Áudio de uma gorda, vídeo de uma magra.

Hoje eu publiquei o meu vídeo sobre a campanha da C&A. E claro, aconteceu algo que eu já sabia que ia ocorrer: ser acusada de estar roubando protagonismo.

E isso é risco calculado. Sempre que escrevo sobre gordofobia.

Ponderei. Fiz mesmo assim. Achei que deveria.

Dei a cara a tapa e, claro, levei. E não tem problema.

Eu entendo o questionamento. É totalmente legítimo. Não tiro a razão.

Mas não vou parar de fazer o que eu acredito que é certo por causa disso. Eu estou promovendo saúde (saúde DE VERDADE) para TODAS AS MULHERES e o direcionamento do meu trabalho vai muito além de segmentação e de discutir quem está roubando o holofote de quem. É a minha decisão. Meu objetivo é promover questionamentos sobre o culto ao corpo na sociedade contemporânea e como isso tem impacto negativo na vida das pessoas. Porque eu trabalho com elas.

Então sinto muito… Não recuo.

Aliás, eu já passei por coisa muito pior para decidir parar agora.

(O NSE é maior do que discussões sobre quem tem o direito de subir no palco)

Dito isso, já que supostamente no NSE está faltando VOZ para as gordas, eu vou publicar o áudio da minha amiga Bianca Lemos, que é decididamente uma mulher gorda. Então deixarei que ELA fale.

Segue áudio e transcrição:

 

Oi, gente. Meu nome é Bianca Lemos, eu sou moderadora aqui da página. Esse vídeo que a Paco fez sobre a C&A era um vídeo que era para eu fazer. Eu sou gorda, realmente gorda, eu sou a gorda que ela relata ali. Aquela que entala na catraca do ônibus, aquela que perde empregos, aquela que sofre preconceito real no dia a dia por causa do peso.

Eu ia falar sobre esse assunto e a ideia surgiu porque nós participamos de um grupo de Whatsapp e algumas meninas do grupo estavam dizendo que são gordas. Só que elas não são gordas. Então eu fiz um áudio muito íntimo, muito dolorido de fazer, onde eu falei o que é realmente ser gorda. Algumas das coisas que eu falei a Paco repetiu no vídeo. E ser gorda é diferente de se sentir gorda, né? É tudo aquilo que ela falou. Tem mulheres que falam “Ah, eu sou gorda.” Por que? Porque às vezes a mãe diz que ela está gorda, o pai diz isso, às vezes o namorado. Às vezes ela se compara com uma modelo numa capa de revista, ela acha que por não ter aquele corpo ela é gorda. Então eu estava discutindo com as minhas amigas, abrindo o meu coração, falando sobre o que realmente é ser gorda na sociedade.

Eu usei essa expressão que as pessoas não gostaram, ‘elefante branco’. Eu não me atentei para o fato de que as pessoas poderiam se chatear com isso. Primeiro que não era um áudio público e segundo que eu não achei que a Paco fosse repetir isso. Mas as pessoas já imaginam:

elefante=gorda, baleia=gorda.

Não, gente, elefante é um animal; baleia é um animal. Elefante branco é uma expressão muito antiga, ela vem de uma tradição de presentear reis, governantes na Tailândia, no Camboja, com elefantes brancos. Era uma grande honraria, só que com o passar dos tempos e em algumas situações também, receber um elefante branco era receber algo que não tinha utilidade. Ah, é lindo o elefante, é uma honraria, mas é algo que dá trabalho e que fica ali, jogado, sem utilidade. Então, com o passar dos anos, essa expressão foi mudando e o elefante branco representa um assunto que nós não queremos discutir. É algo que está todo mundo vendo, que está ali ocupando espaço, que está incomodando, mas a gente não fala sobre ele. É algo que a gente acaba fingindo que não existe. Foi nesse sentido que eu falei.

Eu estava tentando explicar às minhas amigas, falando como é diferente elas terem barriguinha, coxas grossas, quadris largos, e de eu entrar em um avião e precisar pedir um extensor. De eu entrar em uma entrevista de emprego, pra ser, sei lá, Auxiliar de Escritório, e saber que a pessoa me olhou de alto a baixo e eu não ser contratada porque eu sou gorda. Eu utilizei essa expressão e falei assim “Eu sou o elefante branco do qual ninguém quer falar”. Porque a sociedade não discute isso. Porque quando eu falo que eu perco empregos porque sou gorda, as pessoas que não entendem isso, elas falam “Ah, Bianca, deixa de bobagem, que palhaçada”.

Ninguém quer discutir esse assunto. Ninguém quer discutir que gordas não tem roupa pra vestir. Eu compro roupas em duas lojas no Brasil. Porque não posso comprar no exterior, pois não tenho dinheiro. Porque se ser gorda já é complicado para comprar roupa, gorda pobre é muito mais complicado ainda. E as pessoas não querem discutir isso. A gente não cabe nos lugares e a sociedade não quer discutir isso. Então eu utilizei a expressão elefante branco nesse sentido. É algo que está ali, é algo que incomoda, porque gordo incomoda, as pessoas não gostam de gordos, mas ninguém quer realmente discutir “O que a gente vai fazer com esse elefante branco?” E quando eu digo isso, não é o que a gente vai fazer com a gorda, não é o que vamos fazer com os gordos. É o que a gente vai fazer com esse assunto. Como a gente vai discutir a gordofobia, o preconceito das pessoas?

