Você é suficiente

O texto de hoje é de autoria da Thaiana Vaz Cutini, psicóloga parceira do NSE, autora do MQST:

Muitas vezes sinto como se eu não fosse o suficiente. Eu digo isso pra mim “isso não foi o suficiente”. Não fui boa o bastante, rápida o bastante, inteligente o bastante. Meus resultados poderiam ter sido melhores, enfim,

eu poderia ser melhor…

E o curioso é que isso não tem nada a ver com meus resultados ou com a quantidade de sucesso que eu obtenho.

Se eu consigo atingir uma meta, logo penso “ah meu deus, mas essa outra meta aqui eu ainda não atingi!”.

Se eu perco peso: “ah mas demorei muito”, “preciso perder 5kg”.

Se eu faço esforço pra fazer exercício e me manter saudável: “vixi, tá pouco!”

Terminei um texto: “devia ter feito dois!”

Muitos vão dizer que ambição é algo positivo: Querer algo é positivo pois nos motiva.

Olha, eu digo que depende.

A consequência desse constante ‘querer mais’ e focar em ‘mais’ é me sentir mal. Parece que estou em um ringue de boxe e estou me espancando constantemente. Me sinto cansada pois parece que apesar de todos os meus esforços (que são muitos, eu garanto) nunca é o suficiente.

Bastante pra quem?

Suficiente pra quem?

Não sei. Sinceramente. Não sei que fantasma é esse que estou perseguindo.

E ai me pergunto:

“Bom o suficiente” não deveria ser o que eu dou conta de fazer? Pensando bem: se alguém se esforça e tenta fazer o seu melhor, isso não é o suficiente?

Faz sentido, definitivamente. Mas por que não me sinto assim? Porque não me sinto suficiente?

Vejo que nós estamos em uma batalha interna e que eu e muitas pessoas só gostaríamos de nos sentir bem, sentir que fizemos o melhor e que tudo bem. Sem culpa, sem medo, sem precisar se desculpar. Viver a vida com essa tranquilidade de tudo bem se der errado, eu fui o bastante, eu fiz o bastante. Só que é difícil viver assim hoje em dia, somos tão cobrados o tempo inteiro pra nos melhorar.

As mensagens que recebemos o tempo todo são: perca peso, seja mais magra, fique mais bonita, mais loira, produza mais, ganhe mais, compre mais… mais mais mais. Nunca nada é bom o suficiente.

(Não é o suficiente)

Internalizar essa mensagem de ‘eu não tenho o suficiente’ e ‘não faço o suficiente’ para… ‘eu não sou suficiente’ foi um pulo. Todos nós estamos sujeitos a isso em algum momento da nossa vida.

O resultado é que estamos infelizes. Já existem várias pesquisas apontando nesse sentido, de que as pessoas estão cada vez mais doentes e infelizes. Corremos atrás de coisas, estamos nessa roda gigante, como hamsters sem parar.

Gente, é muita loucura. Não sei vocês mas eu não dou conta de seguir assim. No final da semana a minha sensação não é de realização, de orgulho e sim de : “meu deus, como estou cansada. Não aguento mais!”

E isso não é em nada saudável. Parece saudável?

Ai me recolho. Pro videogame, pra leitura, enfim… pra qualquer atividade que não precise ficar pensando e me criticando. Exigindo mais. Algum lugar onde eu possa simplesmente ser do jeito que sou.

Não sou só eu, acho que essa crise no nosso sentimento de pertencimento (ser “bom o bastante!”), essa falta de crença no nosso valor está mais pro mal do século do que um problema individual ou das mulheres.

Definimos o nosso valor pelo que temos, de material, de habilidades, quão produtivos somos, quão próximas do padrão de beleza estamos. Sempre seguindo esse ideal invisível, essa comparação com sabe-se lá o que ou quem.

Você sabe da onde vem a sua exigência?

Talvez seja medo de que se não formos bons o suficiente, não seremos merecedores de amor, de alegria, de felicidade.

Medo das coisas caírem na nossa cabeça. Do mundo desabar se eu parar.

Talvez seja um complexo de infância que veio da forma que você foi criada.

Bem, motivos não faltam.

Mas essa carência nos move, bem ou mal. Então subimos de novo na rodinha e continuamos a correr. Afinal, é melhor correr que ficar parado certo?

Tenho as minhas dúvidas. Acho que no final das contas estamos correndo de nós mesmos.

A psicologia jungiana chamaria isso de “a sombra”. Essa parte nossa que rejeitamos por não achar digna o suficiente. É onde fica a inveja, os sentimentos negativos, enfim, tudo aquilo que não queremos entrar em contato por achar ‘indigno’, ‘feio’, ‘ruim’.

O problema é que essa sombra se manifesta, o tempo todo, de diversas formas, então de escondida não tem nada. A única forma de parar de correr é aceitar.

ACEITAR que somos imperfeitos e que tudo bem ser assim, que temos defeitos, que pisamos na bola mesmo e tudo bem. Parar de querer seguir essa imagem fantástica de perfeição, de ‘tenho que dar conta do mundo’.

O mundo, sinceramente, vai ter que se dar conta sozinho porque eu vou mais é cuidar de mim.

E você, também cansou?

 

 

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2 ideias sobre “Você é suficiente

  1. Bárbara

    Nossa, me identifiquei muito com esse texto! Sempre que cumpro algo, alçanco algo q eu queria, tem uma vozinha me sabotando, me dizendo que não tá bom. Exatamente como descrito no texto.
    É reconfortante (e ao mesmo tempo não é) saber que tem tantas outras pessoas passando pelo mesmo. Mas vejo também como uma forma de desacelerar, que tem alguém(ns) que entendem perfeitamente.
    Aos poucos estou me aceitando mais, aceitando minhas falhas, meus erros e personalidade. Tentando melhorar o que posso e o que não posso, suavizar.
    Mas é quase como tentar atingir a perfeição. E não é isso que quero. Quero mesmo é não pensar tanto no “mais” ou “menos”. É suficiente;

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