RESPEITE o mimimi

Todo mundo tira sarro do mimimi. E usa isso como argumento para invalidar a opinião ou o sentimento de alguém.

Todo mundo menospreza o que você diz, os seus sentimentos e sua situação de vida dizendo mimimi”. Todo mundo ridiculariza a sua opinião argumentando “mimimi”
(ou “recalque”… mas isso fica pra outro dia)

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(Eu nunca vivi: esse preconceito, esse sentimento ou esse sofrimento, ou esse problema)

Mas aqui estou eu para perguntar:

Por que o mimimi é tão rechaçado?

Por que não gostamos que nos digam mimimi?

Por que quando alguém nos acusa de estar fazendo “mimimi”, sentimos vontade de nos defender e explicar que NÃO ESTAMOS de mimimi?

Bora lá.

Normalmente, o mimimi é uma maneira jocosa e pejorativa de se referir a queixas, sofrimento e problemas.

Quantas vezes você já viu gente falando:

“Pare de chorar as pitangas, pare de mimimi, faça uma DECISÃO e tome as rédeas da sua vida!”

“Odeio gente que fica resmungando e não faz nada para mudar a própria situação. Essa é a diferença entre vencedores e perdedores.”

“Largue de ser vítima, pare de mimimi!”

“Você fica aí de mimimi por causa de besteira e as crianças estão morrendo de fome no Sri Lanka”

(por incrível que pareça, não existe escala de dor emocional. Porque dor é uma experiência pessoal e o que não significa NADA para alguém pode ser fator de grande sofrimento para o outro… Citar uma “dor maior” ou a história de vida de OUTRA pessoa que conquistou o SUCESSO não anula a dor do próximo)

“Olhe o Steve Jobs, que p*ta guerreiro, ele tinha tudo contra ele, mas ele ~seguiu seus sonhos~ e chegou ao ápice do sucesso”
(Legal, ótimo. Eu não sou o Steve Jobs)

Mimimi é tabu porque a sociedade é hedonista e o sofrimento não é bem vindo.

O sofrimento (ou a queixa sobre ele) está manchando a nossa fantasia de sorrisos, baladas, mantras contemporâneos (deixe de lado suas DESCULPAS!) e a hipervalorização da alegria, da euforia e do desejo de VENCER (o mundo é dividido entre vencedores e perdedores, certo?)

Assista a este vídeo (mas assista mesmo!):

…Ruim, né?

Ele tenta tenta tenta tenta tenta enquadrar a vida dentro da ditadura da propaganda de margarina, e na primeira vez que ele menciona “a minha vida é uma droga”Todos viram-lhe as costas.

Eu costumo dizer que a sociedade contemporânea está fundamentada numa tríade: beleza, magreza e juventude.

Mas esse tripé pode bem ser uma mesa. Porque a sociedade nos pressiona para que sejamos Belos, Magros, Jovens e FELIZES.

tripé mesa

Eu costumo me comunicar através de analogias estranhas, então vou fazer uma analogia estranha. Eu vou falar sobre um incômodo que faz parte da vida de todas as mulheres. O período menstrual.

Observe este anúncio do Século XIX:

Incomodos

Talvez você não consiga ler o texto (pertinaz incomodo uterino), mas o cabeçalho é claro: Incommodos de Senhoras”

Vê a mulher no anúncio? Ela não está FELIZ, certo?

Antes do século XX, os anúncios focavam em apresentar produtos e serviços para aliviar o seu INCÔMODO.

Agora compare com este anúncio do primeiro absorvente descartável, Modess, da década de 50:

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Ela é moderna. Ela sabe viver.

Ela se aventura pela vida andando de motoneta, descolada, feliz.

O INCÔMODO foi embora? Claro que não!!! Mas não falemos sobre ele. É inconveniente. É chato (“o mundo tá chato”, lembra?). Não é jovem. Não é irreverente.

Já na metade do século XX, os anúncios passaram a focar nos serviços e produtos que deixam o público MUITO SATISFEITO …e a partir daí não vimos mais propagandas sem representações de liberdade, sorrisos simétricos e brancos, conforto, irreverência, prazer.

A questão não é o problema que você tem, mas sim: a MARAVILHA que será sua vida quando você investir no serviço.

Então pegue a cólica, o corrimento, as manchas, a vontade de chorar, o mau humor, a dor no corpo…E ENFIE EMBAIXO DO TAPETE. Engula. Largue de mimimi.

