“Se ao menos eu fosse dessas que não comem…”

Precisamos falar sobre um pensamento que povoa a mente de inúmeras pessoas:

A ideia de que existe um problema alimentar “melhor” do que outro.

Um transtorno alimentar é um relacionamento seriamente desajustado com a comida que causa muitos danos à saúde de um indivíduo. Desde disfunções orgânicas até severo comprometimento da vida social.

É amplo o espectro de desordens alimentares e há muito o que ser dito a respeito de todas elas. Mas neste texto falo sobre pessoas que sofrem com o excesso, ou com a escassez.

obs: mesmo que a pessoa não seja diagnosticada com um transtorno alimentar propriamente dito, existem jeitos desarmônicos de comer que causam forte angústia no indivíduo.

Uma pessoa que se alimenta de modo saudável é aquela que come de acordo com as necessidades de seu organismo. Não restringe, tampouco exagera (mas é CLARO que as duas situações ocorrem ocasionalmente – estamos falando sobre seres humanos). Tem o peso corporal estável e apresenta um consumo equilibrado de todos os grupos alimentares.

Se acontece algum tipo de perturbação neste quadro… é porque existe um desequilíbrio na rotina.

Comer pouquíssimo e comer exageradamente são ambos problemas com a alimentação. Mas a sociedade enaltece um e condena o outro.

Isso acontece porque relaciona-se emagrecer com sucesso e engordar com derrotasejam quais forem as circunstâncias.

Uma pessoa pode ficar gravemente deprimida em consequência de uma perda, por exemplo.

Se ela emagrece, as pessoas dizem “nossa, você passou por todas essas dificuldades, mas olhe que maravilha: emagreceu!”

Se ela engorda, as pessoas dizem “nossa, que absurdo. Se abandonou! Como uma pessoa se permite chegar nessa situação?”

Ou seja: dois pesos, duas medidas.

Eu perdi as contas de quantas vezes eu já ouvi os seguintes comentários:

“Eu adoraria ser dessas pessoas que ficam estressadas e param de comer.”

“Eu sou um fracasso até para forçar vômito.”

“Eu não presto nem para ser anoréxica.”

“Eu queria muito ter um problema que tivesse me feito emagrecer.”

“Eu poderia ter desenvolvido hipertireoidismo, mas não!! Tinha que ser hipo…”

“Quem dera o antidepressivo tivesse me feito perder peso.”

Quem diz isso são pessoas que engordaram em decorrência de algum fator impactante em suas vidas: mudança de cidade, perda do emprego, casamento, morar sozinho, efeito colateral de medicamentos, depressão, desequilíbrio hormonal, menopausa, gestação, luto… e por aí vai.

Só que se tudo isso tivesse provocado uma abrupta perda de peso, não seria um fator de sofrimento. Arrisco até o palpite de que seria uma satisfação. Mesmo em detrimento da saúde.

engordei

(é sempre ESTE o problema)

Este pensamento é 100% alimentado por estereótipos.

Ser magro: é ter autocontrole, equilíbrio emocional, maturidade, disciplina.

Ser gordo é: ser preguiçoso, glutão, infantil, indisciplinado, indulgente.

Acontece que nada disso é verdade. O aspecto físico não é uma leitura moral do indivíduo.

Trocar a compulsão alimentar por anorexia não é um bom negócio. É simplesmente trocar uma doença por outra. Embora uma delas pareça “mais digna” (justamente porque a anorexia é um suposto triunfo do autocontrole – característica que a sociedade ocidental valoriza muito).

Você engordou recentemente e está sofrendo com isso?

1) Isso não é fracasso, crime, derrota e nem vergonha. É apenas algo que aconteceu. E certamente existem motivos para isso.

2) Ter emagrecido ao invés de engordar por uma razão patológica não teria sido melhor. Seria apenas um outro tipo de problema.

Outra coisa:

Um ganho importante de peso pode vir acompanhado de problemas de saúde? Sem dúvidas.

Mas existem pessoas que estão gordas, mas sem sofrer nenhuma condição clínica importante. Muitas vezes o peso até está estável (só não está de acordo com o peso que o indivíduo desejaria ter…)

E mesmo diante disso, a pessoa faz piadas sobre como “seria ótimo” ser anoréxica. Ou sofrer de uma doença terrível que a fizesse emagrecer.

Se você pensa dessa forma ou diz essas coisas… reflita sobre isso.

Ter um problema é ruim.

Não importa se ele te faz engordar ou emagrecer.

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2 ideias sobre ““Se ao menos eu fosse dessas que não comem…”

  1. Malice

    Eu que o diga, é muito ruim sofrer de inapetência e conseguir fazer no máximo uma refeição por dia. Mas para a sociedade, se você veste um manequim 34, então está tudo bem, mesmo que sua saúde não esteja boa.

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