Um Jantar no Inferno (mulher saladinha)

Oi!

Você conhece a série de filmes “Um Drink no Inferno”?

É um filme de vampiros bem doido estrelado pelo George Clooney e o Quentin Tarantino (sim: Tarantino diante das câmeras!). É meio trash e cheio de objetificação feminina… Mas né. Clássicos cult.

Um Drink no Inferno (1996) (5)

Não sei se você sabia disso, mas no filme “Um Drink no Inferno 3”, a Sônia Braga faz o papel de uma sacerdotisa das trevas toda trabalhada na malevolência (ela fala inglês e tudo!)

Não sei se todo mundo gosta desse estilo de filme, que é sobre vampiros de verdade, não aqueles vampiros estranhos que estudam em looping no Highschool por 600 anos e brilham no sol.

Desculpe se você gosta disso… Ou daquilo… Ou de nada disso.

Estou falando isso porque tenho uma proposta: vamos além, não basta um Drink!

Me acompanha num Jantar no Inferno?

Uma mulher e um homem vão a um restaurante. O homem segura o cardápio e lê as opções porque a mulher não dá conta de uma tarefa tão complexa. Então o homem chama o garçom:

– Quanto custa o penne à bolonhesa?

R: Mais tempo no parque, correndo.

– E a lasanha à quatro queijos?

R: Mais braçadas na piscina.

– E o Filé à Roquefort?

R: Mais suor na esteira.

Continuação:

O homem pergunta à esposa (que não pode falar por si…):

– E aí amor, você vai querer o quê?

E a mulher, magra, fina, resignada, assustada, decepcionada, triste e frustrada responde:

– Pra mim uma saladinha já tá ótimo.

Bizarro, não? A UNIMED LONDRINA tornou tudo isso realidade para o nosso deturpado deleite:

unimed lonfrina

DEU RUUIM, Unimed Londrina!!!

(Temos um contratempo: ninguém gostou do vídeo e ele foi removido. Mas o que acontecia no vídeo era exatamente como eu narrei)

Depois disso eles começam a falar sobre o ~EQUILÍBRIO~ necessário para uma vida saudável e blablablablablablablabla

= você tem que se privar de tudo, comer saladinha, se não obedecer tem CASTIGO e é isso que eles chamam de “vida saudável

Uau. Uau.

Toma o troféu pior comercial de 2016, Unimed Londrina.

Isso tudo é TÃO bizarro de TANTAS maneiras que eu nem vou falar da propaganda agora.

Rebobina e volta na jovem.

A mulher. Magra. Bela, recatada, do lar. Minúscula no seu tamanho, voz e gestos:

Uma mulher que se DIMINUIR mais, vai sumir.

Eu assisti esse comercial algumas vezes… E eu senti MUITO pela mulher sentada à mesa.

Ok. É um comercial, ela está interpretando, nada disso é de verdade…

Nada disso é verdade? Mesmo?

Quantas mulheres saladinha existem pelo Brasil, pelo mundo? Centenas? Milhares?

Se privando, se pesando, se medindo, se purgando, se castigando, se maltratando?

Escravas da balança, das calorias e das folhas de alface?

E quantas mulheres que não são a mulher saladinha, mas acreditam que se fossem, seriam finalmente felizes?

“Mulher come que nem um passarinho.”

Cabelo longo, tingido, tratado com progressiva, roupa social da melhor loja nº38, unhas feitas, scarpin envernizado, carro do ano, bolsa cara, maquiagem da melhor qualidade, adornos banhados à ouro…

O QUE TE FALTA, mulher saladinha?!

Mulher comedida. Disciplinada. Exemplo de profissional, esposa, mãe. Mulher obediente, mulher tolhida… Mulher faminta.

(Se a gente pudesse ver por dentro das pessoas…)

Por que você tem medo de engordar, mulher saladinha?

Por que você quer emagrecer, mulher gordinha?

“…É a saúde.”

“Excesso de peso pode causar doença. Hipertensão, diabetes, cardiopatia… Tem que se cuidar. Viver com equilíbrio. É por isso.” (vide propaganda ^^^^)

Vamos ter uma conversa em particular, ok? Ninguém sabe que VOCÊ está aí do outro lado da tela.

Não é a saúde… Certo?

Eu sei disso, você sabe disso.

Você tem que contar calorias, comer um volume ridículo de comida diante dos colegas de trabalho para demonstrar a sua disciplina… Depois come um pacote de bolacha inteiro no carro. Chora. Vomita. Corre na esteira até pisar o pé no chão e o mundo rodar. O espelho. Não tá bom, não tá bom, não tá bom! Você pre-ci-sa perder os dois quilos. Sempre os dois quilos.