2016? Não preciso comentar nada:

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(ADORO menstruar, Mdss!)

Certa vez, conversei com um rapaz que estava tirando sarro da namorada porque ela afirmava que a cólica menstrual era a “pior dor do mundo”. Ele me falou que ela era uma grande fresca e deveria parar de ser such a Drama Queen.

Ele já passou por isso? Ele entende como é essa dor? Ele entende como é essa dor PARA ELA?

…Não, né?

Ele também não sabe o que é ISTO:

Dificuldade imensa para aceitar seu corpo.

Ou para ter uma relação harmônica com a comida.

Depressão, pânico, ansiedade.

Não. Aí ele diz que é “mimimi”

Olha… Eu tenho um palpite: a obrigação de ser feliz nos deixa doentes. E miseravelmente tristes.

Existem pessoas que comeram livros de autoajuda e vomitam a solução para os problemas que você tem na vida como um decisão, um rompante de “força de vontade”, se desfazer definitivamente da posição de vítma, conectar com as GOOD VIBES DO UNIVERSO.

Lembra do vídeo que eu postei ali em cima?? Quando você não é good vibes, você é um chato. Não te queremos! Descurtir.

Esse tipo de discurso (que está em todo lugar) te convence a menosprezar o seu próprio problema.

 

(Obstáculos são desafios para vencedores e DESCULPAS para perdedores)

Existem obstáculos que VERDADEIRAMENTE são obstáculos. Mas o que te fazem pensar?

“Isso não é nada, eu posso vencer sozinho, OLHA O STEVE JOBS, eu vou superar isso porque a história da minha vida depende somente de mim, eu não vou sofrer.”

Esse pensamento mastigado do vencedor inabalável faz muita gente ficar com vergonha de pedir ajuda e até postergar um tratamento necessário.

1) NÃO: não depende só de você. Depende do seu entorno, suas crenças, sua criação, o que você pensa (ou foi ensinado a pensar sobre si mesmo), dos RECURSOS que você tem para resolver o problema. E isso tudo pode ser muito, muito difícil.

2) Não dá para ESCOLHER não sofrer. O sofrimento é uma raiz negra impregnada no seu coração que precisa ser retirada com devida técnica e cuidado. Você pode sorrir, fingir que ele não existe, MENOSPREZÁ-LO (porque os cuspidores de autoajuda de plantão te disseram que o seu sofrimento é uma bobagem e não é importante)… E então você vai somatizar.

Com enxaqueca, sangramento de intestino, câncer, ansiedade, depressão, pânico, humor agressivo
(
Rá! Sua destemperada, louca!), alergia na pele, insônia, falta de motivação, bloqueio criativo, aftas, queda de cabelo, compulsão alimentar, automutilação…

O sofrimento que você enfia embaixo do tapete porque você TEM QUE ser ‘Sempre Livre’ vai se manifestar de alguma maneira.

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(Vou fingir que não estou te ouvindo…)

Cultura do mimimi é hedonismo. É a cultura da obrigação de ser descolado e feliz. É a forte crença na ideia de que a vida tem que ser igual ao Newsfeed do Intagram. E com filtro.

Tô dizendo que você não pode ou não deve fazer NADA a respeito? Tô dizendo para você abraçar um travesseiro e deitar na cama, mergulhando no ardor do sofrimento?

NÃO!

Estou dizendo que você tem que RESPEITAR o “mimimi”!! Porque respeitar, aceitar e acolher nossas necessidades e dores faz parte da experiência humana.

Nós sofremos o triplo porque achamos que a vida DEVE (ou deveria) ser igual à propaganda da Doriana. Então a tristeza é um sentimento aberrante, um sentimento que não poderia existir na nossa vida…

Deveríamos ser iguais às pessoas das propagandas de previdência privada de banco!!!

O que está acontecendo?!

Eu sugiro a leitura do livro “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde e/ou assistir ao filme “O Libertino”, estrelado por Johnny Depp (2004)

São duas narrativas incríveis sobre o hedonismo. E sobre como um ser humano que opta unicamente pelo prazer e pela felicidade acaba MAL.

Eu não cuspo autoajuda.

É possível tratar um problema que te cause um sofrimento profundo e doloroso (o tal do mimimi)?

Sim, é.

É possível arrancar a raiz negra do coração?

Sim, é.

Existe felicidade?