Então o elefante branco é isso. Não falei elefante branco porque sou uma gorda branca. Eu não quis dizer isso. Se eu fosse me comparar com um animal, seria uma beluga, não um elefante. 
Então eu gostaria de esclarecer isso: o fato de a Paco ter usado essa expressão, coitada. Fui eu quem falou e acabou sobrando pra ela. As pessoas estão achando que ela é preconceituosa por ela ter falado isso, sem se atentarem para o real significado da expressão. E ela fez esse vídeo porque eu não fiz. Eu ia fazer, após o áudio de Whatsapp com as meninas elas acharam interessante que eu discutisse o assunto. Só que eu estou num momento muito delicado da minha vida e eu não quis me expor. E eu acabei passando por umas situações de gordofobia na mesma semana que a gente conversou sobre o assunto e por estar em um período muito sensível não quis ficar discutindo isso.

Por isso não fiz um vídeo ou um texto, mas como a Paco está sendo atacada agora, estão dizendo que ela está tirando o lugar de fala da gorda, eu estou dizendo aqui que eu sou gorda, tenho mais de 120 kg, uso manequim 56, eu realmente sou gorda, de verdade. Não é que eu “me sinta” gorda, eu sou gorda para qualquer pessoa dessa sociedade.

A Paco está me representando. Ela está falando no meu lugar porque eu não pude falar. E ela não está me fazendo um favor. Ela é uma nutricionista séria, uma profissional de saúde, que está discutindo um assunto do qual tem propriedade pra falar sim, porque ela conhece isso sim. No caso dela, ela não precisa entalar em uma roleta de ônibus para saber o que é ser gorda. Ela atende pessoas gordas, recebe relatos, lida com os gordos diretamente na área da saúde, então ela sabe do que está falando. E nesse caso ela está representando a mim e a todas as pessoas que não podem, não gostam ou não querem se expor.

Porque não é toda gorda que quer se expor e é obrigada a fazer isso. Tem meninas gordas falando sobre a C&A? Tem. Em um monte de blogs, se você procurar no Google vai achar.
Então a Paco é mais uma mulher, falando de um assunto que é importante para nós. Importante para gordas e magras. Uma profissional séria, falando sobre um assunto que não dá para ficar fechado em nichos de gordos.

Então ela está falando por mim, uma gorda. E ela vai falar por mim sempre que ela quiser, sempre que ela puder, porque ela me representa sim. Ela é uma pessoa muito inteligente, tem um trabalho muito sério, e ela está muito mais preocupada com as gordas, do que várias gordas por aí.

 

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3 ideias sobre “Áudio de uma gorda, vídeo de uma magra.

  1. edianetiago

    Certo! E eu que sou a gorda da C&A? Sim! Tenho as exatas medidas (altura e peso) da modelo, uso o mesmo manequim! Passei dois anos na terapia para aceitar meu corpo, porque eu estava surtando, entrando em depressão porque não conseguia emagrecer. E eu tentei, tentei mesmo, de tudo para entrar em um manequim menor. E olha que já tinha aceito que o 38 não dava. Mas já topava um 40/42.

    Como me senti com esta palhaçada? Retrocedi. Voltei a ler, de forma obstinada, sobre dietas, formas de emagrecer, exercícios (e olha que sou bem ativa fisicamente). Eu já estava numa boa. De boas com o meu sobrepeso, tipo físico, de boas com a MINHA BELEZA. Tipo “sou assim, então enjoy!”. Agora, tenho de lidar com esse retrocesso e recuperar a razão.

    Sinto muito por mim e por todas as mulheres: as magras, as gordas e as com sobrepeso. Porque a C&A estabeleceu (foi isso o que aconteceu) a gorda aceitável, a limítrofe. O tipo de gorda: “Tudo bem. Esta você pode comer”. Porque foi isso o que esta loja estúpida fez.

    Aí, minhas caras, quem está com sobrepeso acha que ainda tem salvação. Então corre para a dieta e para o sacrifício. Quem é gorda. Ah! quem é gorda, vira o elefante branco mesmo. Aquele que é legal, mas só atrapalha. A gorda que não precisa de consideração, nem de roupa bacana…

    Que merda de campanha!!!!

    Todas temos de rejeitar a campanha (magras, gordas, amarelas, vermelhas). Porque ela é preconceituosa. Esconde um machismo baixo, classificando a sensualidade (ou a sexualidade) por limites de tamanho de corpo. Então não é uma questão de representatividade das gordas. É uma questão feminina!

    Chorei quando li na lista que uma mulher gorda recebe proposta de ficar com alguém escondido. Eu nunca passei por isso (mais imagino o absurdo, o sofrimento). Também não conseguia comprar roupas na C&A. Desisti da loja há anos e, é claro, eles não verão “meu corpo gordo, mas sexy” desfilando por lá.

  2. Não sou Exposição. Autor do post

    É complicado, Patricia. Sabe? Tem mulher vomitando, desmaiando de fome, gorda com depressão, mulher com crise no casamento porque não aceita o próprio corpo, homem tomando bomba! Mas o mais importante é discutir quem tem direito de subir na caixa para falar.

  3. Patrícia

    Paco, acho muito válida a sua postura de falar mesmo sobre gordofobia!
    Certa vez vi um vídeo de uma mulher negra contando que precisou que uma mulher branca intervisse numa situação de preconceito para que as pessoas se conscientizassem.
    O mesmo acontece com o machismo. Os homens podem contribuir, e muito, para por fim à esse mal.
    No caso da gordofobia, talvez seja necessário sim, que as mulheres magras, os “padrões de beleza” saiam em defesa das gordas.
    Infelizmente, damos muito descrédito ao lado mais “fraco”, dizendo que tudo é mimimi…

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