Desencarnadas.

Dei uma olhada nas sugestões diárias que recebo dos leitores para discutir aqui no NSE, e esta publicação me chamou a atenção:

CHORAR

(Foi publicada na categoria “saúde”? Não!! “Estilo”!)

É tão icônico. É tão LEGÍTIMO relacionar emagrecimento com sofrimento. E não há nada mais natural do que ver mulher sofrendo.

A notícia é mais uma minúcia científica investigando se _________ (complete aqui) EMAGRECE. Neste caso, chorar.

“Podemos estudar sobre qualquer coisa, mas primeiro verifiquemos se… EMAGRECE.”

A argumentação: chorar em decorrência de fortes emoções libera, nas lágrimas, hormônios relacionados ao estresse… Isso favorece a diminuição dos níveis de cortisol dentro do corpo. E o cortisol é um hormônio que favorece a formação de gordura (uau. Bastante engenhoso…). O estudo até sugere o melhor horário para chorar: entre 19 e 22hs.

(Pode chorar! Mas faça-o com carta branca científica e orientação técnica.)

Mas ATENÇÃO: não vale descascar cebola. O legítimo choro que emagrece é motivado por emoções intensas. Ou seja: vale a pena sofrer. Emagrece.

(Pablo Picasso – “Guernica”, 1937)

Obs: o choro bem poderia ser de felicidade, mas não sejamos ingênuos a ponto de acreditar que meios de comunicação e autoridades científicas queiram ver mulher feliz. Nah.

Tão normal ver notícias como essa!

TUDO vale a pena se a alma não é pequena EMAGRECE!

Mas e sobre essa angústia tão grande para controlar a dimensão de nossas carnes?

Vivemos num mundo dinâmico, de estímulos rápidos, de recompensas ao toque de um botão, do tecnológico em detrimento do orgânico.

Nós controlamos a temperatura de nosso ambiente, a água que chega até nós, a luz que clareia nossas casas, as mensagens instantâneas que transmitimos… Mas a natureza insiste em nos lembrar que ela é incontrolável.

E qual é a demonstração mais assustadora da nossa efemeridade e da nossa impotência diante da vida? R: O corpo que carregamos.

O corpo tem necessidades urgentes, cansa, envelhece, atua sozinho fazendo troça do nosso desejo de controle… E o corpo grita que tem fome.

Corpo retém líquido antes do período menstrual, muda após a gestação, muda novamente após a menopausa… É um invólucro indomável que insiste em reunir um volume que não desejamos.

Nossa sociedade tem profundas raízes no ascetismo e na crença na dualidade entre corpo e mente. E não existe somente a natureza dúbia: existe batalha.

A divisão entre o corpo e a mente, há pelo menos dois mil anos, permeia o pensamento de Platão, atravessa o Gnosticismo, praticamente todas a manifestações de religiosidade até a autossuficiência arrogante de Descartes.

Pensamos, logo existimos. Mas a natureza corpórea insiste em coexistir com o nosso desejo de triunfo da objetividade, da razão e da vontade.

Quadris, coxas, ventre, braços tão profanamente orgânicos nos exasperam!

Diante de tamanha frustração, milhões de mulheres tomam uma decisão radical:

“Nego este corpo. Nego minha fome. Nego minha natureza selvagem. Nego tudo o que não posso dominar: retirar-me-ei do mundo físico.

Gordas demais, magras demais, comendo demais ou comendo de menos… São inúmeras as mulheres absolutamente desunidas das sensações físicas. Desencarnadas, cabeças-sem-corpo… invisíveis.

Há aquelas que comem tão pouco, que são lembradas da existência corpórea através da nítida sensação de fome.

Há aquelas que comem tão demasiado, que são lembradas da existência corpórea através da dolorosa sensação do estufamento.

Castigando o insistente corpo vivo pela ferramenta do excesso ou da escassez… Rompem com si mesmas, suas necessidades e desejos.

O excesso ou a escassez, se fossem condições possíveis de serem vividas plenamente, são rotas de morte. E haverá melhor maneira de vencer o corpo orgânico?

Mas não conseguimos matá-lo.

O apetite torna a surgir, o corpo continua emagrecendo e engordando como se tivesse vida própria. E no apogeu da exaustão, é impossível correr mais uma volta.

Por que eu sinto tanta fome? Por que meu corpo é assim? Por que não controlo meu apetite? Por que meu corpo não permanece do tamanho que eu quero? Por que eu não tenho disciplina?

O paradoxo reside no fato de que se fosse possível sufocar o corpo da maneira que desejamos, morreríamos. Mas seguimos acreditando que lutar contra o indômito é o jeito certo de se viver.

Desencarnadas… jovens, adultas e idosas desesperadas seguem tentando, se frustrando e chorando.

Mas amiga, olhe o lado bom: chorar emagrece.

 

 

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3 ideias sobre “Desencarnadas.

  1. Andreza

    Eu só queria dizer que amo seus textos.
    AMO DEMAIS OS SEUS TEXTOS.
    É um alívio, Paco. É como encontrar um oásis de lucidez nessa loucura que é a internet.
    Por favor, nunca pare de escrever.

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