A vida perfeita?

O texto a seguir foi escrito pela Thaiana Vaz, psicóloga parceira do NSE, autora do Blog “Mulheres que se Transformam“:

A vida perfeita é inatingível. Ela é dura, rígida.

Se você examinar o modelo de perfeição da nossa sociedade brasileira, chegaremos invariavelmente a figura de uma blogueira fitness, modelo (alou Victoria’s Secret) ou atriz de uns 20 e poucos anos (talvez 30), jovem ou com aparência jovem, com carreira estabelecida, provavelmente tem filhos ou filho, magra, branca, alta, com o casamento perfeito ou com o namorado “perfeito” que invariavelmente também segue essas regras.
Cansou? Eu também.

Essa é a imagem que nos mostram e essa é a imagem que compramos de “perfeição”, algo que antigamente só era reservado as divindades da mitologia ou a Deus.
Aliás, eu diria que a nossa nova figura mitológica é a mulher perfeita.

Ela é tudo mas não é demais, ela é caseira mas também não é aproveitadora, ela tem marido mas não vive em função dele, mas também não pode deixar o homem de lado onde já se viu mulher que deixa o homem de lado? Ela tem filhos ou filho mas também não pode ter muitos afinal, onde já se viu mulher com penca de filho? É irresponsável com certeza!  Trabalha mas também fica em casa mas também se cuida mas não cuida demais…..

Loucura moderna.

Imagino que nesse ponto podem até me acusar de estar sendo exagerada. Será que estou mesmo?

(A mulher moderna…)

Vou começar a enfileirar todas as revistas femininas lotadas de photoshop que eu conseguir encontrar, hein?

Mas okay, digamos que eu esteja sendo exagerada. Eu quero que você pense então em alguém, pode ser uma atriz ou uma mulher conhecida, que você considere perfeita ou o mais próximo possível disso.

Provavelmente ela é parecida com a imagem que eu descrevi no começo do texto de alguma forma, não é?

Agora te pergunto, quem consegue ser isso tudo ao mesmo tempo? Só uma criatura mitológica mesmo.

Vamos de novo fazer um exercício, pra não me chamarem de exagerada. Vamos dizer então que seja possível. Vamos lá, só por pura diversão!

Repita comigo: É possível ser essa mulher perfeita modelo-victoria’s-secret-atriz-da-novela-da-globo.

Te pergunto: durante quanto tempo?

Isso mesmo, tempo.

Mesmo se você acredita fielmente que você pode conseguir ser o mais próximo possível desse padrão, mesmo que você tenha definido isso como meta de vida….quanto tempo você consegue suportar a perfeição?

Digo mais, agora voltando pra realidade e saindo do reino dos pôneis mágicos.

(Ó quem não sofre nessa vida…)

Você acredita mesmo que alguém possa ser todas essas coisas? 

Você conhece alguém assim? Ou você acha que conhece?

Se você conhece, você acha que essa pessoa consegue ser perfeita o tempo todo?

Uma mãe pode se achar a melhor mãe do mundo o tempo todo?

Uma mulher com auto estima maravilhosa não vai ter dias ruins?

Essa atriz exemplo do começo do texto não pode sofrer um acidente, uma doença, engordar, envelhecer, mudar?

Não somos todos falíveis e com isso não pisamos eventualmente na bola? Mesmo que seja só na nossa cabeça?

Não podemos sofrer, ficar tristes, ser traídos, trair, chorar?

Não podemos entrar em depressão com as cobranças excessivas?

Não somos afinal, somente humanos e com isso, limitados?

Agora se pergunte, há espaço pra qualquer uma dessas características no perfeito?
Não. É claro que não.

 O perfeito é… sorridente, limpo, quase hospitalar de tão higiênico, sem sofrimento, sem dor, só alegria. Ele é certamente branco (o nosso padrão é eurocêntrico e taí pra quem quiser enxergar) e magro.

O perfeito é… Gisele. Filhos lindos, marido lindo, corpo “lindo”, multimilionária, casa perfeita. Cheguei perto da sua noção de perfeito? (Alguém mais cresceu brincando com Barbie aqui?)

Quando eu vejo pessoas correndo atrás da perfeição eu penso: okay, digamos que seja possível. É possível sim ter essa vida perfeita. A pergunta é durante quanto tempo?
Perfeito é uma imagem, como a que eu descrevi no começo do texto. Ela é um recorte, sendo assim ela é estática. Não é como um filme onde há movimento. É um pedaço recortado de tempo.

Vou exemplificar!

Digamos alguém que tenha como ideal de perfeito ser magra e ter um corpo determinado. Para algumas pessoas é possível perder 10kg com esforço e atingir um corpo “sarado” (algumas, não todas, arrisco dizer que nem pra maioria isso é possível).  Okay. Digamos que você consiga. Você chegua na sua meta ou o mais próximo possível dela.

E isso vai durar por quanto tempo?

Envelhecemos, nosso corpo muda, adoecemos… e isso tudo nos transforma de um jeito ou de outro. Então sim, podemos ter um vida que julgamos perfeita. Podemos ‘chegar’ lá. Mas e aí? Permanecer sem mudar, perfeito é algo que simplesmente não cabe a nós humanos. Talvez a Deus, mas não a nós.

Somos instigados a querer a vida perfeita, aquela da novela ou da capa de revista. Mas o engraçado é que a foto nada mais é que um registro imóvel de um dado momento da vida de alguém. Se pegarmos uma modelo, a Gisele Bundchen, por exemplo que é muito famosa… se tirarmos uma foto dela por ano durante 50 anos, alguém realmente acha que ela vai continuar do mesmo jeito pra sempre? Impossível não é mesmo? Ou se for possível, eu desconheço.

Ela vai envelhecer. Ela vai mudar. A carreira das modelos não costuma durar muito justamente por isso. Elas começam muito novas, algumas com 12 ou 13 anos e aposentam cedo. É raro ver uma modelo com mais de 30 e poucos anos na ativa.

E nós pobres mortais desejamos essa perfeição da capa. Do estático. Do imutável.
Se você acompanhar uma atriz por muito tempo, você vai ver ela mudar… envelhecer. E aí meu amigo o que acontece é simples. Ela é descartada. Pois o modelo de ‘perfeição’ foi pelos ares.
Ao invés de desejar a vida perfeita, o corpo perfeito… que tal pensar na vida que é boa o suficiente? Que vale a pena ser vivida?

Uma bem mais real, com desafios, problemas, imperfeições… essa sim, uma vida com a qual podemos nos relacionar pois ela é humana.

Iremos falhar, iremos cair, iremos adoecer.

Isso faz parte da nossa existência enquanto humanos. O desejo pelo perfeito traz frustração. Muita. Pois por mais que a gente corra atrás, ele corre mais rápido. E o tempo vai passando.

Você quer ser perfeita ou humana?

Links para dar uma lida e refletir:

http://cidadeverde.com/noticias/130499/na-vida-real-barbie-nao-poderia-andar-ou-sustentar-a-cabeca

http://www.labcriativo.com.br/a-vida-perfeita-de-barbie-por-dina-goldstein/

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/04/140421_revista_chile_photoshop_rb

 

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