Você não pensa na sua pressão sanguínea nessa hora, pensa?

Sejamos escancaradamente francas:

– Você não se importaria em injetar insulina na barriga todos os dias… Se pudesse ser magra.

– Você não se importaria em comer comida sem tempero … Se pudesse ser magra.

– Você não se importaria em tomar remédio pelo resto da vida… Se pudesse ser magra.

– Você não se importaria com uma ponte de safena… Se pudesse ser magra.

Estamos falando de ser magra como você já é? Não!!

Sobra culote, falta peito, sobra celulite, falta definição muscular.

Você não está fazendo a manutenção da sua saúde.

O fato: Você não quer este corpo.

Seu corpo PRECISA ser “melhor” do que o das outras. Foi assim que ensinaram.

A autoestima de uma depende de desmantelar a autoestima da outra.

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As outras mulheres são inimigas. Você repara nelas em todos os lugares que você vai.

Quem tem o melhor cabelo?

Quem veste as melhores roupas?

Quem é a mais magra?

(não tem ninguém aqui… ninguém vai saber que você participa desse desprestigiado ritual feminino. Você não está sozinha. As outras também fazem.)

Por que você está triste porque engordou, mulher saladinha?

Não é a glicemia. Não é a capacidade respiratória. Não são os hormônios. Não é a pressão sanguínea.

É porque você não quer comprar roupas maiores. 

É porque você não quer visitar a casa da sua mãe… porque todo mundo vai te olhar torto.

É porque você vai precisar usar vestido para disfarçar o corpo e está rezando para que ninguém perceba seus quilos a mais.

É porque o fato de ter engordado denuncia a sua indisciplina, o seu fracasso… sua incapacidade de se manter minúscula, o dever de toda mulher.

Você tem FOME, mulher saladinha.

Fome de liberdade.

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15 ideias sobre “Um Jantar no Inferno (mulher saladinha)

  1. Não sou Exposição. Autor do post

    Fico muito feliz, Izabela!! Esse é o meu objetivo com as minhas pacientes 🙂 …. Parar de querer fazer dieta/mudar o corpo, viver em ALIANÇA com ele, não em guerra… Faz toda a diferença! Adorei seu depoimento.

  2. Izabela

    Texto muito tocante, depois que conheci o blog, em uma época de muita tristeza e percalços em que tudo de ruim que sentia era descontado na frustração com meu próprio corpo que era, em minha cabeça cheia de ideias de autoimagem deturpadas, mais um fator de dor e frustração (sendo que ele é quem mais sofria as consequências de todas essa dor emocional), comecei a me olhar com mais carinho, com mais respeito por tudo que esse mesmo corpo me proporcionou e proporciona, pelos abraços que ele recebe cheios de afeto, porque ele me permite expressar meu amor pelos amigos e família.
    Desde então, e desde que parei de querer fazer meu corpo se adaptar a rotinas chatas e exageradas de pseudo-comidas saudáveis (frango é bom, batata doce é uma delícia, mas comer só isso é terrível) melhorei a autoestima e, pra minha enorme surpresa, perdi peso! Sim, em 7 meses perdi 6 quilos comendo bem, tanto os nutrientes que meu corpo pede quanto as guloseimas que às vezes parecem me chamar. Ter chocolate sempre em casa deixou de ser proibido e as vontades loucas de me encher dele passaram agora que sei que ele está ali, na gaveta, esperando quando eu quiser, e que comê-lo não é pecado, não é “me encher de lixo”, não é errado.
    Enfim, obrigada por mais um texto inspirador e cheio de carinho.

  3. Heloisa Carvalho

    Segundo o plano de saúde isso é humor! Que comercial péssimo… Eles poderiam promover a campanha de TANTAS formas, mas preferiram ir pelo óbvio e ridículo. Não poder comer o que dá vontade porque depois você VAI TER QUE fazer AINDA MAIS exercícios físicos é muito saudável, sim… Pode confiar!

  4. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Alana! Não está “errado”… Passamos por um treino, nos ensinaram que era assim. Mas podemos empregar senso crítico (e nossos recursos internos) para detectar a situação e começar a agir diferente 🙂

  5. Alana

    Você escreveu sobre o que sinto e omito….tentando mentir para mim mesma sobre os motivos pelos quais acho que preciso emagrecer…obrigada…busco forças no seu site, embora saiba que meus sentimentos estão errados é tão difícil mudar, sei que é errado pensar assim mas o sentimento é um fantasma que assombra sempre…

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