Alta, magra, branca e linda.

O post de hoje é sobre uma imagem.

Ok. Eu diariamente recebo dezenas de imagens que propagam bobagens na internet sobre beleza, dieta, feminilidade, “motivação”, saúde (costumam ser as piores…).

São ignorantes, sarcásticas, cruéis, de mau gosto… Ou tudo isso junto. Raramente repetem e nos surpreendem mais e mais por sua criatividade, fator nonsense e teor apelativo.

Exemplo:

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(Objetificação feminina, ideias SIMPLISTAS sobre emagrecimento, mistura de “saúde” com “beleza”… Pacote completo. Isto é uma imagem bizarra que não motiva ninguém, não educa ninguém, não promove mudanças positivas na vida de ninguém e que saiu dos círculos mais obscuros do Inferno de Dante)

Hoje eu quero falar de uma dessas figuras que recebi. Não é tão grotesca quanto a Motivação da Mulher Maravilha (sobre esse tipo de coisa não há muito o que dizer, na verdade…), mas ficou martelando na minha cabeça.

É esta aqui:

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“Você só quer desconstruir padrões porque fracassou na dieta.”

E essa frase incomoda? Aaaaaaaahhh, incomoda.

Eu poderia dizer “sinto muito caras, você não me afetam”Mas eu estaria mentindo. Porque esta é uma argumentação vil, covarde, perversa e que deixa muitas mulheres constrangidas e sem opção.

E ver mulheres constrangidas e sem opção é uma coisa que pisses me off.

Primeiramente, vamos falar sobre “fracassar na dieta”:

Na União Soviética, a dieta fracassa com VOCÊ.

Só que não é apenas na União Soviética, é no planeta inteiro!!

(antes que comentem, eu estou ciente da queda do muro de Berlim. Foi uma argumentação me valendo da reversal russa)

Decore isso: A DIETA é o que falha com VOCÊ.

Se você compra um carro e ele não dá partida, você chama o vendedor da concessionária e se queixa sobre isso.

Se você compra um brinquedo eletrônico para o seu filho e ele não funciona, você volta na loja, reclama e pede para trocar.

Só que se você vai à banca de revistas, compra uma revista de dieta, tenta seguir as orientações e não consegue… Você pensa que o problema foi COM VOCÊ. Porque VOCÊ supostamente não teve “força de vontade”.

Essa é a dinâmica perversa das dietas: a ferramenta não funciona. Você não vai conseguir seguir (SE conseguir, será apenas temporariamente)… E então diremos que a culpa é SUA porque você é um frouxo que não se esforça.

(“Olha só… Se não rolar comer duas fatias de melancia todos os dias durante um mês, A CULPA É SUA. Não há nada de errado na nossa proposta”)

Outra:

Eu não faço dieta. Portanto não fracassei em coisa alguma. Porque não há como fracassar em algo que você não fez. Então essa mensagem não me serve e eu continuo querendo desconstruir padrões.

(EU: não vejo dieta, não ouço dieta e não falo em dieta)

Próximo tópico:

O famoso golpe baixo: “Se você reclama, você é feia”

Nenhuma mulher quer ser feia, certo? Desde a mais tenra idade nos ensinaram que ser uma boa menina é ser lindinha. Esta é a maior moeda de valor na vida de uma mulher, se não for a única: a beleza.

Qual é a reação de muitas mulheres diante desse argumento?

“Melhor parar por aqui. Não posso ser feminista, não posso reclamar, não posso questionar, não posso protestar, não posso fazer diferente, não posso sair da linha… eu não quero que me chamem de FEIA”

(ou gorda, no caso. Atualmente as pessoas interpretam essas duas palavras como se fosse a mesma coisa)

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Primeiro você grava em ferro em brasa na pele da mulher que ela tem que ser delicada e linda. Se ela reclamar disso, é porque ela NÃO É delicada e linda. Então, diante disso, muitas mulheres que estiverem dando seus primeiros passos fora da caixa irão voltar pro curral. Porque ser ferida em sua beleza, “o maior de todos os bens”, é muito traumático.

Algumas tentam, se sentem ameaçadas e retrocedem. Outras irão escolher jogar o jogo e não sair dele (atitude também conhecida como “ganhar pontos com os rapazes”…):

(“Eu não preciso do feminismo porque eu gosto quando os homens elogiam o meu corpo”. Pois é, moça… Este é precisamente o problema. Você precisa da aprovação deles, e se não tiver, dói)

Podemos julgar ou atacar quem recua ou não quer questionar a cultura da beleza? Jamais.

Bater na tecla você-reclama-porque-você-é-feia é uma manobra muito delicada (e justamente por isso usam. Porque é golpe baixo)

Agora eu quero relatar uma experiência pessoal.

Há anos, quando eu nem sonhava que um dia eu teria um Blog (que dirá um Blog de sucesso e sobre padrões de beleza)… Quando eu não sabia nada que eu sei hoje e minha única referência sobre feminismo era um vago dado literário – “Simone de Beauvoir” – eu passei por uma das situações mais desconfortáveis da minha vida.

Em uma determinada ocasião, que prefiro não narrar os pormenores, uma pessoa que eu costumava admirar (UAU, as coisas mudam) me fez um elogio em público. E ela disse o seguinte:

“Sabem por que eu gosto da Paola? Porque ela é alta, magra, branca e linda de rosto”

Acrescento que isso foi dito diante de outras garotas que NÃO eram altas, magras, nem brancas… fato que torna o episódio ainda mais surreal (não vou entrar no mérito do “linda de rosto” por motivos de subjetividade absoluta)

… E receber este ~elogio~ foi uma coisa horrível.

