando foi feito o levantamento populacional para determinar o que seria um corpo humano normal (no sentido de NORMATIVIDADE) eram as gordas (que eram chamadas de “corpulentas” e consideradas “aberrações”) e não-caucasianas… que providencialmente são MAIORES – e que por isso têm IMCs maiores.

Isto posto, não tenho o menor pudor quando afirmo que a “problemática da obesidade” tem muito mais relação com controle social e política do que com “saúde”.

Acabei de dizer que a obesidade foi oficialmente definida como DOENÇA em 2013.

Bueno, o que precisa ser feito quando uma certa mazela populacional torna-se incontrolável?

R: Medicalizar.

Por isso o CID e o DSM só aumentam o calibre à medida que o tempo passa.

A obesidade é uma condição que se relaciona com fatores predisponentes. E frequentemente ela se manifesta porque o indivíduo está inserido num cenário desfavorável. A obesidade tem conexão íntima com poder aquisitivo, grau de instrução, estrutura urbana, empregabilidade – mas raramente destrincha-se o significado de tudo isso! As reportagens costumeiramente empregam a expressão “doença multifatorial”  de uma forma totalmente vaga e a orientação padrão continua sendo: “evitem frituras e vão correr no parque.”

Isso ocorre porque além de medicalizar problemas sociais e estruturais, para as autoridades oficiais também é sempre válida a culpabilização do indivíduo. Ou seja: o contexto nunca conta porque foi a pessoa quem provocou a própria situação – portanto ela é a única que pode sair dela. Essa é uma linha de pensamento que beneficia um Estado incompetente? Ô, se é!

Você não consegue emprego…porque a sua atitude é derrotista.

Você ficou com depressão… porque não sabe lidar com a vida.

Você está obeso… porque não sabe se cuidar.

Eu honestamente acho que “gordofobia” não é uma palavra que chegue para designar o massacre de gordos que testemunhamos todos os dias. Pessoa gordas são pressionadas pela família, pelos amigos, pelos parceiros, pelas lojas de roupas, pelo sistema de transporte público, pelos médicos, nutricionistas, endocrinologistas, pela televisão, pelas autoridades oficiais de saúde e pelo governo. Muitas vezes incessantemente e desde crianças. É uma reprovação que parte de TODOS OS LADOS. Todos mesmo.

A sociedade já evoluiu para sabermos que violência contra a mulher é crime, injúria racial é crime, homofobia é crime.

Mas a gordofobia não só não é crime, como é LEGITIMADA por todos os segmentos da sociedade! Humilhar gordos é [supostamente] uma atitude correta e justa. É o que tem que ser feito. Porque a saúde do obeso importa, importa muito.

As pessoas têm uma crença maluca de que se uma pessoa gorda for maltratada, ridicularizada e humilhada o bastante, ela vai “tomar jeito” e emagrecer. Sinto muito informar, mas isso não funciona.

Quanto mais humilhada uma pessoa se sente, mais deprimida ela fica… Quanto mais deprimida ela fica, mais ela come e por aí vai o ciclo.

(Violência silenciosa e diária)

Nossa sociedade trata gordos de modo monstruoso. E o resultado disso é a morte de Amandas e mais Amandas.

Como disse no início: não sou gorda, nunca fui gorda. Mas tenho a capacidade de identificar injustiça, preconceito e o peso das políticas higienistas.

Espero que Amanda tenha finalmente encontrado a paz que buscava.

Paola Altheia

 

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