BORBOLETA? NÃO, OBRIGADA!

O texto a seguir foi enviado por uma leitora que preferiu não se identificar. Ela fez cirurgia bariátrica recentemente, e ao buscar apoio nos grupos de pessoas que passaram pelo mesmo procedimento, encontrou de tudo, menos saúde (mental e física).

A cirurgia bariátrica deve ser feita como ultimo recurso após esgotadas outras tentativas de emagrecimento. Existem critérios específicos para que uma pessoa seja indicada para a cirurgia, mas atualmente, infelizmente, tais critérios não são respeitados. O procedimento foi banalizado.

Não é incomum ouvirmos falar de psicólogos que vendem laudos, pessoas que engordam de propósito só para poder fazer (que saudável, não?) e muito pouco preparo emocional para enfrentar a vida pós-cirurgia. 

Lembrando que realizar alterações drásticas no corpo sem trabalhar a cabeça é um fator de grande sofrimento, e o reganho de peso não é incomum.

Muitos indivíduos sem doenças crônicas arrumam um jeito de fazer a cirurgia com um objetivo único de emagrecer. Após a cirurgia, ficam com anemia, deficiência de nutrientes, diversos problemas de saúde que antes não tinham. Mas entrar na calça 38 é muito mais importante que viver com saúde.

Já me mostraram o mundo obscuro dos bariatricados, o sentimento de “vingança” em relação ao mundo que não os aceitava e a obsessão pela perda de peso.

Precisamos falar sobre a vida após a bariátrica.

Segue texto:

Sou bariatricada desde janeiro de 2016. Não tenho uma gota de arrependimento, apesar de, em alguns aspectos, estar mais abalada do que antes da cirurgia. Foi uma das decisões mais assertivas que já tomei na vida. Minha saúde física melhorou cerca de 50% – e ainda preciso perder bastante peso (60 de um total de 80).

Os aspectos mentais estão sendo abordados na terapia e os dias têm de fato sido mais leves, graças ao aumento da minha mobilidade, diminuição de dores de cabeça, nas costas e nos pés e à estabilização da pressão arterial, além da redução drástica na quantidade de medicamentos de uso contínuo. Entretanto, eu continuei adoecendo. E vou explicar o porquê.

Presumi que parte da busca de informações sobre os tipos de cirurgia, riscos e benefícios seria bem direcionada se eu me juntasse aos pacientes que passaram pelo mesmo que eu pretendia. Afinal, existem aspectos que os profissionais da saúde não vivenciam. Uma coisa é saber quais ferramentas nos auxiliarão a redesenhar um novo estilo de vida e uma relação diferente com os alimentos. Outra é viver o processo.

Estranhar a mudança de paladar, sentir vontade de comer (mesmo satisfeita), vestir as roupas (antes apertadas) esquecidas no guarda-roupa, se acostumar com uma imagem se transformando no espelho – as alegrias e dores dessas mudanças nenhum profissional pode mensurar. A não ser, claro, que tenha passado pelo mesmo.

Mas eu estava enganadíssima. A maioria dos grupos dos quais participei no Facebook – sempre há exceções e é relevante lembrarsão extremamente tóxicos. É perceptível que grande parte das pessoas fazem a cirurgia sem o devido preparo emocional – se com terapia prévia já é foda, imagina o tamanho do estrago sem ela!

A redução de estômago, uma ferramenta excelente que salva milhares de pessoas por ano e promove melhorias gigantescas na qualidade de vida, infelizmente, foi banalizada. Além disso, vivemos em uma sociedade que liga o valor dos indivíduos à imagem. A padrões de beleza irreais. Com isso, as pessoas tendem a internalizar e reproduzir preconceitos – como a gordofobia, por exemplo – com facilidade.

Esperava um ambiente no mínimo acolhedor nos grupos. Porém, me deparei com uma cachoeira de informações equivocadas e posts recheados de falsa motivação, que estimulam a competição, a vigorexia e o exibicionismo a qualquer custo.

