Precisar ser bonita e querer ser bonita: tem diferença?

O texto de hoje é da Thaiana Vaz Cutini, psicóloga parceira do NSE e autora do Blog “Mulheres que SeTransformam“:

Já falei muito sobre as pressões estéticas que as mulheres sofrem nesse país. Sim, sabemos.
Cansamos de saber. Eu acho, pelo menos, que estamos todas bem cientes disso. Pressionadas
pra sermos magras mas não muito porque mulher “tem que carne pra homem pegar” (aff…o
machismo dessa frase me dói), cabelo liso, altas (é baixinha de natureza? Use salto, o tempo
todo, pra dormir até *ironia modo on), de preferência bronzeadas tipo as Angels da Victoria’s
Secret. O padrão é eurocêntrico e inatingível por pelo menos 98% da população mundial por
uma coisa chamada genética, rotina, vontade, a vida e tudo mais. Simples assim. Ou não tão
simples assim.Existem milhões de corpos diferentes e isso não tem nada a ver com peso.
Gordo e magro é um padrão simplista pra analisar algo muito mais complexo que é a diversidade de corpos humanos e principalmente, do corpo feminino.

(É tudo tão natural…)

Ufa, grande resumo que fiz até agora.

Pra que falar disso pela 10000ª vez? Bem, agora que entendemos que sim, somos criadas como se for bonita fosse uma incumbência divina fica fácil entender porque queremos ser bonitas.

E por bonitas, entenda: “dentro do padrão estipulado”. A crueldade da coisa é que “beleza” ou padrão são a nova pedra filosofal (lembrou de Harry Potter né?) ou o cálice sagrado. Ser bonita foi associado com ser amada, ser bem humorada, ser feliz, ter um bom emprego, um bom relacionamento, ser rica… enfim, só coisas boas. Já que é assim, quem não quer tudo isso?

Eu não conheço ninguém que não queira pelo menos uma dessas coisas. E se pra ter isso precisamos ser bonitas ou seja: magras, altas, com cabelo liso, etc etc etc, então é claro que vamos fazer o possível pra fazer parte desse seleto grupo de 2% da população mundial.

(Segundo Colbie Caillat, “você não precisa tentar“… mas nós TENTAMOS)

Mas se você está me acompanhando até aqui já deve ter entendido como isso é impossível.

Primeiro de tudo, nosso corpo tem limites. Eu tenho 1,60m. Essa é minha altura. Eu não tenho o que fazer quanto a isso. Posso usar saltos, sim, claro. Mas a partir do momento que os tirar eu volto a ter 1,60m. Alias: eu nunca deixei.

Eu posso alisar o cabelo, deixar crescer, fazer megahair… enfim. Tentar me aproximar o máximo possível do padrão mas isso nunca vai acontecer. Não vai. Porque ele é feito pra ser inatingível. Essa é a crueldade máxima número 2.

A indústria da beleza lucra com essa nossa busca desenfreada. Gastamos com roupas, cosméticos, cirurgias, etc etc… e enquanto estivermos correndo atrás disso, os outros enriquecem. Legal né? SQN.

(“Inútil” – enquanto você sofre, tem muita gente ganhando dinheiro)

Eu não estou aqui pra julgar de forma alguma (nem acho que é esse o caminho) quem quer ser bonita ou quem faz todas essas coisas que eu citei. Como eu disse antes, a pressão é tão grande que cedemos, é claro.

Você pode até me questionar se autocuidado e vaidade não é algo positivo e eu vou te dizer:

SIMMMMMMM! Mil vezes sim!

Desde que seja equilibrado e feito de forma realista. Se a sua busca por ser bonita está te fazendo mal, financeiramente, emocionalmente, psicologicamente ou socialmente, então como isso é algo positivo pra você? Vide a situação das eternas dietas. Se resolvesse alguma coisa então provavelmente não existiriam pessoas acima do peso. Se perder peso fosse tão simples assim, seríamos todos (ou pelo menos a grande maioria que deseja ser) magros…não é?

