Não existem gatos verdes.

Sobre o texto a seguir:

Eu não gosto de autoajuda barata (que na maioria das vezes é bastante cara). Não gosto. Não me considero uma pessoa [assim tão] fatalista. Ou vitimista. Mas eu sinto que o discurso “acredite-no-poder-do-QUERER-e-o-universo-vai-te-dar-um-unicórnio” que nos enfiam goela abaixo é simplesmente desleal. Porque é uma coisa para te fazer acreditar no seu potencial, mas que no fim das contas é um tremendo tiro no pé e acaba causando frustração e sofrimento.

Eu acredito que podemos fazer o nosso melhor… dentro das nossas possibilidades. E as nossas possibilidades podem ser limitadas ou afetadas por fatores externos e/ou circunstâncias desfavoráveis.

Não conquistaremos os nossos sonhos mais delirantes porque temos o ardente desejo de conquistar os nossos sonhos mais delirantes. Porque sonhos delirantes podem ser simplesmente… delirantes.

Eu acho que precisamos ter autoestima, sempre buscar a evolução, ter perseverança. É claro. Mas nós somos viciados em hedonismo, prazer, positividade, sorrisos, VAMOS FALAR DE COISA BOA, casos de sucesso. Só que nem todo caso é de sucesso.

Existem casos e casos. Uns bons, outros ruins. Mas nós hipervalorizamos o sucesso e rechaçamos as coisas ruins. Com o perdão do meu apego aos pensadores pessimistas, nosso maior momento de desenvolvimento não ocorre no pico da nossa alegria.

Observo fartas doses de “conquiste a vida perfeita” em detrimento de doses de VIDA REAL.

Por este motivo, eu fiquei bastante tocada com um e-mail enviado pela leitora Alessandra Giorfi. E pedi autorização para publicá-lo.

Fica o alerta: o depoimento a seguir não vai te deixar tremendamente inspirado, feliz ou acreditando no melhor da vida.

Alessandra

(Alessandra junto com o seu gato, o Problema.) 

Olá!
Meu nome é Alessandra, tenho 37 anos e gostaria de deixar meu depoimento. Cheguei ao seu blog por acaso, lendo sobre os abusos das “blogueiras fitness”. Li todo o conteúdo em apenas dois dias. Chamaram a minha atenção especialmente os posts sobre depressão.

Sim: eu tenho depressão.

Há alguns meses, meu ex marido, um MÉDICO, anunciou a decisão de separar-se de mim. O motivo: ele não queria mais conviver com uma pessoa que tem depressão.

Minhas dificuldades emocionais precisaram de uma “muleta”. Tornei-me viciada em remédios. Remédios comuns, desses “de farmácia”, mesmo, que a gente consegue comprar sem receita médica. E cheguei a entrar em coma, por duas  vezes devido a essa dependência. Naquele difícil momento em que comunicou sua decisão de me deixar, meu ex marido acusou-me,  algumas de forma direta, outras de forma velada de não “lutar” contra a minha doença. Foi devastador. De repente, uma pessoa que você ama e que se comprometeu com você em uma cerimônia religiosa (religião da qual ele muito se orgulha) a estar a seu lado sempre, te abandona por causa da sua doença.

 Sim, um profissional de  saúde. Um médico. Embora ele não seja psiquiatra, muitas vezes tem que prescrever antidepressivos. Vivendo em uma cidadezinha minúscula do interior de Mato Grosso, onde o psiquiatra mais próximo está a muitos Km de distância por estrada de terra. Estrada que vira um atoleiro sem fim em temporada de chuvas…. uma cidade onde não há UTI.

Quer dizer: se alguém tiver um problema sério ou tentativa de suicídio, no período de chuvas, talvez não chegue ao psiquiatra, ou à UTI mais próxima, simplesmente porque a ambulância vai atolar no caminho. Não vai passar mesmo!!

Isso  me leva à uma série de considerações.

Sofro da doença desde os dezoito anos. Fui criada por pais muito rígidos. Daqueles que quando eu tirava dez na escola diziam o famoso “não fez mais do que a obrigação” e se tirava nove diziam “tem que estudar mais”. Fui criada apenas para trabalhar e estudar e ponto final. Lazer? Nem pensar! Mesmo que o lazer fosse um simples ” sorvete com as amigas”.

