“End of the Trail”

A Ediane Tiago escreveu um relato tão lindo, eu achei tão legal! Sei que muitas pessoas irão se identificar com a história que ela narrou, portanto pedi permissão para publicar.

Segue o texto:

Em um relacionamento sério com o meu corpo.

Hoje entendo como o meu problema de autoimagem sempre afetou a minha relação com a comida. Até os dez anos, fui uma criança de constituição física normal, não me lembro de ter compulsões ou de exagerar. Nunca dei trabalho para comer, comia de tudo. Não me preocupava. Nem sabia quanto pesava… toda a pressão “estética” era algo distante. Era feliz e não me comparava com ninguém.

Aí dei uma leve engordada – pré-estirão – e tudo ficou confuso. Estava virando mocinha e precisava me cuidar. Emagreci com o estirão. Mas ficou na cabeça o pânico de ficar “maior”, “gorda”, “feia”. Porque foi isso o que eu aprendi: gordura não admite beleza.(Infelizmente, passei boa parte da minha vida acreditando nisso). Na época já nadava e fui crescendo com membros fortes e maiores do que as meninas da minha idade. Aos 13, eu já tinha um corpão e me assustei. Muito.

Eu era a tal da “falsa magra”. Eu não sei o que é pior para uma adolescente: ser magrela, ser gorda ou ser “falsa magra”. Porque, na boa, você é o quê? Alguém que é magra dependendo do dia? Da roupa? “Ah! Você não é magra, nem é gorda!”, sempre ouvi isso. Só agora percebo que é um tipo físico. Legítimo, nada de falso. Sou curvilínea e nenhuma dieta do mundo pode me transformar em algo que não sou.

O problema maior da “falsa magra” é a objetificação. Porque os marmanjos viam aquela menina (eu era uma menina!) como objeto sexual. Conheci muito cedo o assédio para valer. Sempre de homens muito mais velhos, o que me tornou em uma menina tímida e envergonhada com o corpo.

Com 14 anos, por imaturidade, parei de praticar o esporte que amo (natação) para não ficar com as costas muito largas. Mulher tinha de ser delicada. Alguém com ombros largos e braços fortes não podia ser feminina. Desisti de ser atleta. Esse foi o primeiro grande sacrifício que fiz para agradar aos outros. Esquecendo de mim mesma. Também parecia algo normal. Afinal, era só um esporte, só uma fonte de prazer para o meu corpo, né?

É claro que foi só o início. Fisicamente forte, nunca fui magra o suficiente. Com 15 anos, apesar de aparência e IMC normais, eu me achava um elefante. Usava manequim 40/42, enquanto as meninas da minha idade estavam, no máximo, no 38. E, é claro, começou a era das super modelos magérrimas. E eu estava ali, encurralada por uma série de números que não me cabiam. Alta (1,75m) não entrava em um 38, a balança não cedia para os 55 quilos ideais para mim – segundo as revistas de moda. Par ser modelo, só se eu alcançasse os 48 kg.

Como eu gostaria de ter alguém que me dissesse: Sai dessa! Esse não é o seu padrão. Esses números não dizem nada sobre o seu corpo. São só números. Vai ser linda e atlética.

Cresci na geração “pós liberação sexual”. Faço 40 este ano. Todo mundo perdido, sem saber o que fazer com o corpo. Mas uma coisa não mudou: obrigação da mulher de ser um ornamento, de agradar os homens.

E assim, tentando agradar os outros, experimentei todas as dietas possíveis, todos os truques e simpatias. Hora para emagrecer 2 ou 3 kg, outras para secar 10 kgs. Mesmo quando estava seca, nunca me percebi magra. Sempre faltava peso para perder. Só hoje percebo a confusão na qual meti o meu metabolismo e meu corpo. E sou muito grata por nunca ter ficado doente.

Hoje, olhando essa foto tirada há pouco mais de um mês, percebi um significado desse End of the Trail (fim da trilha). E é isso, é o fim dessa trilha que segui, de me maltratar, fazer dietas malucas, tentar agradar os outros, me olhar de forma crítica no espelho todos os dias, odiar minha imagem e desvalorizar o meu corpo.

Agora, em um relacionamento sério com o meu corpo, quero me entregar à paixão e às descobertas que ele pode me trazer. Primeiro passo: esquecer, de vez, todos os números que não me cabem.

Não quero mais me olhar pensando que seria mais bonita com 10/15 quilos a menos. Quero estar saudável, ter uma relação boa com a comida e deixar meu corpo seguir a trilha dele. Isso é aceitação. Um caminho novo e muito diferente.

 

Ediane

 

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