O mito da liberdade feminina

O texto de hoje é da Thaiana Vaz Cutini, psicóloga parceira do NSE.

Somos livres.

Sim, mulheres podem ser o que quiserem. Não é esse o lema de 2016?

Vemos essa mensagem em propagandas (nossa, que coincidência não é? #ironia), em páginas feministas, no facebook inteiro sendo divulgadas a todo instante.


Podemos escolher o que quisermos.

Ser mãe, não ser mãe…. trabalhar em casa, não trabalhar.

Mas será mesmo que somos livres?

Eu digo que a prisão moderna da mulher hoje é outra. Aliás, são várias.

Dentre elas, falo da perfeição.

Sim.  Somos condicionadas a correr atrás da perfeição. O tempo inteiro, a vida inteira.

Essa cobrança nem sempre é aparente, mas ela aparece quando dizemos pras nossas meninas coisas como:

“Senta direito, isso não é jeito de menina sentar”

(Mas qual é o jeito de menina sentar?)

“Ajeita esse cabelo!’

“Nossa, você vai sair com essa roupa?”

(Qual o problema?)

“Não arranjou namorado ainda? Nossa, vai ficar pra titia”

(De novo, qual o problema?)

“Não arranjou marido ainda?”

“Vai casar já? Mas tá nova!”

“Não quer ter filho? Até parece, você está confusa!”

“4 filhos? Você está louca? É muito!”

“Vai trabalhar o dia inteiro? E os filhos? Ah, não tem? Nossa, mas você é egoísta, hein?”

(Sou sim. Egoísta. Ainda bem né. Imagina viver pros outros, que tormento!)

Alisa. Encolhe. Estica.

Baixa demais: salto.

Alta demais… tudo bem, é altura de modelo.

Mas se for demais, ai não… parece girafa.

pressure

Cabelo liso? Ai sim!

Alisou? Vixi, você é fútil.

Cabelo cacheado? Por que não alisou? É mais bonito assim.

Magra demais não pode… coloca um silicone ai, homem gosta de carne.

Gorda? Não, credo, sua saúde…emagrece aí! Nenhum homem vai te querer.

Faz lipo. Tira peito. Bota peito. Pinta o cabelo.

(Já repararam que em todo anúncio, as mulheres sempre estão sorrindo e felizes?)

A mensagem é que temos que nos importar o tempo inteiro com dizem e pensam porque “não pode ficar falada, imagina?”. Tem que agradar os outros.

Todo mundo liga pra vida das mulheres, quando é pra falar mal….

Depois perguntam por que mulheres sofrem tanto de ansiedade e depressão.

Mas é claro, somos tolhidas desde sempre!

Se não pelos pais, pela escola, pelos professores, pela sociedade…

Mulheres são ensinadas a se adequarem às expectativas dos outros.

(Seja sexy. O tempo inteiro.)

Não podemos demais. Podemos um pouco. Desde que seja o que os outros queiram também.

Não queira demais, queira algo. Mas queira o algo que te dizem que você pode querer.

Tenha consideração pelos outros.

Não fale assim, isso é ser grosseira, mesmo que você só estiver sendo sincera.

Não fale o que pensa, isso é falta de educação.

Nossa, que grossa você, hein?

…Parece macho.

As mensagens são confusas demais… e como na maioria das vezes não tomamos consciência dessa máquina de produzir loucura moderna, não notamos como isso nos afeta.

E acreditem: afeta!

Mulheres geralmente são mais recolhidas, têm mais medo de se expor (e com razão!) e se importam via de regra muito mais com a opinião alheia. Mas é claro! Somos domínio público desde nascidas. E quando fugimos disso… ihhh, ai é pedra pra todo lado.

“Aquela piriguete, aquela fácil… aquela mulher nojenta.”

Parece que só o fato de ser mulher já dá direito ao mundo direito de dizer e fazer o que querem com a gente.

A saída não é fácil, mas é possível!

Conscientizar-se que essas forças nos atravessam o tempo inteiro. Perceber quando aquela vozinha interna aparece dizendo “você não pode” e parar pra pensar “por que não posso?” e “será mesmo?”

Não é fácil, mas aos poucos é possível ir se libertando dessas amarras para poder viver de fato uma vida plena de sua escolha.

Faça por você e por todas nós, suas amigas, irmãs, filhas…

Thaiana Vaz

Thaiana Vaz Cutini

 

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2 ideias sobre “O mito da liberdade feminina

  1. Heloisa Carvalho

    E ainda tem muita gente que acha que já somos livres por ter conquistado alguns direitos básicos (poder votar, poder trabalhar fora…), mas nossa liberdade ainda é um mito. É como se a mulher fosse um ser “do mundo”, como se todos pudessem nos analisar e opinar sobre nossas decisões. Sem contar que muitas vezes tomamos escolhas acreditando ser livres, mas estamos apenas indo com o senso comum.
    “Não é fácil, mas aos poucos é possível ir se libertando dessas amarras para poder viver de fato uma vida plena de sua escolha”.

  2. Alessandra Odorizzi Giorfi

    Estou rindo pra não chorar do post. É assim mesmo! Temos que ser lindas, maravilhosas, magras, saradas, boas mães, boas donas de casa, excelentes profissionais, bem sucedidas. Em suma: apenas perfeitas!

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