“Eu seria magra.”

Senti vontade de escrever este texto porque vejo que existem muitos grupos de “emagrecimento” ou “alimentação saudável” nas redes sociais. Dentro desses grupos, há um bando de mulheres se queixando que “não emagrecem“, como se o desejo de emagrecer fosse um indiscutível fato normal da vida e existisse desde que o mundo é mundo.

Os grupos proliferam que nem filhote de coelho. Se formam, enchem de pessoas [mulheres] trocando experiências e “dicas”com um objetivo comum

Mas o DESEJO de emagrecer NUNCA é colocado em discussão. Nunca.

LEGO

(Coisa NORMAL da vida, certo?)

Estava circulando nas redes sociais hoje e vi uma discussão sobre “comer emocional”, ou seja, comer por razões que não sejam fome fisiológica de fato.

Uma das participantes da conversa chamou a minha atenção com a seguinte frase:

“Se conseguisse comer apenas quando tenho fome, eu seria magra. Mas estou sempre 5Kg acima do meu peso.”

Olhei o perfil.

A mulher que escreveu isso NÃO É GORDA. Não é.

Claro, ela não é modelo da Victoria’s Secret, nem nenhuma blogueira fitness. Não parece nenhum tipo de mulher que é promovido pela mídia (e QUEM parece??)… Mas é uma mulher que simplesmente não precisaria estar sofrendo em torno de 5Kg supostamente excedentes.

HATE MY BODY

(“Odeio o meu corpo” – se você já cogitou se mutilar com uma tesoura para extrair a gordura do seu corpo, acredite, você não está sozinha.)

Sobre “quilos supostamente excedentes”:

Suponha que você tenha 65Kg. Não está com nenhum problema de saúde. Não está engordando progressivamente. Na verdade, não está engordando de modo algum! O peso é estável. Não há por que mexer em time que está ganhando, certo?

Mas você CISMA que o “seu peso” deveria ser 60Kg. Por causa de alguma coisa que leu numa revista, algo que te falaram, uma tabela de parâmetros antropométricos ou simplesmente porque pelo simples fato de ser mulher, você “TEM QUE” pesar menos. Sempre.

Então você compra uma briga eterna com estes números!

“Fecha a boca”, bebe litros de chá, segue a sua dieta restrita por três semanas… Atinge o “seu” peso. Fica feliz. Diante da “missão cumprida”, volta a comer como antes… Recupera os 5Kg. Acha ruimcomeça tudo de novo.

 


Pensa um pouco: se o seu corpo insiste em te colocar novamente nos 65Kg, será que ESTE não é o peso que verdadeiramente te pertence?

O “SEU” PESO:

Ocorre quando você come meia maçã de manhã, salada no almoço e ‘shake’ à noite… Ou quando você está vivendo normalmente?

Acreditar que o normal é o atípico é negação pura.

Negação do corpo, negação do apetite, negação da genética, negação da natureza.

Agora voltemos à mulher com 5Kg supostamente excedentes

Não comentei nada, pois é realmente complicado dizer “você não é gorda” a uma mulher profundamente convencida disso. Há anos. E é INFINITAMENTE mais complicado explicar que mesmo que ela FOSSE gorda, isso não é uma imensa vergonha ou uma falha de caráter. Uma condição blasfema que impede todas as possibilidades de ter amor próprio e felicidade.

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(O peso de uma mulher não é uma medida visível de seu autocontrole, beleza ou valor pessoal)

Neste ponto, sinto que preciso parar, explicar e sublinhar que:

Insatisfação corporal” e “Transtorno Dismórfico Corporal” são coisas completamente diferentes!!!!

Não gostar do que você vê no espelho não significa que você é automaticamente portadora de “dismorfia corporal”. Tem muita gente falando isso por aí de maneira banalizada e errônea. Separe as coisas. Não é bem assim.