Sei que não adianta culpar meus pais. Eles fizeram o que achavam ser o melhor para mim. Mas o fato é que sempre me senti rejeitada e nunca me senti amada. A princípio, eu estudava em uma escola pública, com disciplina bastante rígida. Mas quando eu tinha dez anos, nos  mudamos de casa. A nova escola não era tão rígida e eu tive extrema dificuldade em fazer amizades. Achava meus novos colegas todos “uns mal educados”. Juntando isso à minha dificuldade de lidar com as mudanças naturais da adolescência, aos doze anos comecei a engordar.

E começou o calvário de dietas, “Vigilantes do Peso”, ” Meta Real”, endocrinologistas… Com dezoito anos ingressei na faculdade de Direito. Não era o que eu queria. Eu queria jornalismo, meu sonho era ser âncora de televisão. Porém meus pais afirmaram que “jornalismo não dá dinheiro”  e que não pagariam a faculdade para mim. Meus pais tinham o sonho de ter uma filha juíza.

Detestei o curso, mas, com muito sofrimento fui até o fim. E sempre lutando com o excesso de peso. Depois de formada, e trabalhando como funcionária pública, veio a fase do excesso de exercícios. Eu passava até quatro horas por dia na academia. Foi assim por alguns anos, até que uma decepção amorosa me fez abandonar tudo e eu engordei novamente.

Finalmente, quando estava com 29 anos, me submeti a uma cirurgia bariátrica. Não me arrependo. Não que seja exatamente um mar de rosas. Tenho até hoje as famigeradas crises de hipoglicemia, mas ainda assim é mais fácil ter um peso socialmente aceito e poder não me sentir observada.

Atualmente peso 55 kg, distribuídos em 1,57m. Ou seja, peso normal. Ninguém mais me olha torto nas ruas. Não sou esquelética, mas posso comer o que quiser sem que as pessoas se sintam no direito de me julgar. Nos tempos de excesso de peso sempre me sentia observada.

Se estava comendo um doce, podia sentir a reprovação das pessoas, o famoso “por isso que é gorda!”.

Se estava comendo uma salada, sentia os olhares como que a me dizer “tadinha, olha lá a gordinha de dieta”.

Hoje eu não sofro mais com esse tipo de intromissão indelicada, que as pessoas consideram normal.

Mas a depressão continuou aqui. Me incomodando. Nos últimos anos, não me lembro de não ter sentido depressão e tristeza. Penso que as pessoas de hoje, como você mesma diz no blog, sofrem de falta de empatia.

Parece-me que as pessoas só conseguem enxergar suas próprias dificuldades. Lembro-me de um post que vi no face de uma amiga que me pareceu muito verdadeiro: “se a dor não é sua, não chame de ‘drama’ “. Mas é assim que as pessoas fazem. As tristezas dos outros são “frescura” e “covardia”.

Depressão é coisa de quem “não tem força de vontade”, “nunca passou dificuldade”, ” não tem coragem de enfrentar seus problemas”… e coisas do tipo.

Todo mundo quer ouvir que é “guerreiro”, “batalhador”, “lutador”. São os elogios da moda. Detesto isso. Eu não quero ser uma “batalhadora-lutadora-guerreira”. Não quero participar de guerra nenhuma. Quero apenas viver em paz,  junto das pessoas que amo e do meu gato, um fofo!

Outra coisa: a  eterna história:

“força de vontade”
“você quer, você pode”

“Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”  dizia um quadro que uma colega dos tempos de faculdade tinha em seu quarto. Mas as coisas não são tão simples assim. Creio sim que, quando temos bons pensamentos, os resultados costumam ser melhores. Mas isso não quer dizer que seja como os livros de auto-ajuda pregam. Basta querer, lutar, se esforçar, se empenhar que você vai conseguir.

O impossível existe sim!!
Por exemplo: eu amo gatos. Já disse que tenho um. Amo todos. De todas as raças, ou sem raça definida. De todas as cores e tamanhos. Agora imagine que eu queira ter um gato verde. Vou conseguir? Claro que não! Por que?

