“Bem feito, ninguém mandou.”

Me senti impelida a escrever este texto em decorrência de algumas situações na internet que aconteceram (e acontecem constantemente)

Do que eu estou falando?

Estou falando da culpabilização dos indivíduos (frequentemente mulheres) por seus destinos trágicos.

Essa culpabilização foi notável durante esta semana, numa situação tristíssima, na qual uma moça tentou suicídio e documentou isso no Facebook.

Os comentários na postagem pública da garota variaram entre “isso é falta de Deus” (AH, TÁ!) e “que pessoa fraca que não sabe lidar com a vida“.

Eu fico muito triste quando vejo pessoas minimizando problemas graves como a depressão. Mas a verdade é que os comentadores de plantão da internet minimizam tudo.

Por que?

Por causa DISSO:

Nós vivemos em uma cultura que acredita DEMAIS no fato de que existe uma divisão entre “vencedores” e “perdedores”… e que aqueles que, em algum momento, ‘quebram’, são os elementos mais fracos, menos aptos e menos inteligentes.

Ou seja: quem se mete em alguma situação desfavorável [desde suicídio até relacionamento abusivo] é porque “quis”, foi “fraco” ou foi “burro”.

É extremamente PROVIDENCIAL acreditar que cada indivíduo é 100% responsável pelo próprio destino e que o cenário em torno da pessoa não tem nenhuma parcela de influência na sua gama de escolhas. Enxergar cada pessoa como um elemento isolado que é totalmente livre para escolher seu caminho torna possível tirar o foco dos verdadeiros problemas. Para termos uma boa vida, basta querer, certo?

Eis que chego no tema desse texto: mulheres que foram “burras demais” tentando ser bonitas.

EXEMPLOS:

Jovem morre após tomar suplementos termogênicos.

Mulher morre após o consumo de noz da índia.

Jovem morre durante lipoaspiração em Governador Valadares.

Andressa Urach e o preço da busca imprudente pela beleza.

Jovem morre após tomar remédio para emagrecer.

É desse tipo de coisa que eu estou falando.

O que todas elas têm em comum?

R: Elas “provocaram” a própria situação.

Em pleno 2017, nenhuma pessoa minimamente civilizada acredita que uma mulher que sofreu abuso provocou a própria situação… Mas são muitas as pessoas que acreditam que essas moças que morrem em busca da beleza são inconsequentes e burras.

“Tenho pena não. Ela sabia do risco.”

“Isso acontece porque as pessoas estão cada vez mais burras e mais fúteis.”

“Ninguém obrigou, ela fez isso porque queria.”

“Isso que dá buscar a beleza a qualquer custo.”

O que estamos falhando em perceber é que nenhuma dessas mulheres estava buscando a morte. Elas nem sequer estavam buscando a magreza! Porque magreza, objetivamente falando, significa apenas ter um corpo menor. E não é disso que tantas mulheres estão indo atrás (mesmo que isso implique em ir até as últimas consequências).

Essas mulheres todas estão em busca do VALOR intrínseco do corpo magro: aceitação, admiração, visibilidade, respeito. 

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Será que é realmente possível determinar tudo o que está envolvido numa “busca imprudente pela beleza”, a partir de alguns parágrafos de uma reportagem?

Quantas vezes por dia nós absorvemos a mensagem de que seremos amadas e admiradas se formos bonitas?

Quantas “histórias de superação” são publicadas nos principais veículos de comunicação, mostrando a história de mulheres que ‘deram a volta por cima’ porque emagreceram?

Quantas jovens sofrem pressão dos familiares e/ou parceiros para que emagreçam?

Quantas vezes nos ensinaram que “para ser bonita, tem que sofrer”?

O mundo nos passa a cartilha de como ser bonita… E pune aquelas que seguem a cartilha com afinco demais.

“Ninguém mandou. Ela sabia que estava fazendo mal, mas não parou.”

Será que as coisas realmente funcionam desse jeito tão simples??

Incontáveis mulheres se punem constantemente. Vomitando, jejuando, se automutilando, sustentando relacionamentos abusivos e até tentando suicídio.

Então elas são um bando de burras masoquistas? Será que é isso?

Quem morre não queria morrer.

Quem quebra não queria quebrar.

Comportamento humano não é uma mera questão de estímulo-reação: “constatei que isso é ruim, portanto eu vou parar”… Seria fácil se fosse assim, não?

A coisa mais desumana que podemos fazer nessa vida é julgar um processo de acúmulo de feridas. Quando uma mulher está numa situação desfavorável mas não se desfaz dela, é porque quanto mais feridas ela reúne, mais ela deteriora o conceito que tem de si mesma. E quanto mais ela se diminui, mais ela se expõe à dor e menos forças para fugir ela cria.

Pessoas podem buscar o sofrimento deliberadamente por inúmeros motivos.

Para tentar escapar da dor que estão sentindo.

Para se machucarem ANTES que o mundo o faça.

Porque se acha merecedora daquele tratamento/ferimento.

Porque provocar dor física pode ser um recurso para aliviar dor emocional.

Uma mulher que se entope de remédios para emagrecer de maneira inconsequente não é fútil. Não é burra. Não está buscando a própria morte. E isso é muito mais comum do que se imagina, uma vez que é uma menor parcela dos casos que acaba aparecendo na mídia.

“Empatia” é uma palavra que está na moda. Significa ter habilidade de se conectar com o outro, se colocar no lugar do outro, sentir o que o outro sente.

Condenar uma mulher que se expôs a um comportamento de risco (e morreu!) porque estava buscando ser aceita não é uma questão de falta de empatia. É questão de falta de compaixão. Pode até ser que você não consiga se colocar no lugar da pessoa, nem entender o que ela fez [por ser algo que você jamais faria]… mas o mínimo que podemos fazer é sentir muito por elas. Pelas famílias, amigos e sonhos que deixaram.

Talvez você realmente não consiga entender o mundo do outro. Talvez a “empatia”, para você, não seja um opção…Mas se compadecer do sofrimento das criaturas é um traço elementar de humanidade.

Não são apenas as vítimas de uma agressão externa que merecem a nossa comiseração. Muitas vezes as pessoas que se ferem deliberadamente são vítimas. Vítimas de um contexto sufocante. Vítima das expectativas. Vítimas de uma busca desesperada de um amor que está faltando.

Vivemos num contexto cultural que estraçalha mulheres, mas enquanto continuarmos acreditando que cada pessoa é inteiramente responsável por seu destino, que escolhas pessoais são processos simples e que os elementos que sucumbem são o elo fraco, pouco progresso faremos.

Talvez não o seja uma questão de largar a espada, mas o nosso martelo de juiz.

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(O que você mudaria primeiro? – A cultura.)

 

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