5 a menos

(What?)

Muitos se intitulam “borboletas” que saíram do casulo. Afirmam que antes eram lagartas sem graça que rastejavam e mendigavam afeto por aí. Desconsideram tudo o que viveram antes da cirurgia (faculdade, casamento, filhos) e acreditam piamente que “só agora a vida faz sentido”, já que se tornaram “BORBOLINDAS” (até hoje não encontrei palavra mais cafona que essa…)

borbolinda

(Daqui do alto, só observando esse monte de close errado)

Legendas cruéis, moralismo, incompreensão. Gente que malha três horas e meia por dia, mesmo depois de emagrecer. Que visa, acima de tudo, entrar numa calça 34 ou 36 – como se o número do manequim isolado fosse sinônimo de saúde perfeita. Fotos de antes e depois, com a própria pessoa se colocando pra baixo e dizendo o quanto evoluiu depois que emagreceu. Imagens de lingerie cavada, poses ginecológicas.

PS: deixo claro que eu sou uma mulher feminista e não acho que mulheres que usam mais ou menos roupa têm o seu valor diminuído. Fora do ambiente de trabalho, exibo minhas pernas com louvor, aleluia.

O problema é quando a autoestima está tão baixa que a pessoa sente necessidade de ancorar na quase nudez pra receber elogios, e assim se sentir bonita e desejada.

Nunca identifiquei com ideias do tipo:

 “falar de mim é fácil, difícil é vestir 36”

“evite pessoas invejosas, pois elas torcem pra você ficar gorda”

 “de sujeito miserável a miss bariátrico em onze meses”

A coisa vai daí pra pior:

lulu

(O Lulu não tem culpa de nada disso…)
[acho que o correto seria: aceita que DÓI menos]

coelhinho

(E o coelhinho também não)

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(E a vingança impera…)

Alguns grupos promovem concursos de cunho duvidoso: competição pra ver quem emagreceu mais em menos tempo, quem está com menos flacidez (essa é uma consequência líquida e certa do emagrecimento drástico), quem está mais bonito. Um show de horrores. A mesma paranoia do mundo “fit“. O mesmo preconceito sendo reproduzido. A diferença é que as pessoas foram operadas.

A abertura a novas ideias e conceitos é zero. Uma vez, durante uma discussão sobre massa corporal, disse que o IMC isolado não é parâmetro para fazer o diagnóstico do estado de saúde de um paciente. Fui alvejada de todas as formas possíveis. Quando falei que ia pesquisar estudos recentes sobre o tema, quase fui banida. A liberdade de expressão é nula. Você pode se manifestar, desde que não discorde dos moderadores.

Ingênua, acreditei que fosse encontrar pessoas mais empáticas e não reprodutoras de discursos do senso comum, mas como diz o Compadre Washington: “sabe de nada, inocente!”.

Outra coisa que me incomoda é a supervalorização dessa cirurgia. Bariátrica não é pra ficar bonito, muito menos “gostoso”. É pra salvar vidas. Deve ser feita apenas por pacientes com obesidade mórbida e que, preferencialmente, apresentem doenças crônicas e risco iminente de morte. Pra estética existe cirurgia plástica!

barriga zero

(Comofas pra viver sem uma parte do corpo?)

Mas não era só isso que me perturbava. A galera relata uma mudança irreal, que eu não via acontecendo comigo. Dizem:

“emagreci, agora sou feliz!”

“agora me amo!”

“resgatei meu casamento!”

“o terror das novinhas!”

“ê, mundinho, que dá tanta volta… agora todo mundo chega na ex-gordinha!”

“eu tinha depressão e estou curado”
(POR FAVOR, cuidado: emagrecimento não cura depressão clínica. Procure tratamento!)

“autoestima nas alturas!”

… pera lá, né?!

