Vamos falar sobre os 5%?

O texto a seguir é uma tradução de um texto retirado do Blog “Dare Not to Diet”:

cincoporcento

Eu passo muito tempo focando na taxa de 95% de fracasso das dietas, de forma a conscientizar as pessoas sobre no que elas estão se metendo quando decidem que querem perder peso. E, inevitavelmente, de vez em quando alguém no Twitter diz:

“É claro que perda de peso a longo prazo é possível. Acontece com as pessoas o tempo todo.”

Sim, muitas coisas são possíveis, inclusive perda de peso a longo prazo, então eu vou falar sobre estas pessoas hoje, porque eu tenho experiência em primeira mão no assunto: eu fui uma entre estas 5% de pessoas que conseguiu manter o peso perdido por mais de cinco anos (16 anos no total).

Porém, primeiro, vamos recapitular: toda a literatura científica disponível a respeito de esforços intencionais para a perda de peso (e eu vou tentar não usar a palavra “dieta” aqui somente para evitar que alguém interrompa dizendo “Claro que dietas não funcionam, perda de peso tem a ver com mudanças no estilo de vida…”) mostra que aproximadamente 95% das pessoas acabam por ganhar todo o peso de volta, ou mais, em até cinco anos.

O melhor compilado que eu li sobre este tipo de ciência é o livro “Secrets from the eating lab”, do Dr. Traci Mann; vá em frente e dê uma conferida na sua biblioteca local, caso haja interesse. Há muitos outros livros que se referem à ciência por trás deste fracasso, listados aqui.

Em contraste, existe ciência convincente em favor da filosofia Saúde em Todos os Tamanhos (Health at every size®) e de modelos de alimentação neutros em relação ao peso, como a Alimentação Intuitiva, o Modelo de Competência Alimentar de Satter (confira os livros Health at every size, de Linda Bacon, Intuitive eating, de Tribole e Resch e qualquer outro livro de Ellyn Satter para acessar os vários estudos relacionados à eficácia de intervenções de saúde neutras em relação ao peso. Você vai ficar impressionado∕a).

Mas, por ora, vamos dizer que você ainda não está convencido∕a, e que você quer perder peso, e ao mesmo tempo em que você sabe que você tem cerca de 95% de chances de recuperar todo o peso que você perdeu e talvez ganhar mais, você ainda quer dar uma chance e ver se você pode se tornar um destes “poucos sortudos”. Tudo é possível, certo?! Então vamos explorar esta ínfima possibilidade e ver como será sua vida se você conseguir.

Quando eu originalmente iniciei minha jornada de perda de peso, meu objetivo não era viver uma vida miserável de privação; na verdade, eu decidi que se eu não pudesse curtir um lanche no McDonald’s pelo menos uma vez por semana, eu não iria continuar. E, naquela época, neste meu corpo que nunca tinha feito dieta, era jovem, e que frequentemente comia em excesso, eu realmente perdi peso rápida e facilmente sem privação extrema. Há provavelmente muitas pessoas por aí com uma experiência parecida, sedutora.

Mas, à medida que o tempo passou, o corpo começou a lembrar e frequentemente o número da balança começou a subir bizarramente. Restrição alimentar e calórica começaram a acontecer com mais e mais frequência para que eu conseguisse manter meu peso em dia.

Eventualmente, as táticas de manutenção que eu usava para me alimentar quando eu fiz dieta pela primeira vez (naquele corpo jovem, que nunca tinha feito dieta e comia em excesso) não eram mais suficientes para manter o meu corpo mais velho, mais magro, sempre de dieta. Minha solução para consertar o aumento constante do peso era perder mais peso, obviamente.

Eu remei contra a maré, no entanto, e fiz parte dos mágicos 5% que perderam e mantiveram uma quantidade significativa de peso por mais de cinco anos. Eu era um unicórnio! Brincadeira, unicórnios não existem e eu existia. Mas, sério, eu nem sabia na época o quão rara eu era.

 

De que forma minha realidade acompanhou meu desejo original de ser uma pessoa mais magra, que come normalmente, relaxada diante de comida? Nunca acompanhou. Nunca houve um momento, mesmo nos primeiros dias “fáceis”, em que eu não estivesse preocupada com o quê ou quanto eu estava comendo, mesmo que eu não precisasse comer de forma restritiva naquele momento. Enquanto meus amigos naturalmente magros pareciam instintivamente saber quando eles tinha comido o suficiente e podiam parar quando estavam satisfeitos, e não ficavam obcecados com comida o dia todo, eu vivia com aquela sensação de que eu nunca poderia ser capaz de parar de comer, tendo um pouquinho de oportunidade e metade de um pacote de Oreo.