“Transtorno Dismórfico Corporal”, ou dismorfia, é um problema muito sério. As pessoas portadoras de TDC enxergam uma monstruosidade diante do espelho. Uma deformidade muito distante da realidade. Enxergam desproporções e gritantes assimetrias no próprio corpo. Pessoas com dismorfia normalmente se submetem a cirurgias plásticas e tratamentos estéticos de maneira compulsiva.

(Michael Jackson é um famoso exemplo de TDC. Este transtorno vai muito além da dieta da sopa)

“Se sentir gorda” não é critério diagnóstico suficiente para uma doença rara e grave como o Transtorno Dismórfico Corporal. Até porque “gordura” não é um sentimento. Dê uma olhada NESTA MATÉRIA, entenda mais.

Insatisfação corporal não necessariamente significa que você tem “dismorfia“.

Mas então por que tantas mulheres reclamam que estão gordas?

R: é o nosso REFERENCIAL que está distorcido.

Nossos olhos são bombardeados diariamente com imagens de mulheres MUITO magras*… E a partir disso criamos um referencial de “normalidade” na nossa cabeça… que não corresponde à verdadeira norma.

*não estou sugerindo que as mulheres muito magras sejam feias, “anormais” ou obrigatoriamente doentes.

Lembrando que: NORMA é REPETIÇÃO. Tudo o que é constantemente repetido compõe uma norma.

(Isso é NORMAL, certo?)

Por isso, é normal contemplarmos mulheres bem magras. Mas na realidade, elas são minoria da população.

(novamente: não é errado, nem feio, nem um “mau exemplo” ser muito magra – é um tipo físico. O mau exemplo propriamente dito fica por conta da maneira que a mídia seleciona, retoca e exibe este tipo de corpo – somente UM. Sem espaço para variações/diversidade)

Resumo do mecanismo da insatisfação corporal que afeta inúmeras mulheres:

1) Tenho fixo na cabeça que um corpo NORMAL de mulher é igual ao da Gisele Bündchen.

2) Me comparo com a Gisele Bündchen, constato que eu sou diferente… portanto, não sou normal.

3) Se eu não sou normal, preciso ser “corrigida”

4) A ferramenta que existe para “corrigir” meu corpo é fazer dieta, ou seja, comer menos.

5) Tento comer menos, me atrapalho, acabo comendo por razões emocionais e efeito rebote.

6) Uma vez que estou presa dentro deste ciclo, comento:

“Se eu conseguisse comer APENAS quando tenho fome…eu seria magra.Mas estou sempre acima DO MEU PESO”

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Então finalizo com algumas perguntas:

– Você conhece a verdadeira dimensão da sua fome, ou simplesmente ACHA que “deveria sentir menos”?

– Sente medo, vergonha e culpa diante da manifestação do apetite? Como se fosse algo que devesse “sumir de você”?

– Acredita que é possível DOMAR o corpo, sua natureza e dimensões? Ou seja, você só não é “magra” por “incapacidade de controlar” os seus impulsos?

– O que você quer dizer com “meu peso”? Um peso que você idealizou, cismou, foi calculado por meio de estatística? O menor peso possível? O menor peso que você já teve na vida?

– Por que o “seu peso” deve ser sempre um número menor?

– Por que PESO (o referencial numérico) significa tanto para você?

E se você deixasse o corpo ser corpo, a fome ser fome… E viver em paz fosse permitido?

Você já dançou com alguém? Alguma vez já notou que quando você tenta “ajudar” a pessoa que está conduzindo, a dança vira briga?

Ouça a música.

Deixe a vida conduzir.

 

 

 

 

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2 ideias sobre ““Eu seria magra.”

  1. Mix Bella

    Perfeito! Sentir a música é o que mais me importa!!! Ser feliz como estou e não como eu devia ser!!! Obrigada por tantas palavras coerentes em meio à tanta incoerência …😉

  2. unhasetudo

    E, todas as minhas respostas as perguntas q vc fez ali no fim do texto foram “sim”… =(
    Não sei dizer onde me encaixo, só sei que não é nem um tioc fácil conviver com isso.. antes fossem apenas 5kgs.. queria me livrar de 20…

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