Eu nunca esquecerei o momento, a ordem em que as palavras foram ditas e minha absoluta falta de reação.

(Eu deveria estar contente, mas eu não gostei disso ………)

HOJE eu sei que a pessoa cometeu um combo absoluto de preconceito contra pessoas baixas (em inglês: “heightism“), lipofobia, racismo e machismo (posto que o objetivo do elogio era ilustrar como eu parecia uma verdadeira boneca e como isso é ótimo…quando você é uma mulher).

(É COMBOOOOOO!!!)

Hoje eu sei que foi uma tentativa de lisonja partida de uma mente obscura.

Mas o que eu pensei na época foi:

Mas e se eu não fosse alta, magra, branca e “””linda de rosto”””?

…Haveria algum motivo para gostar de mim?

R: Não, nenhum,

A pessoa estava alegando que gostava de mim UNICAMENTE por características físicas.

Ser engraçada, inteligente, criativa, sensível, curiosa, chorona e esquisita não interessava. Não era por isso que essa pessoa (e talvez outras) gostava de mim.

Agora pensa comigo: O QUE SIGNIFICA ser alta, magra, branca e ~linda de rosto~?

Um privilégio social, com certeza. Mas o que significa isso? Mesmo?

R: Rotundamente NADA.

Ou seja: se eu não fosse bonitinha, não haveria motivos para gostar de mim.

Ruim, né?

(TÔ AQUI FALANDO SOBRE COMO EU SOFRO porque sou branca e magra?? OBVIO que não!!!! Eu reconheço um p*ta privilégio social quando o vivo.)

Então vamos finalizar.

Padrões de beleza (e alimentação. e comportamento) causam muito sofrimento. Contribuem para o aumento vertiginoso dos transtornos alimentares, baixa autoestima, ansiedade, depressão, insatisfação corporal. Existe gente que morre por causa disso. Há uma multidão de mulheres que simplesmente não vivem porque estão consumidas demais pelo desejo de serem magras. E quando elas ficam, finalmente, magras? Elas sentem que precisam ser MAIS magras. O rechaço ao próprio corpo atrapalha inúmeras mulheres em praticamente todas as esferas da vida.

(só uma perguntinha: Por que você quer emagrecer? Para quem?)

Isso é assunto sério. É um problema de saúde pública. Saúde física, mental, emocional, psicológica! Não é besteirinha para postar no Facebook.

Sabem POR QUE eu quero desconstruir padrões, meus queridos?

Porque eu sou alta, magra, branca e linda de rosto.
E as pessoas chamam ISSO de elogio.

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5 ideias sobre “Alta, magra, branca e linda.

  1. Ana

    Gosto muito dos seus textos e das reflexões da página, mas esse foi especialmente tocante para mim. Passei por uma situação semelhante: eu era adolescente e fazia terapia em grupo. Certa vez, a terapeuta propôs uma dinâmica na qual as pessoas tinham que dizer o que gostavam nas outras, ou fazer uma descrição dizendo aspectos positivos do outro, algo assim (acho que os nomes foram sorteados). A pessoa que me descreveu disse, querendo me elogiar, que as minhas características positivas eram a juventude, a beleza e o talento de tocar um instrumento musical. Eu reclamei (até porque era terapia e a gente era estimulado a dizer o que sentia), disse que isso era tudo superficial etc etc. Resultado: eu fui a chata do grupo, errada, que não sabia ouvir elogio… Isso me chateou por muito tempo. Hoje não mais! Seu site vale mais que terapia!

  2. Noris

    Wow. . . É incrível como tuas palavras me soam verdadeiras. Eu nunca fui magra … E o elogio sempre foi “tem um rostinho tão lindo”… Eu pensava que o que me incomodava era o complemento, que obviamente dizia respeito ao meu corpo não estar exatamente em forma. Mas hoje eu percebo que o tal elogio ao “rostinho lindo” me incomodava mais. Não, eu não me incomodo de ter um rosto bonito. Mas eu me incomodo em ser só isso. Eu me alegro verdadeiramente quando enconto uma amiga da minha mãe e ela me diz que eu sempre tive um bom coração. Eu me alegro quando minha antiga professora se lembra que eu era boa aluna e eestudiosa. Eu me alegro quando reconhecem a minha determinação e perseverança. Eu não sou só um rostinho bonito em um corpo gordo. Eu sou muito mais do que isso. E, sim, eu quero ser magra. Mas isso não rege a minha vida. E não se resume a uma questão de beleza. Eu simplesmente quero ter disposição e condicionamento para fazer coisas que eu amo, como o Trecking de longa distância e o mergulho. Sim. Pessoas gordas também podem gostar de esportes. Esses rótulos e padrões só fazem limitar as pessoas e embacar o olhar integral do verdadeiro eu de cada um.

  3. Susana

    Um dia meu irmão me disse em tom de elogio pelas costas da minha irmã: “Sempre digo para os meus amigos que tenho duas irmãs: uma feia e uma linda.” Eu era a linda. Mas fiquei ofendida que até para me elogiar, tinha que ofendê-la. E se eu não fosse a linda?
    Sou baixa, mas magra, loira, de olhos claros. Lembro uma vez que comentei com meu namorado, durante uma cena de nudez de um filme: “que linda mulher!”. Ele disse que ela tinha os seios caídos para a idade. Pensei “e se os meus seios não fossem “perfeitos”? É mimimi? Talvez. Minha beleza física é passaporte gratuito para muitos privilégios. Mas não devia ser. Meu deus, não devia.

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