 

 

Em vez de estar sempre apreciando meu corpo mais magro, minha insatisfação com ele cresceu e cresceu até que me vi pronta e disposta a passar fome na vã esperança de atingir a perfeição (que eu sabia que nunca poderia alcançar porque NÃO EXISTE). Durante minha restrição mais extrema, eu constantemente neguei minha fome, e então quando as comportas inevitavelmente se rompiam, eu me entupia a ponto de passar mal. Mas eu não era gorda! Então, de alguma forma, aquilo me transformava em uma vencedora.

Talvez eu fosse somente uma esquisitona que não conseguia lidar com a parada dos 5%.

E quanto ao restante deste segmento da população?

Talvez eles estivessem vivendo bem. Podemos perguntar ao Registro Nacional de Controle de Peso (National Weight Control Registry), que é a “maior [10.000 membros, ou seja: 0,003% da população dos EUA] investigação de manutenção bem-sucedida de perda de peso” dos Estados Unidos. Eles estudam pessoas que conseguiram manter a perda de peso por pelo menos um ano. Vamos dar uma olhada, ignorando que eles definem “perda de peso a longo prazo” como 1 ano, e ver o que descobriram.

Enquanto o Registro Nacional nos diz que estas pessoas “mantêm uma dieta de baixa caloria e baixa gordura” (cerca de 1.700 calorias para homens e 1.300 calorias para mulheres), ao mesmo tempo em que executam “altos níveis de atividades físicas” (pelo menos uma hora por dia, e provavelmente não estamos falando de caminhadas vigorosas no parque) e se pesam todos os dias, eles infelizmente não mencionam como as pessoas, particularmente, apreciam seu estilo de vida, o quão relaxadas e confiantes elas se sentem diante de comida, ou se passam a maior parte do tempo pensando em suas dietas e seu peso. Eu sei que eles não reportam este tipo de informação porque, por um tempo, eu fui uma participante do Registro Nacional, e nas pesquisas deles a respeito do que eu comia e fazia para manter a perda de peso, eles nunca me perguntaram o quão feliz eu estava a respeito da coisa toda (talvez eles tenham perguntado se eu estava feliz sendo uma “pessoa não gorda”, mas não é a mesma coisa, certo?). Talvez eles não se importassem; talvez eles pensassem que os meios justificavam o fim magro e eu não deveria ser tão egoísta a ponto de me preocupar com minha felicidade.

Quando o preço mental e físico para manutenção do meu peso eventualmente se tornou muito grande para suportar, e a infelicidade comigo mesma não mais fazia sentido, eu bruscamente parei de fazer dieta, recuperei cada quilo do meu peso perdido e eventualmente me desvinculei do Registro Nacional (e fiquei feliz com minha comida, meu exercício, meu corpo). Até onde eu sei, eles não estão contabilizando pessoas como eu – as que saíram, as que recuperaram o peso – em nenhum momento da pesquisa. Eles não se preocuparam em contar o resto da minha história, quando eu decidi que aquela vida, para uma pessoa não naturalmente magra, era uma droga, e decidi começar a comer de uma forma nutritiva, ganhando peso.

Se algum destes 5% estiverem por aí vivendo uma vida livre e simples diante da comida, eu nunca conheci ou ouvi falar. Eu acho que a maioria deles acabam como Jillian Michaels, tentando transformar em uma profissão – muitas vezes não remunerada – a manutenção do peso.

Então, se você estiver pensando em se tornar um membro destes mágicos 5%, saiba que seus interesses serão somente a respeito de comida e exercício de agora em diante e que, ainda assim, não há nenhuma garantia de que você se manterá magro∕a. Quer ser um apaixonado por comida? Pode esquecer. Quer ser como seus amigos naturalmente magros que parecem comer e não pensam de forma alguma nisso? Nã-não.

Sua nova profissão será “ex-gordo∕a em tempo integral”, mantendo o peso perdido com cada quilo de energia física e mental de que você dispuser.

Mas você estava mesmo procurando por outro trabalho em tempo integral, não estava?

Por outro lado, você pode decidir fazer as pazes com comida e seu corpo, e desenvolver alguns hobbies, que claro que podem envolver comida e exercício, mas que também incluam outras coisas. A escolha é sua; só não diga que não avisei.

(FONTE: “Let’s talk about the 5%, por Glenys O. Tradução de Juliana Depiné)

16 ideias sobre “Vamos falar sobre os 5%?

  1. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Tailane!!!

    Olha… pela sua narrativa, eu acho que você não faz parte desses 5% que tanto sofrem, porque essas pessoas forçam o corpo a se manter num peso abaixo da constituição natural constantemente. Malhando MUITO e comendo muito pouco. Você me parece ser uma pessoa que tem uma alimentação equilibrada em quantidade e qualidade, e faz atividade física regularmente. Que bom 🙂

    Um beijo!

Os comentários estão desativados.