YOUCOM e malditas roupas.

 

Recentemente eu tive experiências muito curiosas quando saí para comprar roupas. Na verdade eu já estava pensando em escrever sobre isso, mas percebi que chegou o momento após a publicação sem noção da YOUCOM (do dia 30 de outubro):

youcom

(Vale a pena demais parar de comer pelas nossa ropinha mixa)

Essa propaganda recebeu uma reprovação TREMENDA do público, muitas mulheres se reuniram para protestar. Pouquíssimas pessoas curtiram ou aprovaram. Ou seja, tiro no pé.

comments

(Pois é, YOUCOM… Deu ruim)

Eu também me manifestei por lá, mas enfim… CLARO que também teve o lado que nos chamou de feminazis, mimimi etc (se este é o caso, assumo: sou dessas)… E também algumas pessoas que comentaram que não viram nada de mais na postagem ou não entenderam o motivo de uma reação negativa tão expressiva.

Ah! Eu fucei bastante os compartilhamentos e é interessante notar que a maioria das pessoas que disseram “o mundo tá chato”, “isso é ‘problematização demais'”, “que exagero” e comentários semelhantes está envolvida com propaganda-comunicação-marketing

Ou seja: quem deveria entender, não tá entendendo.

Mas retomando: por que uma reação negativa tão expressiva?

R: porque o público feminino está FARTO de ser desrespeitado por lojas de roupas.

A questão não é este anúncio em particular. Isso é uma faísca num barril de pólvora. Para um motim, bastava um estímulo.

Pero bueno, vou fazer meu relato…

Eu não gosto de comprar roupas. Não sinto nenhum esplendor manifestar na minha alma feminina enquanto transito pelas araras das lojas (deveria?) e nunca entendi o sentimento de maravilhosidade das shopping-spree-montages mostradas em incontáveis filmes da minha adolescência.

(Uma emoção que eu nunca vivi)

(Também achava o guarda-roupa interativo da Alicia Silverstone meio cabuloso…)

Mas chega um momento na vida de uma mulher em que ela realiza que precisa comprar roupas.

Então eu fui.

Antes de dar continuidade, gostaria de esclarecer duas coisas:

1) Dizer que eu sofro para encontrar roupas seria um absurdo. É apenas uma coisa enfadonha.

2) De maneira alguma estou ridicularizando, hostilizando ou desmerecendo as mulheres que usam entre 34 e 38, ou mesmo as que precisam recorrer à seção infantil.

Dito isso, continuo:

Na tarde da sexta-feira retrasada eu permutei por três lojas famosas de fast fashion procurando uma calça.

Comprar minhas próprias roupas é relativamente raro porque eu sofro da síndrome da caçula-que-herda-roupas, então isso significa que eu tenho muitas roupas que pertenceram à minha mãe, ou minha irmã…e algumas da minha tia.

Então posso dizer com propriedade: não se fabricam mais roupas como antigamente.

Eu inicialmente me direcionei às peças de número 38, porque a minha mãe tinha calças 38 e ela me deu portanto este é meu número.

… E elas eram ridiculamente pequenas.

Consegui identificar no olhômetro que 38 não era uma opção, então peguei uma 40 e fui para a área destinada aos provadores.

E essa é a parte triste ='(

Eu presto MUITA ATENÇÃO às coisas que as pessoas dizem ao meu redor (é surpreendente o quanto as pessoas falam sobre emagrecimento, corpo e dietas…). Então ao longo do meu caminho até uma das cabines no fundo do corredor, eu me senti num verdadeiro muro de lamentações:

“Aaai, mãe. Não adianta! Não serve! Ficou horrível!”

“Amiga, sai daí, deixa eu ver!! – Não, eu tô gorda!!”

“Não tem jeito. Não dá. Eu tenho que emagrecer.”

“Não gostei, me deixou gorda”

As lamúrias somadas ao espaço impessoal e o banho de luz fria fez tudo aquilo parecer um corredor da morte ou coisa que o valha;

Caramba, gente…que dantesco.

Eu estava num lugar onde pessoas vão para comprar roupas, mas não conseguem comprar roupas.

Parece que a gente bebeu aquela garrafinha do País das Maravilhas que faz a gente crescer.

Agora rebobinando para a minha situação naquele provador nefasto, com a minha calça 40:

Era uma calça cigarrete (reza a lenda que as pessoas jovens chamam de skinny)… A peça até que serviu. Só que ficou muito muito muito apertada. Então ok, vamos tirar.

Não consegui.

A maldita calça não passava dos joelhos!