Porque não existem gatos verdes. Ou seja: É IMPOSSÍVEL.  E nenhuma quantidade de “esforço”, “empenho”, ‘trabalho”, “luta”, “batalha”, “garra” ou “força de vontade” irão me trazer um gato verde. Nem me transformar em uma mulher de 1,75 de altura. Ou fazer com que eu tenha 23 anos novamente.

Repito: O IMPOSSÍVEL EXISTE. O IMPOSSÍVEL EXISTE. O IMPOSSÍVEL EXISTE. Simples assim.

Recentemente, encontrei em uma rede social, minha antiga cabeleireira e manicure de quando eu vivia em Goiás. Conversamos, fizemos as perguntas de praxe. Eu vivia no interior do estado. Ela voltou pra Goiânia. Como eu, foi deixada pelo marido devido à sua depressão. E me convidou pra passar uns dias com ela em Goiânia. Fiquei super feliz com a ideia. Já estou planejando a viagem, que pretendo fazer em junho ou agosto, para aproveitar a baixa temporada e também fugir do friozinho chato daqui do ABC paulista.

E entrando no assunto principal do blog: eu não vou “jacar”. Eu gosto muito de jaca, mas não sei sei vai estar na temporada de jaca, quando eu chegar lá. Eu não vou “jacar”, mas vou “pamonhar”. Porque eu gosto muito de pamonha e não vou deixar de curtir um típico programa de Goiânia, ir a uma pamonharia.

Nem vou pedir “apenas uma garrafa de água”… Vou pedir pamonha. “Pamonha de doce”, como dizem por lá. E com queijo.

Não só isso: vou caminhar nos parques, ir aos shoppings, passar medo na viagem de avião. Vou me perder nas ruas em radial identificadas por números. Vou curtir a companhia da minha amiga, conhecer novas pessoas, enfim… aproveitar como eu puder. Com ou sem depressão. Quero apenas viver.  Porque os “depressivos-perdedores-sem força de vontade” também têm esse direito.

Pensei muito antes de escrever meu depoimento. Sei que é provável que, caso ele seja publicado, eu receba muitos comentários me chamando de “mal amada recalcada” e outras coisas do gênero. Mas penso que não posso me calar. Chega da ditadura do TEM QUE.

CHEGA de guerreiros, batalhadores, lutadores, superação, força de vontade, determinação.

Reitero, não estou em guerra.  Não sou nenhum daqueles heróis bíblicos. Não sou Josué, Não sou o Rei Davi. Não sou Sansão. Sou apenas eu mesma.

Se eu tiver que “lutar” por alguma coisa, será por respeito. Respeito pelos gordos. Gordofobia não! Respeito pelos que têm problemas de saúde mental. Psicofobia não!

Depressão não é frescura.

E pra quem acha que depressivos são todos incapazes,  fracos, covardes, sugiro:

Que deixem de entrar em um aviões e usar relógios de pulso. Porque Alberto Santos Dumont criou o avião e o relógio de pulso…e sofria de depressão.

Que deixem de ouvir as sinfonias de Beethoven… pois ele teve depressão.

Que deixem de reler “Dom Casmurro”… pois consta que Machado de Assis sofreu depressão.
E a lista prossegue.

Espero que meu depoimento seja um alento para aqueles que, como eu, já foram inferiorizados até pelas pessoas que deveriam ter lhes dado apoio, por causa de uma doença.

Depressão não é “frescura”, não é “covardia”, não é “falta de tanque de roupa”, não é “falta de louça pra lavar”.

DEPRESSÃO É DOENÇA. DEPRESSÃO É DOENÇA. DEPRESSÃO É DOENÇA.

Estou em tratamento medicamentoso com um psiquiatra aqui da minha cidade e fazendo psicoterapia. Porque é muito chato conviver com essa doença e eu estou cansada.

E, já que eu falei em gatos, estes aí na foto somos eu e o Problema, meu gato.

‘Problema” é o nome dele. Não é lindo? …Só não é verde, né?

gato verde
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12 ideias sobre “Não existem gatos verdes.

  1. Bridish Viviane Bugni

    Espero que vc e o Problema sejam felizes juntos. Tenho 3 gatos lindos e sao de grande ajuda com a minha depressao. Mas ao contrário de vc eu fico quieta, sofro escondida. As pessoas projetam sua mesquinharia e nos julgam por nossos sentimentos. Ainda nao consigo falar tudo.

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