Às mulheres que deram 5 estrelas na Alezzia.

Se você não ficou sabendo de todo o rebuliço em torno da empresa de móveis inox Alezzia nos últimos dias, saiba mais AQUI.

Agora se você é uma das mulheres que deu 5 estrelas na avaliação, peço o seguinte:

Desarme-se. Por favor, desarme-se.

Eu não estou escrevendo na posição de feminista. Nem de esquerdista. Nem marxista. Não se trata de militância.

Eu estou escrevendo este texto na posição de terapeuta nutricional. E o meu foco aqui não é política… é saúde.

Eu atendo mulheres diariamente. Adolescentes, jovens, de meia-idade, mães, estudantes, profissionais de sucesso. As mulheres que atendo são das mais diversas convicções políticas. Algumas (normalmente as mais jovens) são abertamente feministas. Mas outras não ouviram falar sobre isso direito.

Mas todas, todas elas são prejudicadas pelas exigências que são feitas em torno do corpo e do comportamento feminino.

O crescimento da baixa autoestima, autocobrança, insatisfação corporal e transtornos alimentares tem sido vertiginoso ao longo das últimas décadas.

As mulheres atualmente têm vivido de maneira cada vez mais desconfortável, cada vez mais desprovida de sentido e cada vez mais triste. E é uma ingenuidade muito grande acreditar que o ambiente não influencia nesses parâmetros.

Então se você se permitir compreender que esta discussão não é uma birra de gordas feias, mal amadas e vitimistas… Vamos entender qual é o problema com os principais argumentos usados pelas mulheres que avaliaram bem a empresa:

1) Ela está exibindo o seu belo corpo e recebendo pelo seu trabalho. Não vejo nada de mais.

Estamos falando disso:

alezzia-novo

É CLARO que ela tem um belo corpo.

É CLARO que ninguém a obrigou a estar nesta foto.

É CLARO que não existe nada imoral em torno da exibição deste corpo.

Mas o fator protetor em torno do corpo desta mulher, que a poupa de qualquer tipo de julgamento (muito pelo contrário – o trabalho das modelos é enaltecido. É a profissão feminina de maior prestígio neste início de milênio) é o fato de que a exposição deste corpo tem propósito mercadológico.

A modelo foi elogiada e aplaudida porque transformou seu atributos físicos em prestação de serviço. E NESTE CASO, todos dizem que é um corpo belíssimo e que ela está fazendo um ótimo trabalho.

Ela está fazendo um ótimo trabalho emprestando seu corpo aos interesses de terceiros – mostrar móveis.

Ela não tem identidade, nem personalidade e a sua presença no anúncio não tem nexo. É simplesmente um elemento que compõe a imagem.

Agora…

Uma mulher que exibe o seu corpo com pouca ou nenhuma roupa, por interesse próprio ou em nome de uma causa, causa indignação.

Uma mulher que mostra os peitos na propaganda de cerveja…é uma gostosa fazendo um belo trabalho.

Uma mulher que mostra os peitos na Marcha das Vadias (por exemplo)…é uma radical, vulgar, vitimista, louca.

O fato “mulher mostrando corpo”, não muda.

O que muda são as nossas reações em torno do motivo pelo qual isso está sendo feito:

(Mais claro impossível: corpo feminino seminu VÁLIDO é aquele que foi endossado por uma agência. E que é direcionado ao consumo do público-alvo: homens heterossexuais)

Isso acontece porque dentro da estrutura patriarcal (perceba que eu não usei a palavra “patriarcado” de um jeito histriônico e relacionando com teoria da conspiração) exercer domínio sobre o corpo da mulher tem uma importância fundamental

Falei mais sobre isso AQUI

Somos obrigadas a casar virgens aos 14 anos, para chamar nossos esposos de “Senhor Meu Marido”?

É EVIDENTE que não.

Mas um modelo social que foi sólido durante muitos séculos certamente deixa resquícios.