Então eu sentei no banquinho miserável que fica diante do perturbador jogo de espelhos e fiquei ali respirando por um momento, presa naquele jeans-40-menor-do-que-meu-38.

E abri meus ouvidos para as lamúrias ao meu redor, que continuavam… E tive que rir.

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(Pelo menos era um problema engraçado)

Resumo: com muito esforço eu consegui tirar a calça apertada, devolvi para a mocinha avisando-a que não serviu (imagino quantas vezes ela escuta isso...) e fui pegar um 42 exatamente igual ao 38 da minha mãe.

Enquanto esperava na fila do caixa esperando para pagar minha calça (a gente paga pra fazer papel de palhaça) passei os olhos por toda a loja, procurando por roupas grandes… Sem sucesso.

Aí eu comecei a olhar para o corpo das mulheres que estavam circulando pela loja garimpando as araras…

Gente, é incompatível.

“Plus size” seria um 46 que na realidade é um 42?

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(Olha aí.)

Repito, que dantesco!

Claro que as lojas “sabem” numerar certo. Só que peças menores significa menor custo de produção, que significa: emagreçam para caber nas nossas roupas.

E também, claro, o fato da magreza ser considerada um prestígio.

Aí é questão de exclusividade, né?

O público fiel das distintas lojas de roupas minúsculas caríssimas não vai gostar de dividir o look com as (ui!) mulheres gordas.

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(“Muita gente não cabe em nossas roupas e não é para caber. Se somos exclusivistas? Totalmente.” – Mike Jeffries)

Se eu tenho uma solução para tudo isso? Infelizmente não, mas faço a minha parte.

Se eu entendo porque a publicação da YOUCOM gerou um Tsunami de revolta? Hell, yes.

Atualização: a leitora Josianne Sperançolo acabou de me enviar isto:

coma-salada

Sim, eu entendo a revolta. Perfeitamente.

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7 ideias sobre “YOUCOM e malditas roupas.

  1. Oriana Bats

    O problema é geral. Sou portuguesa e passo pela mesma situação. Agora imagina ser adepta da subcultura gótica E “plus-size”. Já é difícil achar roupa de tamanho “grande” (visto XL ou XXL dependendo do material da roupa e do corte) quanto mais achar roupa grande e preta (e rendas e veludo, que são a minha perdição). Normalmente só compro roupa no Inverno, porque aparentemente vestir preto no Inverno é moda (melhor para mim) e por acaso este ano tive a sorte de ir a lojas mal a colecção mudou, meaning, apanhei umas peças giras com tamanhos DECENTES. O pior mesmo é ir a lojas ditas alternativas. Sim, as roupas são uma perdição. Sim adoro esse cardigan/blusa com renda e mangas boca-de-sino. Não, não há o meu tamanho porque a marca vai até ao XL, mas se aquilo é XL eu sou a Mãe Natal. O melhor mesmo foi eu ter emagrecido devido a um trabalho temporário que tive, e ter engordado quando fui comprar roupa passado pouco tempo. Não senhores vendedores, eu não engordei. Vocês é que preferem fazer uma lavagem cerebral às pessoas (especialmente mulheres mas os homens também as sofrem), a ponto de as porem doentes, para que elas emagreçam para VOCÊS pouparem uns trocos. E ainda vêm com a tanga do costume: “Ama o teu corpo”, blah blah blah. Ama o teu corpo, mas só se fores modelo de capa de revista, porque senão esquece. O mais engraçado ainda é que, se formos ver, as roupas de tamanhos pequenos são sempre as que vão para saldo. As que sobram. Será que a venda de roupas de tamanhos maiores não iria compensar o seu custo de produção? É que essas não costumam ficar paradas nas lojas. (/prontofalei)

  2. Isis

    Sim, tem isso. Cada vez nos esperam mais magras. Eu tenho 1,70m e recentemente com 68kg me chamaram de gordinha, fiquei bravíssima, não pq estar gorda é ruim, mas porque estou dentro do limite do meu peso (o limite é 72kg). Ou seja, isso vai entrando na cabeça das pessoas…
    Entra que se vc não for magérrima (exemplo minha irmã que com a mesma altura tem 56 e usa 36 ou 38) vc é gorda, não existe mais meio termo.
    Os numeros estão cada vez menores, eu trabalho em loja de roupa e vejo isso. Então não é só a população que está ficando obesa, mas as lojas diminuindo e cada dia o padrão de beleza mais absurdo. Tem noção que é considerado feio estar dentro do seu peso? Dito isso, dizer o que mais?

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