Eu não quero a espada.

Sinto que esse texto vai causar um rebuliço tremendo e talvez eu não devesse estar fazendo isso…  Mas bora lá.

Eu não sei se eu escrevo de modo vago, ou se as pessoas têm dificuldade de me entender… ou os dois. Não sei mesmo.

Mas ontem uma reação de leitoras no meu Instagram me deu um susto (quem me segue viu o que aconteceu lá…)

Pode parecer estapafúrdio mas eu preciso deixar claro que:

1) Eu acho muito importante discutir, denunciar e protestar a respeito da violência contra a mulher.

2) Eu me posiciono 100% a favor da vítima.

3) O NSE não é o tipo de página que endossaria um ato de barbárie ou culpabilizaria a vítima.

4) Eu não sou conivente com a cultura do estupro.

(então…pois é. Dito isto, continuemos)

Quando aquilo aconteceu, e eu soube… Como a maioria da população brasileira (e do mundo!), eu fiquei mal. Fiquei chocada. Fiquei revoltada. Fiquei indignada. Fiquei estupefata. Fiquei nauseada, me senti impotente.

Eu analisei a situação, ponderei… E decidi que eu não queria ser mais um perfil na internet expondo o caso (ou seja: falando sobre a moça e narrando o que aconteceu)

E não o farei aqui.

Acho que mais importante do que falar sobre o que eles fizeram, é pensar sobre o que ela está sentindo.

Senti que se eu fizesse (mais um) textão expressando meu horror em relação a este crime… Eu poderia ilustrar como é REAL, perigosa e crítica a cultura do estupro… Mas eu também estaria expondo a vítima. Mais uma vez.

Escrever uma grande nota de repúdio é o meu dever de blogueira, comunicadora, pessoa pública, mulher e ser humano?

Talvez.

Mas todo mundo já sabe o que aconteceu. E também já me comunicaram que ela agradeceu o apoio do público nas redes sociais.

Se essa hecatombe tivesse acontecido comigo, eu não gostaria de ver o fato sendo mencionado, narrado e reencenado em todos os jornais, canais de TV e portais do Brasil e do mundo … E em quase todos os Blogs, Fanpages e perfis nas redes sociais .

O trauma é muito grande. Quanto tempo e tratamento se fazem necessários para superar isso? Além de tudo, saber que a sua intimidade, sua agressão e seu trauma estão na boca de TODO MUNDO? Gente defendendo, gente chamando de ‘vagabunda’ que provocou a situação, gente RINDO e fazendo Memes?

A hora de defender a integridade da mulher é SEMPRE. Todos os dias. Através da nossa postura, das nossas opiniões, da interrupção de cada comentário machista que a gente não deixa passar e de cada denúncia que a gente faz. É SEMPRE. Meu ativismo é alertar contra a objetificação feminina, porque quando uma mulher é vista como “algo” que não é humano e que pode ser “posse” do homem, isso encoraja a cultura do estupro. É pouca coisa? Bueno, é a minha maneira de protestar. E eu faço isso todos os dias.

Todos os dias.

Conheço dezenas de nobres mulheres que batalham contra a violência contra a mulher DIARIAMENTE, na internet, nas universidades, nos abrigos, nas delegacias e nas ruas.

Ultimamente TODO MUNDO ESTÁ FALANDO DISSO? Está. Porque É revoltante. Mas será que a vitima de uma agressão tão brutal desejaria estar nos Trending Topics?

O mundo é vil, o mundo é torpe, o mundo é mau. E o pior: pessoas da estirpe desses agressores riem de nós. Da nossa bandeira. Da nossa luta. Da nossa revolta. Eles riem. E falar dela… também é colocar o holofote neles.

SIM: existem veículos de comunicação pegando carona nessa tragédia simplesmente porque dá audiência. A sociedade é imediatista e as coisas são MUITO efêmeras. Logo outra coisa mais “interessante” vai acontecer e ninguém mais vai falar disso. To mentindo?!

Estou alegando que devemos cruzar os braços, nos conformar e desistir? Claro que não!

Apenas acredito que esse assunto deveria ser tratado com mais delicadeza e cautela de nossa parte, porque a exposição rememora a agressão.

Estamos pagando ódio com mais ódio por causa da nossa (justificável) fúria. Vou soar como a idealista-passiva-sem-noção agora: mas ódio só gera mais ódio.

“Pagai o mal com o bem”.

Diante DISSO?!…COMO?!!

R: trocando a raiva que sentimos deles por compaixão por ela.

Posso ocupar minhas mãos com uma espada contra eles ou com um ramo de flores para ela.

Eu prefiro a segunda opção.

A hora de falarmos sobre cultura do estupro é agora? É sim! Mas também era antes do ocorrido… E continuará sendo DEPOIS que passar esse fogo de palha de sensacionalismo.

Peço que tenham o bom senso de entender que eu não estou me posicionando contra a vítima.

 

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6 ideias sobre “Eu não quero a espada.

  1. Malu Almeida

    Estou muito feliz em ver que as blogueiras que mais admiro e leio foram todas na mesma linha em seus posts sobre o ocorrido! E vir ao NSE é um ‘plus’ a mais no dia, como sempre 🙂

    Eu acho que temos que incluir os homens de bem nessa luta, fazer com que eles entendam cada vez mais a importância de se posicionarem diante de outros homens quando ouvirem/lerem algo que perpetua essa violência contra a mulher. Na bolha dos homens com quem convivo, só ouvi frases de indignação, a revolta com o caso era semelhante, mas os pequenos gestos que vão alimentando o machismo diário ainda estão lá, porque é algo que tá ‘natural’, com suas exceções, é claro. Mas acredito que se forem incentivados, um maior engajamento masculino na causa será sem dúvida um grande passo na nossa luta.

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