Por que uma modelo no catálogo é aplaudida e admirada, e uma mulher que expõe seu corpo dentro de uma circunstância que não seja contratual sofre reprovação social e é tratada como sem valor?

alezzia

(~Modelo linda fazendo o seu trabalho~)

piriguete

(~Vagabunda que não se valoriza~)

R: Porque o corpo feminino é aceitável quando é contido.

O corpo da mulher destituído da personalidade e dentro de um propósito mercadológico é OK.

O corpo da mulher que se expressa a mando de ninguém senão ela mesma precisa ser punido.

(Por isso agora você entendeu porque ESTE ARGUMENTO é uma falácia)

2) Este anúncio não está oprimindo ninguém, que exagero

Os anúncios da Alezzia, em particular, não estão de fato oprimindo ninguém.

O problema é que é uma gota no oceano. E o oceano existe.

Cada peça de um quebra cabeça conta para formar um conjunto… por mais insignificante que seja quando considerada de modo isolado.

(Uma pequena peça não parece nada de mais. Mas COM CERTEZA contribui…)

Novamente: é uma ingenuidade muito grande acreditar que banalizar o corpo feminino não causa nenhum impacto na vida das mulheres.

Te proponho uma atividade: repare.

Sério. Comece a reparar de verdade em quantas vezes você vê mulheres em situações sem contexto. Mulheres sem nome, sem identidade, muitas vezes representadas sem a cabeça.

Sério mesmo que você acredita que isso NÃO AFETA EM NADA a sua vida?!

Os profissionais de comunicação e os donos das marcas argumentam que:

O corpo feminino é atraente. Homens gostam do que é atraente. Isso chama a atenção. Dizer que é objetificação é uma “forçação de barra” porque é uma hipocrisia negar o poder da sexualidade.

Reminder: o objetivo deles NÃO É zelar pela sua saúde e pela sua autoestima.

Responde para você mesma: você acredita, MESMO, que passar a sua infância, adolescência e idade adulta observando fragmentos de mulheres genéricas em frequência de bombardeio NÃO FAZ NENHUMA DIFERENÇA na sua percepção de si mesma?

Você detesta as feministas, acha que são umas escandalosas feias, deselegantes e recalcadas, é terminantemente contra qualquer ideologia de esquerda, não gosta da atitude das militantes?

Pode ter sido isso que a levou a avaliar Alezzia com 5 estrelas.

…Mas você vai realmente acreditar que não existe “nada de mais” NISTO?

Um dos principais problemas causados por todos esses anúncios é o fenômeno da auto-objetificação: a mulher desenvolve a percepção de que o seu corpo simplesmente existe para ser olhado pelos outros. Além disso, passa a se enxergar não como um todo, mas sim como fragmentos – que precisam de contínua manutenção.

E isso afeta a saúde e a qualidade de vida. Severamente.

3) As feministas têm inveja da modelo bonita!

GRANDE ARMADILHA.

Nessa mesma semana, eu conversei com uma mulher a respeito da questão da aceitação corporal. Esta mulher estava particularmente incomodada com o fato de ter engordado (por fatores naturais – em decorrência da menopausa)

E ela disse:

“Eu não quero destoar. Eu não quero ser a única diferente da tribo. Eu não quero ser gorda enquanto outras mulheres magras desfilam no verão. Eu não aguento a reprovação. Ninguém gosta de viver à margem. Eu quero me enquadrar.”

A conversa era sobre ser gorda no meio de uma cultura de corpos magros.

Mas quem é que aguenta o tranco de ser uma mulher subversiva no meio de uma cultura de mulheres que conhecem seu lugar e não reclamam?

Tem que ter muita coragem.

O maior valor de uma mulher é a atratividade, certo?. Então você PRECISA ser atraente. Mulheres que protestam não são atraentes… São as “feias”.

Portanto você tem que fugir de toda forma de protesto, não é mesmo?

Avaliar 5 estrelas na Alezzia é dizer: “Olhem, eu NÃO SOU feminista. Eu NÃO SOU como essas histéricas que não se comportam. Eu aceito o status quo.”

E será que temos direito de julgar quem se poupa de uma reprimenda social esmagadora?

É compreensível que você prefira pertencer ao Hall das mulheres belas e agradáveis.

