Restrição Qualitativa

obs: este texto não aborda questões de saúde específicas que exigem a restrição/exclusão de determinados tipos de alimentos da dieta.

obs²: este texto não entra no mérito das regras alimentares religiosas e/ou ideológicas [com exceção, claro, da “paleo”]

Let’s begin:

Quando alguém faz um textão criticando a dieta do momento, deve esperar por uma chuva de protestos. E foi o que aconteceu, claro.

Além dos ataques pessoais totalmente sem relação com conteúdo do meu texto, testemunhos de mudança de vida dignos de serem contados no microfone do Valdomiro Santiago… recebi o argumento de que eu “errei” ao falar sobre a dieta paleo porque eu afirmei que ela é restritiva:

“Você certamente não conhece nada sobre paleo porque o diferencial dela é que você pode comer à vontade, não há limitação de quantidade. Ela não é restritiva.”

*Ao contrário de algumas personalidades na internet, eu não falo sobre assuntos que não domino, e garanto que sei exatamente o que é paleo. Sustento cada frase do que já escrevi.

** “Diferencial” – pfffffffffff….

Mas a partir disso, ficou claro que se faz necessário esclarecer sobre o que é restrição qualitativa. Sim, isso existe!!

Existem muitos problemas decorrentes de restringir a quantidade de alimentos necessária para o funcionamento adequado do organismo, ou seja: comer pouco. Mas este texto não é sobre isso.

Este texto é sobre como podemos ter problemas restringindo severamente os TIPOS de alimentos consumidos.

É importante deixar claro que o ato de comer não está envolvido apenas com a “nutrição do organismo” – argumento muito comum, quando fazem-se analogias sobre abastecer um carro ou ~comer para viver, e não viver para comer~

Só que você não é carro, não é máquina, tampouco uma pessoa isolada da cultura.

Se privar dos tipos de alimentos que compõem nosso hábito cultural gera: ansiedade em torno das escolhas, sensação de fracasso e culpa diante das falhas na tentativa de controle (que de maneira alguma são falta de “força de vontade” do indivíduo) e aderência a uma rotina alimentar atípica, praticamente impossível de ser sustentada a longo prazo.

É preciso ter um entendimento mais amplo de “restrição”, porque ela não é apenas física (quantidade insuficiente ou proporção inadequada de nutrientes)… Ela também pode ser emocional, e acontece quando um indivíduo se priva do prazer proporcionado pelo alimento.

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(Uma imensa, flagrante, gigantesca BESTEIRA)

Além de tudo isso, ao contrário do que muitos acreditam, o corpo também sofre quando “cortamos” determinados grupos de alimentos da alimentação.

“Emagreça sem passar fome” e “coma à vontade” são duas grandes BALELAS ditas sobre as dietas.

Não é só a QUANTIDADE de comida que nos deixa satisfeitos.

Como uma das leitoras relatou sobre a sua experiência com a dieta paleo: ela tinha permissão para comer 10 ovos, mas chegava a chorar porque queria uma maçã.

Não adianta engolir 10 fatias de presunto se você quer comer fruta!!

Um dos principais problemas com a prática de dietas de emagrecimento, é que as orientações técnicas desconsideram completamente os sinais que o corpo dá sobre qual é o TIPO de alimento que nos deixará satisfeitos.

Você já sentiu uma repentina vontade de comer laranja? Ou de polvilhar um pouco mais de sal na sua comida? Ou de uma concha quentinha de feijão preto?

Você pensa que tudo isso é aleatório? Jamais!

O seu corpo, literalmente, conversa com você.

Mas as dietas restitivas (em todos os sentidos!) incentivam que você ignore sumariamente as necessidades do seu corpo.

As famosas listas de alimentos que podem ser “consumidos à vontade” são uma verdadeira piada de mau gosto:

Refrigerante diet; (QUEM FOI QUE FALOU em SAÚDE, né nom??)
Gelatina diet;
Chá sem açúcar;
Palitos de AIPO;
Acelga;
Rúcula;
CHICLETE DIET;

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Não adianta considerar apenas volume e prometer: “essa dieta é absolutamente LIVRE, você não vai ficar com fome.