Sim, existe. [mas não é o Frenesi do Instagram…]

Mas isso tudo não vai acontecer porque você ouviu frases de efeito como “tome as rédeas da sua vida”, “largue as desculpas e tome vergonha na cara”, “pare de mimimi porque você não é uma vítima”

Quer saber? VOCÊ É uma vítima. Nós somos. Porque a vida É bandida. E a situação que você está passando É uma M*RDA.

(pronto, faleeeeeeeeeeei, mundo-margarina!!)

Todos nós somos vítimas de uma sociedade implacável que esconde toda a dor humana no quartinho de despejo e nos mostra o prazer, os bens, a felicidade eterna e a perfeição que não podemos ter.

A TRISTEZA EXISTE. E faz parte de ser humano. E não podemos fingir que ela não existe. Porque quanto mais “pancake” você tentar colocar em cima dela, pior ficará a sua angústia.

Cartola dizia que “O Mundo é um Moinho”

Sou Católica e uma das orações que faço menciona que o mundo é um “Vale de lágrimas”

E é.

Solidão é lava
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo…

Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão…

HONRE as suas lágrimas. Não desrespeite a dor no seu peito. Não ache que você NÃO PODE se sentir assim porque você deveria ser a moça de cabelos flutuantes da L’Oreal.

O mundo inteiro pode dizer que você está de mimimi. Mas VOCÊ deve tratar a sua dor com o devido respeito.

Dito isso, como lidar, como conviver, como tratar?

TEM tratamento.

Mas a trajetória não é nos moldes Modess.

A trajetória é, na realidade, estilo  Incommodos de Senhora.

Me explico?

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Não é simples, não é rápido, não é indolor (Ah, mas não é meesmo!)

Talvez você precise de um psiquiatra, e tomar medicação. Talvez você não se adeque à medicação e tenha que tentar acertá-la duas, três, quatro vezes. E durante esse processo, você pode ter tontura, náusea, dor de cabeça, alucinações, engordar, emagrecer, ir pro “fundo do poço”. Cada medicação leva ao menos uns 15 dias para surtir algum efeito. Todo esse processo demora? Demora. É ruim? Sim.

Você vai precisar de tratamento psicológico e você vai precisar encarar HORRORES de frente. Viver sentimentos que QUEIMAM o corpo por fora e por dentro. Isso vai te fazer chorar. Muito. Você vai ter que tocar na ferida, e mais do que isso, olhar para ela. E suportar o que você viu.

Mas melhora. Demora e dói, mas melhora.

Tá vendo esse escuro em volta de você? Essas paredes cobertas de limo nas quais você não consegue nem se agarrar? Tá sentindo as centenas de baratas e serpentes rastejando aí no chão que você não enxerga?

Você vai sair dele.

Você VAI sair.

E quando você sair dele, você será um monstro de força. Vai poder contar para as pessoas que você conseguiu sair de lá de dentro. E vai poder jogar corda para outras pessoas que se encontram em buracos.

Vai dar vontade de desistir? Vai. Vai dar revolta contra a Vida, os Céus e a Terra? Vai.

Você vai mandar o STEVE JOBS à merda? Vai.

[desculpa. Eu não cuspo autoajuda]

Não desista, siga em frente mesmo sem querer e sem ver sentido, tenha esperança. Perceba que A DOR do processo não te mata, perceba que você pode viver mais um dia. Faça um resgate mental dos momentos que foram muito, muito piores… Você caminhou, não?

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Diante dos pratos gourmet, dos casais perfeitos, das viagens libertadoras, do amigo descoladão que salta de ultraleve, das tardes de sol na praia, das GATAS que postam foto de biquinho sempre no melhor ângulo, das estradas vazias feitas para o BMW vermelho deslizar como uma centelha de sonho, dos sorrisos, sorrisos, sorrisos, hashtags divertidas, empregos dos sonhos, vidas REALIZADAS, maternidade sem aborrecimento, festas, luzes, dança, amizades sólidas e verdadeiras, corpos “perfeitos”, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, referenciais de SUCESSO

Diante da imagem de VENCEDORES FELIZES que escondem os seus entulhos dentro de um baú negro offline.

Diante de tudo isso, te digo com reverência e seriedade:

Respeite o SEU mimimi.

 

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6 ideias sobre “RESPEITE o mimimi

  1. Luciana

    Eu nunca tive rede social, e não me arrependo. Mas, se dependesse da reação das pessoas quando digo que nunca tive, estaria na pior. Sou tratada como um ser antissocial e excêntrico (haja!). Quanto aos amigos, tenho um a quem confio minhas angústias e alegrias todas – ninguém mais.

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