Eu tenho um problema com a balança.

O título deste texto é uma frase clássica na boca do povo e nas reportagens sensacionalistas sobre emagrecimento, que SEMPRE começam com “Fulana sempre teve um problema com a balança…”

Olha…eu também tenho um problema com a balança. Mas o problema não está em mim. Está na balança.

Balança, para mim, é um aparelho totalmente enfadonho.

Eu não encorajo ninguém a subir na balança. Eu tenho MUITAS ressalvas em relação ao uso da balança e algumas consequências que ele provoca.

Tenho três problemas com a balança, para ser mais específica. Além de um fator óbvio. São os seguintes:

O fator óbvio

Quando eu recebo um paciente, e ele está gordo, eu NÃO PRECISO DE UMA BALANÇA para constatar este fato: eu posso observar perfeitamente que a pessoa está gorda, e a pessoa já foi suficientemente avisada de que ela está gorda. A pessoa SABE que está gorda e não precisamos de uma balança para confirmar esse fato.

(Não é uma manobra DIFÍCIL verificar se a pessoa diante de você é GORDA)

Passado o fator óbvio, vamos aos demais fatores:

O fator essa-informação-não-significa-nada

A balança reflete a relação do seu corpo com a gravidade no planeta. E isso resulta num número. As pessoas hiper-valorizam essa porcaria de número, mas ele não diz nada sobre coisa nenhuma.

Se eu coloco uma pessoa em cima da balança, encontrarei um número que não diz quanto de músculo e gordura há no corpo. Nem colesterol, nem glicemia, nem NADA.

Pessoas podem fazer uma dieta diminuindo a quantidade de alimentos e restringindo carboidratos (a abordagem mais típica). Quando o nosso corpo fica exposto a um cenário onde está entrando menos comida, ele vai poupar energia e começar a aproveitar energia disponível no corpo, degradando tecidos. Principalmente, o muscular. O corpo “come” o tecido muscular, e como o tecido muscular é repleto de água, a quebra das células musculares para fornecer energia para o corpo a partir dos aminoácidos oriundos da ruptura das células musculares provoca grande perda de água.

(POR QUE isso deixa as pessoas tão FELIZES?)

Resultado: a pessoa sobre na balança, vê o número descer (porque perdeu músculo e água…), fica feliz e mal sabe que essa felicidade está relacionada com o fato de o corpo ter “se comido” num curioso processo de canibalismo interno.

(Quando você faz uma dieta “daquelas” de diminuir um monte de tipos alimentos, e comer volumes muito pequenos – você emagrece por causa disso. Seu corpo come ele mesmo (!) uma vez que você não está fornecendo comida para ele!)

Perder peso como fato isolado NÃO É sinal de melhoras na saúde. Tem a ver com ficar magro. Apenas.

Você já viu revista na banca publicar “diminua o seu colesterol em 2 meses?”“Melhore a resistência à insulina em 3 meses”?

Nah… o negócio não se trata de saúde.

Outra:

o peso FLUTUA.

Muitas pessoas sobem na balança na segunda-feira, desesperam e pensam que um (discreto) aumento de peso aconteceu em decorrência da sobremesa que comeu no domingo.

*Newsflash*: NINGUÉM engorda porque comeu sobremesa no domingo.

Nosso corpo absolutamente não é constante. Muito menos nosso peso. Podemos perder mais água em um dia de calor, ou em momentos que você se esforçou mais, o peso pode flutuar bastante ao longo dos dias! Em dias mais frios, fazemos menos atividades, perdemos menos água… Parecemos mais “pesados”. Há a questão da evacuação e urina, e o próprio fato de acabarmos de ter comido.

 

Ou seja: a balança não transmite absolutamente nenhum dado objetivo sobre a saúde das pessoas. É apenas…APENAS…um número.

O fator poder do número

É muito complicado fixar em números. Enfiar um peso “X” na cabeça e achar que TEMOS QUE nos manter nele (por motivos de: não sei)

Mulheres encasquetam com 55Kg, por exemplo e NÃO TOLERAM uma flutuação para 56Kg. Desesperam.

Pensemos.

