Precisamos falar sobre os estudantes.

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Precisamos falar sobre estudantes de nutrição.

Graduandas (e graduandos) com problemas de imagem corporal e/ou transtorno alimentar é o maior clichê da história dos clichês. Infelizmente.

Durante a formação estes problemas não são detectados. Nem tratados. Ao longo do curso, muitos dos sintomas podem agravar (uma vez que o aluno tem uma proximidade muito grande com ferramentas para a manutenção de seus problemas: contar calorias, interpretar rotulagem, classificar “vilões alimentares”, avaliação físca…).

A pessoa que passa o curso inteiro sem resolver suas questões então se forma e entra no mercado perpetuando ideias rígidas, estereotipadas e muitas vezes patológicas sobre corpo e alimentação.

Pausa para sequência de imagens retiradas de perfis de nutricionistas:

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Mencionei que eu peguei tudo isso em perfis de nutricionistas? 

Não é uma nem duas estudantes que eu vejo dando “dicas” controversas, inadequadas e perigosas na internet. São dezenas.

Pior: dentro de grupos secretos, sem orientação profissional alguma, dentro dos quais pessoas doentes nutrem entre si as suas próprias doenças.

Na figura ali em cima, eu grifei a palavra “efeitos” num formato diferente, porque ela está usando essa expressão no lugar de ‘emagrecimento’. É alarmante (mas infelizmente, nada incomum) o fato de que uma pessoa dentro do curso de nutrição entenda a perda ponderal como o único EFEITO a ser buscado a partir de seus estudos.

– É proibido pela Anvisa.

– Contém uma droga sintética estimulante que pode provocar sérias modificações metabólicas e de morfologia cerebral.

– Pode causar drogadição!

– Você tem que dar um jeito de comprar ilegalmente.

Mas o que interessa é “O EFEITO”: você emagrece.

Um nutricionista precisa ter um entendimento mais amplo do que seriam “efeitos”. A maioria dos resultados decorrentes de mudanças no hábito alimentar acontecem DENTRO do corpo e são invisíveis. E como somos profissionais da área da saúde, precisamos focar nos positivos. Por motivos óbvios.

(Os efeitos ocorrem aqui, por exemplo. E você não enxerga)

É muito controverso ver incontáveis estudantes da área da saúde (!) recomendando práticas nocivas e perigosas: drogas, hormônios, jejuns, chás em doses tóxicas, laxante, diurético, abuso de atividade física, dietas malucas. E acredite: isso é muito comum.

Já falei a respeito do caso “Mayra Cardi seca você” e vou falar novamente: uma pseudo-celebridade passando orientações sem ter qualificação, ou uma estudante dando dicas perigosas no Facebook é só A PONTA do iceberg.

Estamos focando nos meios, mas dificilmente levantamos discussões sobre O FIM:

Emagrecer a qualquer custo e apresentar O CORPO como identidade e moeda única de valor. E isso tem consequências: crescimento vertiginoso dos transtornos alimentares, depressão, ansiedade, baixa autoestima, comprometimento da vida social e até o aumento da própria obesidade porque, paradoxalmente, quanto mais enlouquecidas as pessoas ficam em torno de manobras para não engordar, mais elas engordam.

Pensa-se que os estudantes precisam assimilar o conteúdo programático (bioquímica, fisiologia, patologia, dietoterapia, planejamento de cardápio…), mas as suas crenças, convicções e valores pessoais devem ficar em segundo plano porque isso é problema deles.

Que engano!!!

Não é surpresa para ninguém o fato de que uma parcela muito grande dos nutricionistas é ferrenhamente gordofóbica e despreza profundamente as pessoas que deveriam ajudar, perpetuando discursos de lugar-comum (“força de vontade” e bobagens correlatas)

Também não é surpresa para ninguém as famosas piadinhas transtornadas que fazem o público ficar com medo da comida e repulsa pelo próprio corpo.
(Se isso não é uma coisa TRISTE, eu não sei o que é)

Estudantes adoecidos se tornam profissionais adoecidos.

E profissionais adoecidos guiando pacientes adoecidos é como cego guiando cego.

Portanto, Universidades e Faculdades… precisamos falar sobre os estudantes.

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Uma ideia sobre “Precisamos falar sobre os estudantes.

  1. Isis Stelmo

    Nossa, Paola! Sou nutricionista e fico muito assustada com colegas e futuros colegas de profissão passarem informações dessa forma… Passa até mesmo uma ideia errada da nossa profissão, a do “profissional emagrecedor” e somos muito mais que isso! Nosso papel não é emagrecer ninguém! É cuidar da relação entre as pessoas e a comida…

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