(Zero% risco de censura)

Mas olha só: você não é obrigada a ser feminista!

E você também não é obrigada a buscar uma qualidade de vida melhor, se você não quiser.

Mas acreditar que beleza = autoestima e aceitabilidade é uma prisão terrível porque as definições de beleza são bastante inflexíveis. E além disso, mesmo que você cumpra os requisitos, este valor dura somente por uma parte da vida.

Você pode escrever textão rindo das feministas. Você pode dar 5 estrelas nas empresas que exploram o corpo feminino.

Mas você não pode fugir do seu ritual privado de correções posturais diante do espelho. E da sensação de que você nunca é suficiente. E se é… é uma condição que vai durar pouco.

O problema da Alezzia é o sarcamo, o cinismo e o posicionamento DECLARADO de que mulheres têm menor valor.

E você não precisa concordar com isso só porque você não é “de esquerda”.

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Agora, se você é uma mulher e faz parte das 1862 pessoas que curtem ISSO, mesmo após a reflexão que apresentei… lavo as mãos.

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33 ideias sobre “Às mulheres que deram 5 estrelas na Alezzia.

  1. Gabriela Barros Gonçalves

    Concordo com tudo que foi dito. Pior que isso só vai mudar quando as próprias mulheres se respeitarem. Infelizmente, parece que cada vez mais as mulheres querem ter esse papel de objeto sexual. Claro que muitos homens gostam disso e vários já crescem com essa imagem da mulher. A parte que não quer fazer esse papel acaba sofrendo as consequências também, como por exemplo, escutar besteira na rua de um cara qualquer que nunca viu na vida…total falta de respeito.
    Quanto a essa empresa aí, totalmente sem nexo colocar uma mulher seminua numa propaganda de móveis, eu realmente não entendI. A mulher é brinde ou o quê? Engraçado que geralmente quem se interessa mais em pesquisar esse tipo de coisa é a própria mulher, que no geral se interessa mais por decoração e tal..bom, eles vão acabar perdendo vários clientes.

  2. Ananda

    Ganhando o que, Rodrigo? Bebida grátis pra ficar bêbada mais rápido e “facilitar” pros homens? Nós reclamamos sim. Feministas criticam isso sim. E óbvio que os homens se fazem de injustiçados na internet usando esse argumento mas adoram essas festinhas que tem 10 mulheres pra cada homem. Vá se ferrar, Rodrigo. Ah, e quando vir feministas criticando essas festas nós nos xingue de mal amadas invejosas, tá?

  3. Rafaela M

    Estou aqui para dizer q seu texto foi perfeito para o momento. E também para apoiar mais uma mulher que está na luta ao lado de tantas outras. Pq qdo se trata de defender o privilégio, os homens sabem, e muito, se unirem e serem absurdamente complacentes entre si, estufam seus peitos de pombos e dizem qualquer asneira que julgam “derrubar” argumentações. Pra isso vale tudo, até se fazerem de vítima (não é isso que dizem de feministas? q falamos muito mimimi), e invocarem um comercial das Havaianas. Veja para o cara invocar uma argumentação dessa ele não sabe que:
    1 – tradicionalmente o marketing para mulheres é feito quando são produtos de baixo custo (cosméticos, roupas e sapatos), pq acreditam que mulher tem renda mais baixa (e não temos? cerca de 33% a menos nosso país?). Desculpa, mas as havaianas não inovou qdo colocou homem bonito para vender coisa barata, isso só prova que o marketing (dirigido por quem será?) ainda acha que quem mais compra havaianas são mulheres, o dia que colocarem um apelo ao público feminino para vender BMW, daí pode indicar alguma mudança;
    2 – É tradição usar o corpo de mulheres e SÓ o corpo, pq geralmente são mulheres mudas, sem nome, algumas vezes sem roupa e, até mesmo, sem cabeça para usadas para vender qualquer coisa, inclui-se aí produtos mais caros como os carros.
    Estou farta dessa broderagem que bate no peito achando que está quebrando paradigmas pq não são “politicamente corretos” e nem sabem enxergar o próprio lugar deles na sociedade.

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