A redução de estômago nos ajuda a emagrecer, é fato. Mas ela não é Jesus pra nos salvar de toda e qualquer merda. É um gás inicial pra gente correr atrás do prejuízo e recuperar a saúde. Só isso. Eu estou mais leve, mas o restante da minha vida continua da mesma forma. Tenho bads dia sim, outro também. Minha família continua chata e conservadora. O trabalho permanece burocrático. E a fatura do cartão não se pagou sozinha.

Demorei para perceber que essa necessidade de autoafirmação é uma projeção do que realmente gostariam de estar vivendo. Mas está longe de ser a realidade dessa galera contadora de vantagens. Só que até ter essa sacada eu sofri muito. Me sentia mal agradecida pela possibilidade e privilégio de melhorar a saúde. Me sabotava. Faltava à academia querendo adiar o emagrecimento, pois pra mim estar magra era sinônimo de me tornar igual a quem reproduz preconceitos.

Sem exagero: 98% dos membros desses grupos agem dessa forma desajustada inclusive ex-militantes do movimento antigordofobia e modelos Plus Size. E isso independe do nível de instrução: de semianalfabetos a profissionais de saúde com doutorado, geral embarca no chorume.

Depois de conversar com três amigos muito conscientes, resolvi ceifar o mal pela raiz: saí de todos os grupos. Inclusive os que menos detestava – havia um ou outro com informações conscientes. Exceções que, no meu mundo ideal, deveria ser a regra.

A verdade é que existe gente bacana e trocas interessantes. Mas é preciso garimpar muito pra extrair algo de útil. A perda de tempo é enorme. As pessoas conscientes estão no meu perfil e podem manter contato a qualquer tempo. Mas o meu prazo de validade nesse ambiente esgotou. E minha sanidade mental está bem mais preservada agora.

PS²: se você fez ou pensa em fazer a cirurgia de redução de estômago, recomendo que você acompanhe a página “BORBOLETA É O CARALHO, PORRA“. O único site que conheço que não reproduz todas essas merdas e preconceitos que estamos cansados de ver.

Ass: Anônima.

A foto da bio é claramente uma ironia, e que preferi não me identificar por motivos de:

– “mas você tá sendo muito extremista”;
– “mas NEM TODO grupo”;
– “mas..”.

 

 

 

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13 ideias sobre “BORBOLETA? NÃO, OBRIGADA!

  1. Kedna Lorrance

    Caracoles!! Expressou muito bem o q vejo. Parabéns a autora. Queria me relacionar mais com pessoas assim. Rs. Entendo o fato de não ter se identificado, mas ah que vontade de bater um papo! Rs. Parabéns.

  2. Claudia Silva

    AMEI ESTE POST. Eu tenho 44 anos, e decidi fazer a cirurgia. Venho tentando emagrecer desde os 10 anos. Ja tinha me conformado em viver acima do peso pois era, ate entao, uma gordinha saudavel(apesar de hipertensa). Mas surgiram outras complicacoes e sinceramente,nao tenho mais energia nem paciencia pra tentar novamente a conta-gotas. entao, vou operar. Mas eu tenho o mesmo problema da leitora que lhe escreveu: Nao me indentifico com a maioria dos grupos, ja sai de varios. E vejo varios comentarios absurdos, gordofobicos, vindo de quem ate meses atras era obeso. A cirurgia vai me trazer alivio para problemas de saude. Mas ja sou bem sucedida, amada, tenho amigos. A cirurgia eh uma ferramenta de emagrecimento e nao salva nem eleva a minha vida a outra patamar. E so quando eu tive essa conviccao aceitei operar, jamais faria apenas pra vestir um numero menor. Por causa dos anos de terapia eu espero realmente que passe melhor pelo processo pos-cirurgico dos primeiros meses/anos. Mas vejo muita gente que operou sem o menor preparo psicologico e que normalmente sao os que engordam depois. Enfim..a cirurgia eh uma decisao muito seria, que deve ter tomada pensando em todos os angulos. E jamais somente por vaidade. Ela pode agregar outros problemas serios de saude, se a pessoa nao se cuidar. Beijos !

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