O que acontece quando nós engordamos 1Kg?

a) o chão abre e te engole numa terrível piscina de magma;
b) você cai num buraco sem fim e se perde para sempre no País das Maravilhas;
c) o monstro do armário sai do armário e te come;
d) te obrigam a assistir maratona de “Os Dez Mandamentos” da TV Record.

(NÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!! D=) 

R: não acontece absolutamente NADA se você engordar 1, 2, 3Kg.

Mas o problema de fixar a mente em NÚMEROS é que nós damos poder para a balança. Poder para arruinar dias, meses ou a nossa vida inteira.

Presta atenção: se você condicionar o seu bem estar, tranquilidade e autoestima a um número, isso é uma falsa construção de valor pessoal.

Se você se afastar desse número por alguma razão (luto, depressão, transtorno alimentar, mudar de cidade, casar, engravidar, menopausa…) a sua autoestima PULVERIZA junto com o afastamento desse número.

“Estar bem” é um fato que não pode depender do que o visor da balança te mostra.

Aliás, baixar peso, como eu falei anteriormente, pode significar que você está carcomendo seus músculos e: perdendo força e água. E o próprio fato ficar feliz ao ver esse número diminuir é uma bobagem. Não significa nada a não ser a máxima lipofóbica de que perder peso é SEMPRE um fato maravilhoso. Mesmo que isso envolva doenças graves, intoxicação alimentar e câncer.

Perder peso não é sempre uma coisa boa!

Resumo: não deixe uma porcaria de balança de pedaço inútil de plástico te dar permissão para ser feliz. Ou determinar que você seja infeliz!

O fator “já que”

A balança provoca nas pessoas um fenômeno curioso que eu batizei de “já que”. Como isso funciona? Pode ocorrer de duas maneiras:

1) Após um período de dieta, a pessoa sobre na balança e percebe que o resultado foi “positivo”, ou seja: ela diminuiu o peso. Qual é a reação diante deste fato?

R: “JÁ QUE eu fui tão disciplinada, fiz tudo certinho, não pus um dedo fora da linha e consegui emagrecer, eu vou comer tudo que eu quiser sem limites.”

E o resultado disso é uma hiper-ingestão louca de alimentos. Após esse momento de alforria, é muito difícil  (praticamente impossível) retornar ao nível de restrição que estava sendo mantido…Então R.I.P. dieta.

2) Após um período de dieta, a pessoa sobre na balança e percebe que o resultado foi “negativo”, ou seja: ela aumentou ou não perdeu peso. Qual é a reação diante deste fato?

R: “JÁ QUE eu me esforcei tanto, segui as orientações direitinho e estou chateada porque nada deu certo, eu vou comer tudo que eu quiser.”

E o resultado disso é uma hiper-ingestão louca de alimentos.

(OU SEJA: A balança te leva a comer mais, seja o resultado da sua dieta “bom” ou “ruim”)

Estes são os meus problemas com a balança. Eu não vejo absolutamente NENHUMA necessidade desse aparelho na vida das pessoas. Causa ansiedade, culpa, frustração, angústia, medo de sair do “peso bom” e ainda por cima, delegamos a ela poder determinar nosso valor.

Atualmente acredita-se que valor pessoal e peso são inversamente proporcionais. Quando mais o peso diminui, mais o valor pessoal aumenta.

Besteira. Isso não é verdade! Peso é um número. Somente um número.

(Isto não é o ser valor)

Quer fazer as pazes com o alimento e com o seu corpo?

– Largue mão desses números!!!! Esquece que isso existe. Não suba em balanças. E se você tem uma em casa, aposente e jogue fora!

(Também tem a opção quebrar com uma marreta. Acho mais legal)

BALANÇAS nunca ajudaram na melhora da saúde física e emocional de ninguém. Muito pelo contrário!!

E é por isso que eu tenho UM PROBLEMA com a balança.

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2 ideias sobre “Eu tenho um problema com a balança.

  1. Carol Rocha

    Eu me livrei da minha há alguns meses. Foi libertador. Ainda tem a da academia (com a qual não posso sumir), que eu fico me controlando pra não subir (tenho que me trabalhar; é só um número, mas ainda afeta minha autoestima).

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