Arquivo mensal: fevereiro 2017

Esta mulher criou ilustrações brutalmente honestas sobre o seu transtorno alimentar.

Estamos na semana de alerta sobre transtornos alimentares promovida pela NEDA – National Eating Disorders Association.

Infelizmente conhece-se pouco e fala-se pouco no Brasil a respeito dessas doenças. Vivemos numa sociedade que não só não dá ao tema a devida importância, mas cria um cenário de reforço positivo aos que desenvolvem comportamentos disfuncionais em relação à comida. Enxergamos obsessão pelo emagrecimento como “escolha” pessoal ou ritual de vaidade, e a extrema restrição (em qualidade e/ou quantidade) como prova de disciplina, autocontrole e “sucesso” – a mídia contribui fortemente para a formação de tais ideias, banalizando rotinas alimentares desequilibradas e retratando emagrecimentos-recorde como “casos de superação”.

Um dos principais problemas a respeito dos transtornos alimentares é o modo estereotipado que pensamos sobre eles. Para muitos, são problemas que atingem somente garotas brancas adolescentes de classe média-alta. Ou seja: se uma pessoa não “aparenta” ter um distúrbio alimentar (dentro do entendimento equivocado que normalmente se tem…), então conclui-se que é uma pessoa que está meramente querendo atenção.

Por isso escolhi traduzir uma matéria que foi publicada recentemente no portal BuzzFeed.

Encontre a postagem original AQUI.

Esta mulher criou ilustrações brutalmente honestas sobre o seu transtorno alimentar.

Aviso: Este post contém imagens sensíveis relacionadas aos transtornos alimentares.

Christie Begnell, 24 anos, é uma ilustradora australiana que começou a desenhar representações visuais de sua anorexia enquanto estava internada em uma clínica particular.

Após um término de relacionamento difícil que coincidiu com dificuldades com família, trabalho e universidade, Begnell começou a perceber os sintomas do seu transtorno alimentar. “Com o meu mundo despedaçando, pensamentos suicidas e ódio contra mim mesma estavam no seu apogeu”, conta. “Eu havia começado uma dieta após ganhar um pouco de peso após o término do meu relacionamento, mas isso se tornou uma obsessão muito rapidamente.”

Begnell reuniu suas ilustrações sobre transtorno alimentar em seu livro, Me and My ED (“Eu e meu Transtorno Alimentar”)

Begnell collated her eating disorder illustrations in her book, Me and My ED.

(obesa; nunca comer novamente; merece apodrecer; passe fome baleia; isso é porque ninguém gosta de você; seria melhor estar morta; você não faz nada direito; você me traiu; porca nojenta; você é tão gorda; você é um fracasso)

Em seus desenhos, a anorexia é personificada num personagem chamado “Anna”.

In her drawings, Begnell's anorexia is personified by a character called Anna.

(indesejada, burra, irritante, feia, invisível, fardo, inútil, perdedora, patética, imperfeita, nojenta – palavras que logo me definiram)

Begnell se inspirou na linguagem dos fóruns pro-anorexia, onde os usuários tendem a chamar seus distúrbios por um nome (frequentemente “Ana”)

Anna é separada de mim. Meu transtorno alimentar é separado de mim. Anna tem motivações diferentes das minhas; objetivos diferentes, valores diferentes. Identificá-la como algo à parte me deu poder para lutar contra ela ou a opção de segui-la.

Nas profundezas do meu adoecimento era muito difícil saber quem estava falando porque eu havia me tornado muito conectada com a Anna, mas “Ao me recuperar eu pude começar a perguntar ‘Isto sou eu ou a Anna falando?’

Manter um diário visual foi de massiva ajuda para Begnell: “A chave é não permitir que o que está ocorrendo dentro da sua cabeça permaneça ali. Quanto mais nós falamos sobre os nossos problemas e buscamos ajuda/conselhos, mais rompemos o estigma.”

Keeping a visual diary has been massively helpful to Begnell: "The key is to not let what is happening in your head stay in there. The more we talk about our problems and seek help/advice, the more stigma is broken down."

Sua jornada rumo à recuperação não foi fácil. Ela teve dificuldade de obter ajuda porque o seu IMC (índice de massa corporal) a definia como “saudável demais”.

Her journey towards recovery hasn't been easy. She was turned away from getting help due to her BMI being deemed "too healthy."

Após uma recaída Begnell foi enviada para acompanhamento psiquiátrico de curto prazo após expressar pensamentos suicidas crônicos. O psiquiatra que a tratou “não estava preocupado com o meu peso, uma vez que eu ainda tinha o IMC saudável. Uma enfermeira me disse que eu não parecia anoréxica e em meio a um ataque de pânico me falou que eu não sofria de transtorno alimentar e deveria apenas superar aquilo.” Eventualmente Begnell recebeu acesso à ajuda intensiva através do plano de saúde particular.

Agora que está se recuperando, desenhar ajuda-a a administrar seus gatilhos.

Now that she's in recovery, drawing helps her to manage her triggers.

(Mais do que ganho de peso) 

“Quando eu não estava bem eu permitia que os gatilhos formassem uma bola de neve e se tornarem em ondas de urgência para adotar comportamentos de distúrbio alimentar, mas agora se eu não consigo conversar sobre ou compreender as coisas na minha cabeça, eu desenho. Então eu levo meus desenhos para o meu namorado ou terapeuta e pergunto sobre suas opiniões. Também, se hoje em dia eu me sinto impactada por alguém falando sobre mim ou me maltratando, eu me defendo e tento interromper os gatilhos no momento em que eles acontecem.”

Além de focar no seu livro atual, Begnell continua fazendo ilustrações esperando publicá-las num zine no fim deste ano.

ed

“Eu sinto que há uma mensagem importante que precisa ser espalhada, e é que os transtornos alimentares são doenças mentais reais e terríveis. Eu quero continuar educando o público e eu quero continuar ajudando as pessoas a se sentirem menos sós. No momento eu estou apenas vivendo um dia de cada vez e aproveitando todas as oportunidades que me surgem.