Como eu disse: nosso corpo tem limites.

O fundamental é entender se você quer ser bonita ou se você PRECISA.

Parece a mesma coisa? Mas não é. Existe uma diferença fundamental aí. “Precisar ser bonita” quer dizer que toda sua felicidade está colocada em algo externo e inatingível. Só frustração pode vir disso. Você fica sempre no “quando eu for magra, farei tal coisa….

“Querer” invoca uma ideia de “tudo bem se eu não for”. Tudo bem se eu não for bonita ou não estiver bonita hoje. Eu vou continuar cuidando de mim e tendo a minha vaidade porque isso me faz bem.

A diferença é sutil como: “liberdade” e “escravidão”.

Claro que muitos dirão que essa ‘liberdade’ é muito ilusória e discutível. Eu concordo e dá para entrar em um longo debate mas meu intuito aqui não é esse. É simplesmente propor uma reflexão:

Você precisa ser bonita, ou é algo que você quer mas que não comanda a sua vida?

Até a próxima ;D

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5 ideias sobre “Precisar ser bonita e querer ser bonita: tem diferença?

  1. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Sandra!

    Se você parar para pensar com objetividade, o discurso que fez você se revoltar com o seu corpo é muito mentiroso. Você acredita que para sermos aceitas, respeitadas, termos boa colocação no mercado de trabalho ou mesmo sermos felizes no papel de mulheres dentro da sociedade, bastaria que inúmeras mulheres que estão deprimidas e infelizes perdessem 10, 20 ou 30Kg? Será tão simples? Uma mulher pode, sim, se sentir mais aceita e atraente diante da cultura se emagrecer significativamente… Mas faz isso abrindo mão de quantos prazeres e autenticidade? A cultura recompensa aqueles que se submetem a seus padrões, de fato. Mas o custo é o sacrifício da natureza feminina. A nossa sociedade NÃO TOLERA a manifestação da feminilidade nos corpos: coxas, barriga, seios, quadril… tudo aquilo que causa pavor e faz a mulher desejar anular o próprio corpo. A sociedade sufoca o feminino porque ela é patriarcal. E essa estrutura cultural é tão cruel que: não existe ninguém te combatendo porque você faz isso sozinha, odiando o seu corpo.

    Pensa nisso 🙂

  2. Sandra

    Por mais que eu tente me aceitar, parece que está tudo tão enraizado na mente que não consigo. Sempre me revolto com o meu corpo, minha aparência, situação financeira, etc. Mesmo tendo um filho lindo e um ótimo emprego, nada me faz feliz. Parece que a felicidade seria completa só se pesasse 30kg a menos.

  3. Vitória

    Concordo plenamente. A própria Gloria Steinem mencionou isso em uma entrevista recentemente e eu pensei muito nesse blog. Ela disse que toda essa obsessão com a aparência, incutida nas mulheres a ferro e fogo, não passa de manobra diversionista pra tirar o foco do que REALMENTE importa: a luta por nossos direitos.

  4. Vitória

    Concordo plenamente. A própria Gloria Steinem mencionou isso em uma entrevista recentemente e eu pensei muito nesse blog. Ela disse que toda essa obsessão com a aparência, incutida nas mulheres a ferro e fogo, não passa de manobra diversionista pra tirar o foco do que REALMENTE importa: a luta pelos nossos direitos.

  5. pacamanca

    Muito bom! So’ acho que ficou faltando comentar que essa escravidao da beleza é a nossa terceira jornada de trabalho, depois de trabalhar fora e de cuidar de casa e filhos. Enquanto a gente gasta rios de dinheiro, tempo e energia tentando ficar lindas, nao temos tempo de fazer mais nada – nao temos tempo de refletir, de nos rebelar, de lutar por direitos iguais. O patriarcado nos oprime de muitas maneiras; essa é somente uma delas.

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