“Perdoar não basta.”

Olá gente!

Não só de leitoras vive o NSE, sabiam? O depoimento de hoje foi enviado por um rapaz chamado João (preferiu se identificar com esse nome). Ele escreveu uma carta muito bonita (endereçada a ele mesmo), e eu perguntei se ele permitia a publicação.

Permissão concedida 🙂

Segue o texto:

Enquanto eu tentava mais uma vez achar a origem do meu desconforto, acabei esbarrando em uma conclusão. Claro, não é a solução definitiva, mas acho que identifiquei uma das causas, ou “triggers”(me perdoem a hipocondria, meus caros reais portadores da síndrome do estresse pós traumático).

*ALERTA DE CLICHÊS*

Eu não te odeio mais. Já faz anos desde a ultima vez em que fiquei deitado, emburrado, enumerando os seus defeitos. Eu nunca fiquei olhando para você pelado, reparando no que eu não gosto em você. Eu já não te odeio. Você nunca fez nada de errado, ou pelo menos não em sã consciência. Então por que eu preciso te perdoar?

“Perdoar” é uma palavra engraçada… às vezes ela não depende de ofensas verdadeiramente perpetradas. Às vezes elas estão apenas na mente do acusador, da suposta vítima.

Imagine então que o acusador se deu conta disso e quer esquecer tudo. Quer deixar a dor para trás. A solução é deixar de pensar nas coisas ruins que ele imaginou que o suposto culpado havia cometido.

Okay, mas como você chama esse ato de esquecimento? Perdão? Perdão pressupõe culpa, mas se não houve culpa, então não há necessidade de perdão. Bem, pelo menos não para o perpetrador. Mas o acusador, a vítima do próprio engano, ainda precisa de um rito de passagem.

Perdoar uma pessoa por um pecado que ela nunca cometeu… como isso se chama? Por conveniência, vamos chamar isso de perdão, mesmo. Por outro lado, talvez agora quem deva mesmo pedir perdão seja o acuador. Talvez ele enfim se sinta melhor assim. Em paz.

Então tudo bem. Eu te perdoo. Você me perdoa? Tudo bem, vou te dar um tempo.

Como eu ia dizendo, eu não te odeio, às vezes eu acho que eu nunca te odiei de verdade, apesar de todo mundo dizer o contrário. Eu não te odeio ativamente, pelo menos. Você é como uma folha de alface. Não te detesto, você não tem um gosto ruim, mas a sua mera existência ali me incomoda. Ainda to tentando encontrar a latinha de azeite. Eu não te odeio, mas enquanto eu não aprender a comer cada pedacinho de você aproveitando cada mastigada eu não vou me sentir bem. O que eu deveria ver em você eu vejo no estrogonofe no prato do vizinho. Mas eu vou atrás e descubro que ele não tem champignon e nem tomate, nem nada. É só uma mistura de galinha velha com creme de leite.

O brilho que eu deveria ver em você, eu vejo num terceiro, e quando eu chego perto dele percebo que é uma miragem. A dor que isso causa é desconcertante. Tá na hora de te dar uma polida. Eu parei de te jogar poeira e fechei a porta da rua, mas esqueci de passar o espanador. Não te odeio mais, no entanto, eu te deixei ali, largado, às moscas. Eu amo outra pessoa, quando eu deveria amar a você primeiro.

Quando me disseram que eu deveria te valorizar eu fiquei incomodado, porque, afinal, eu não te desvalorizo. Eu não quero que alguém me compreenda, mas quando uma pessoa sai do caminho dela justamente para me descompreender ativamente me incomodo muito.

O problema não é que alguém não queira fazer o minimo de esforço para te compreender antes de julgar. O problema é quando essa pessoa faz um esforço tremendo, te avalia de cima a baixo, e acha que te compreendeu. É fácil dizer “foda-se” a elas, mas isso é meio doloroso quando elas genuinamente querem te ajudar, ainda que estejam fazendo justamente the opposite.

Enfim, eu não sei se era isso que eles queriam me dizer, mas eu cheguei à conclusão de que eu não devo só não te odiar, eu também devo te amar. Devo te amar perdidamente se quero que esse sino maldito pare de vibrar.

Tenho que parar de dedicar a ele a lealdade e o sentimento que deveria ser direcionado a você. É ele quem não sabe o que está perdendo. Problema dele. Já eu, acho que começo a notar o que estou perdendo. Diferente dele, eu tenho certeza de que você iria valorizar esse presente e saber como agir com reciprocidade.

“Reciprocidade”… palavrinha que ando procurando debaixo de todas as pedras que vejo pelo caminho. Com você talvez eu a encontre, por que você é maravilhoso, e admitir isso não é narcisismo. É simples bom-senso.

João.

 

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