“Gorda vitimista” e “Gordo de boa”

Não sei quantos de vocês já viram esta imagem circulando na internet, que supostamente diferencia o gordo da gorda [com o mais do que infeliz uso da imagem da Jéssica Tauane]

É esta aqui:

Eu já lidei [e lido] muitas vezes com toda a densa argumentação sobre a gorda (vitimista, mimizenta, blablabla)

Mas desde que eu vi essa imagem, eu também achei particularmente cruel o estereótipo do gordo GENTE BOA que sempre ri de si mesmo.

Nunca aconteceu comigo, é óbvio. Mas não me parece ser legal ser a piada da roda, e ainda por cima ter que rir junto.

Eis que o Bernardo Boëchat (FAVOR seguir o canal dele. Obrigada, de nada.) me mandou um texto maravilhoso justamente sobre todos esses estereótipos.

Então aproveite a leitura! E compartilhe!

Meu nome é Bernardo, tenho 27 anos e sou gordo. Não sou “gordinho” não, sou gordo. Além de gordo, também sou gay. Nunca odiei ser gay ou tentei mudar minha orientação sexual, e não foi difícil encontrar lugares que me disseram que é ok ser gay e que eu não precisava me envergonhar disso. Já ser gordo, é outra história.

Durante toda a minha história, odiei meu corpo. Evitava me olhar no espelho e caia de cabeça em todas as dietas que encontrasse. Eu precisava mudar quem eu era, independente das consequências. Mas o tempo foi passando, e quanto mais eu tentei diminuir, cada vez maior eu fui ficando. Em qualquer lugar que eu estava, me sentia o próprio elefante branco no meio da sala. Eu não cabia no mundo, nem fisicamente, nem entre as pessoas.

Lembro como se fosse hoje a primeira vez de muitas vezes que quebrei e caí de uma cadeira na escola. Naquele momento que me vi esborrachado no chão, eu tinha duas opções: ou sentar e chorar ou rir de mim mesmo. Dentro de mim, a vergonha me consumia, mas pelo menos na segunda opção, eu não me mostraria abalado por aquilo. Antes dos outros rirem, eu mesmo já estava tirando sarro com a minha cara.

Só que esse comportamento não se restringiu somente às cadeiras. Quando percebi, comecei a usar o humor como forma de me sentir menos incômodo. No meio de toda aquela experiência diária de ser gordo, de muitas vezes nem me sentir da mesma espécie animal que as pessoas a minha volta, pelo menos eu fazia as pessoas rirem. Quando eu entrava na “zoeira”, parecia que os outros estavam rindo comigo, e não de mim.

Com o tempo, o humor virou uma arma de defesa. Me sentia aprisionado na necessidade de ser simpático, engraçado, o bobo da corte da galera. Com essa atitude, as pessoas a minha volta sempre me viram como uma pessoa divertida, autoconfiante, que não ligava para as brincadeiras que faziam comigo. Mas só eu sei o quanto me doía chegar num lugar novo e ninguém se preocupar em saber meu nome, afinal, eu era o “gordinho”.

Mas nem tudo estava perdido. Querendo ou não, o fato de eu ser homem me trazia vários privilégios. É do arquétipo social masculino ser o brincalhão, o esculachado, o piadista. É como se, entre homens, todas as relações permeassem a “zoeira”, e meu tamanho fosse terreno livre para comentários. Afinal, que tipo de homem eu seria se eu ligasse e reclamasse dessas piadas? É muito mais fácil acabar “entrando na onda”, como se aquelas brincadeiras não estivessem ajudando a cada vez mais, me afundar dentro de mim.

Não posso falar pela maioria, mas posso falar por mim: eu nunca achei graça de nenhuma das piadas com relação ao meu peso. Se o sorriso amarelo não falava o suficiente, também não ajudou todas as vezes que me calei diante disso. É fato que homens têm algum tipo de “carta branca” para serem mais gordos. Homens grandes ainda remetem as imagens dos reis bonachões e as antigas correlações entre abundância e fartura. O menino ainda ouve que tem que comer pra ficar forte, e esse “forte” também inclui um corpo mais parrudo. Mas, ao mesmo tempo que alguns homens carregam seus corpos como um sinal de virilidade, muitos outros se sentem péssimos com sua aparência, mas se calam diante das piadas para não serem isolados ou tratados como “menos homens”. É ilusão acreditar que homens levam determinadas humilhações na brincadeira, porque não levam. Mas, se homens gordos já sofrem com esse tipo de agressão, essa agressão nem se compara quando o gordo é gorda.

Como pró-feminista e homem, não tenho qualquer direito de dizer como mulheres devem ser, e só posso imaginar o sofrimento que passa uma mulher gorda através de minhas próprias experiências como gordo. Dito isso, é necessário comentar a tamanha covardia que é comparar a reação de um gordo com uma gorda em relação às “piadas” gordofóbicas. Não é aceitável que criemos uma falsa simetria entre a pressão estética que o homem sofre e a que a mulher sofre. Mesmo com todos os relatos de opressão que relatei acima, ainda tenho toda uma estrutura social que me protege e que, algumas vezes, chega até a exaltar o meu corpo. Também tenho nas minhas costas o privilégio de ter nascido em um gênero que me facilita sair de situações embaraçosas através do humor. Enquanto um gordo que faz piada sobre si mesmo é só “mais um gordo maneiro”, a mulher é rapidamente rotulada como “desleixada” quando usa desse mesmo artifício.

Mulheres não têm o direito de serem gordas e engraçadas, sob pena de serem tratadas como inválidas sexualmente ou como pessoas desequilibradas que não têm espelho em casa e ainda “acham graça da própria desgraça”.

Sempre é bom repetir: ninguém gosta de ser humilhado. Mas tenha certeza que é muito mais doloroso para uma mulher ter que ficar calada ao ser humilhada por ser gorda. Por isso homem, não ache nem por um minuto que sua amiga que te avisa da sua atitude gordofóbica é vitimista. Na verdade, é o seu “amigo gordo maneiro” que não anda te mandando a real de como seu comportamento é reprovável.

Muito obrigada pela contribuição, Bernardo ❤

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