Quando você não come o que precisa, continua faminto.

Resumão sobre os principais problemas com as dietas de restrição qualitativa:

  1. A FAVORITA, lowcarb: orienta um maior consumo de proteínas e gorduras. A monotonia na qualidade da alimentação leva a uma ingestão inadequada de vitaminas e minerais. Ocorre um aumento significativo do consumo de gorduras saturadas (e isso pode afetar negativamente o perfil lipídico sanguíneo). A falta de carboidratos para suprir o cérebro causa irritabilidade, dificuldade cognitiva, confusão mental, tontura, dor de cabeça (quem já seguiu “Dukan”, que o diga!). O corpo apresenta fadiga – justamente por causa da falta de energia. Além disso, o excesso de proteína pode causar sobrecarga renal e hepática. Crises de hipoglicemia também são muito comuns.

A proteína é o NUTRIENTE TOP™ do momento, mas acredite: ingestão proteica pode SIM, ser demais.

Não acredite quando alguém tentar te explicar que “cetose” é ÓTIMO para o cérebro e para o corpo. É sério: não acredite.

2. Lowfat (ou seja – restrição de gorduras): a gordura é uma substância muito, muito, muito, muito mal compreendida. A nossa sociedade é profundamente lipofóbica (por motivos bastante complexos que não cabem neste texto no momento) e a gordura é O MAL que todos evitam.

Com a diminuição do consumo da gordura (que muitas vezes está contida em produtos de origem animal), ocorre um imediato aumento no consumo de carboidratos e isso leva ao ganho de peso e aumento de triglicerídeos no sangue. Além de tudo, a gordura É IMPORTANTE para regular o intestino, promover saciedade, absorção das vitaminas A, D, E e K, regulação da temperatura corporal e bom funcionamento do cérebro (participam das sinapses nervosas).

Como muitas fontes de gordura também são fontes de proteína, ocorre diminuição do fornecimento de aminoácidos e isso favorece a perda de massa muscular.

3. “Dieta do abacaxi” (ou outras coisas do estilo): dietas muito populares nas bancas de revistas, garantem que você poder comer ______________ (preencha aqui) ~À VONTADE~. Parece ótimo, não? Não tem como passar fome!

Só que é péssimo. Esse tipo de dieta não é equilibrada. Pelo contrário: é 100% monótona, e isso causa deficiência de DIVERSOS nutrientes. Isso causa UM MONTE de sintomas desagradáveis e além disso, é im-pos-sí-vel de seguir e após dois ou três dias de dieta, a pessoa tem um colossal episódio de compulsão.   

(NOVAMENTE: quem foi que falou em “saúde”??)

Este é o coala. Ele se alimenta exclusivamente de folhas de eucalipto… Você não é um coala. Não dá para viver comendo SÓ UM tipo de alimento.

Lição: só porque uma dieta promete que você pode comer “à vontade”, não significa que não seja restritiva.

 

 

 

 

 

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9 ideias sobre “Restrição Qualitativa

  1. DANIELA GOMES

    É triste ver como complicamos a relação com a comida. Na tentativa de usar o alimento para preencher espaços na nossa vida, criamos tantos Tabus em torno do assunto , que por fim não conseguimos resolver os problemas além da comida , e ainda dificultamos a relação com ela.

  2. Não sou Exposição. Autor do post

    Pelo seu jeito de escrever, me parece que você está em Portugal. Aqui no Brasil as pessoas estão MUITO avessas às frutas. A teoria do “pico glicêmico” se mistura com os princípios da paleo e as pessoas não se permitem maçãs – somente coco e abacate.

  3. Catarina

    Concordo inteiramente consigo, especialmente no que diz respeito à parte emocional.
    Apesar de não seguir a paleo, não acho no entanto correcto algumas pessoas afirmarem que exclui os carbohidratos (hello, fruta e vegetais). Também não percebo porque ela estava a chorar por não comer maçã. Nunca vi nenhum autor paleo a excluir as frutas. Claro que exclui grãos e leguminosas e por isso tem toda a razão quando afirma que corta com determinados alimentos.

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