Prazeres instantâneos, dores latentes.

O depoimento a seguir foi enviado por uma leitora muito querida. Ela está em processo de descoberta e ressignificando muitas coisas em relação a seu corpo, crenças e valores.

Eu quis publicar, porque creio que muitas pessoas podem se identificar com essa história:

“Estou há dias pensando no que escrever. Talvez tenha tido medo dos sentimentos que poderiam surgir, no entanto esses sentimentos vieram a tona só no pensar em escrever.

Eu já sabia que a forma que tenho de me conectar comigo mesma é a escrita. Ela tornou minha depressão mais suportável. E agora, depois de um ano de alta percebo que minha necessidade de escrever não foi embora.

Não preciso fazer uma letra bonita ou me atentar ao uso correto do português, o objetivo aqui é despejar sentimentos no papel tentando entende-los

Nos últimos 3 dias vivi muito intensamente sentimentos que estavam guardados, sem tocá-los.

Pensei na minha inutilidade, mediocridade e no meu ódio e desprezo por mim mesma, tanto em quesitos físicos como de personalidade.

Na minha infância passei por traumas de abandono ( quando esperava muito tempo para ser buscada na escola), percebi que não era tão legal quando na quinta série não tinha amigos e era hostilizada por nunca ter beijado alguém, me mostraram que eu era ruim no vôlei e me fizeram desistir.

Mais tarde, percebi que não era tão bonita quanto eu imaginava, me senti gorda e me autodestruí. Não era uma boa dançarina, nem era a mais elástica, não era muito boa nos esportes.

A última coisa que me foi tirado foi minha inteligência, me senti burra pela primeira vez na vida.

Minha luz foi enfraquecendo desde os 10 anos e quase apagou.

Perdi mais de 10 anos da vida tentando ser quem não sou. Porém agora, tentando me resgatar sei que eu sempre fui a melhor, em todas as coisas.

Tumblr Art: A Comic About Being Content with Loneliness

(Fiz as pazes com meu vazio. Tomamos café.)

Não fui abandonada, sou muito legal, posso ser excelente no vôlei, sou a pessoa mais bonita que habita a Terra e a mais inteligentes de todos os inteligentes.

Eu sou meu corpo, me aproximando dele posso tudo que eu quiser.

Minha visão, audição, tato, paladar e olfato me permitem ser quem sou, pois através deles construí minha personalidade e minha vida.

Meu corpo é o mais lindo, pelo simples fato de ser meu, pois temos a relação mais íntima que pode haver. Relação de corpo e alma.

Pensei em escrever quais eram as coisas que mais gostava em mim e as que menos gostava. Só que depois desse insight eu percebi que não há como me dividir, todas as partes do meu corpo e da minha alma são completamente intrínsecos um ao outro, não há como amar apenas umas partes se você se ama verdadeiramente.

Esse sentimento me consumiu absurdamente, de forma caótica e construtiva. Parece que todas as coisas que estavam bagunçadas dentro de mim começam a se organizar magicamente e assim eu consigo me encontrar e saber quem eu sou verdadeiramente.

Eu não preciso mais estar amarrada a prazeres instantâneos ou a dores latentes, pois tudo o que faz parte de mim é completamente suficiente.”

T.M.

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Uma ideia sobre “Prazeres instantâneos, dores latentes.

  1. Maria Consuelo Del Bel

    Foi emocionante ler!
    Eh possível sentir toda a força, autoconhecimento e esperteza dessa pessoa no texto.
    Força pra conseguir ter intimidade com ela mesma, fazer uma busca dentro de si pode ser as vezes cruel e doloroso.
    O autoconhecimento por ela se expressar de um jeito tão legítimo que consegui me ver nessa luta, a qual me encontro, a busca por tentar equalizar corpo e alma.
    Por fim a esperteza, pois depois de tudo passado, repassado diversas vezes, a dor não a tornou amarga, muito pelo contrário, acho que só quem chega ao fundo do poço emocional consegue sentir essa interessante malícia pela vida.
    Um abraço apertado, obrigada pela leitura.

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