Sou NEGRA com cabelo crespo LINDO!

Bem, já estou uns 10 minutos tentando escrever esse depoimento que relata um tema nada fácil de lidar que é o racismo. Eu fui procurar ajuda de um psicólogo por causas de algumas situações das quais eu estava vivendo (nenhuma delas era sobre o racismo). E ao longo da sessão o psicólogo me perguntou se já havia sofrido racismo, pois minha linguagem corporal dava indícios de que havia alguma coisa errada. E imediatamente eu falei que NÃO porque na minha cabeça racismo era só quando alguém chamava o negro de macaco ou o prendia por achar que ele era bandido.

Mas foi esclarecido para mim que outras situações do cotidiano que são vistas como normais não são tão normais assim, por exemplo, chamar uma negra de mulata (sabe o que significa mulata? Significa mula, ou seja, o ser humano fruto de uma relação entre um branco e um negro é chamado de mula em analogia ao cruzamento do burro com o cavalo, sendo o cavalo um animal nobre e dentro deste contexto o branco seria o nobre e considerado ser humano enquanto o negro seria de uma espécie diferente e inferior), chamar os negros de morenos/moreninhos, os serviços de base (empregada domestica, porteiro, segurança, faxineiro) ser predominante composto por negros, enquanto os trabalhos que requerem faculdade ser exercido majoritariamente por brancos (quantas vezes você foi atendida (o) por um médico negro?).

Periferia ser composta por negros, bairros ricos ser compostos por brancos, maioria dos ricos são brancos e maioria dos negros são pobres.

Mas algo ainda mais sutil foi que me levou a sofrer racismo. Foi o meu cabelo!!! Desde criança fui forçada a passar química para deixar meus cabelos lisos e eu cresci acreditando que o cabelo liso é o mais bonito e o meu que é crespo é feio (e eu acreditava, quando criança, que só podia ter sido amaldiçoada pela natureza por ter nascido com cabelo daquele jeito…se todo mundo tinha um cabelo liso porque eu também não nasci assim?!!).


(Por favor: Reserve 15 minutos da sua atenção para este vídeo)

E foi com xingamentos de outros contra meu cabelo e constantes alisamentos que minha autoestima que ainda estava sendo construída foi se esvaindo ao ponto de eu olhar no espelho e nem saber quem eu era de verdade. Foram muitos anos de química, muitos mesmo com direito a feridas da cabeça, quedas excessivas de cabelo e mal-estar por conta do cheiro da progressiva. E num momento de sofrimento eu resolvi me escutar e para definitivamente com algo que não me fazia bem.

Passei pelo processo de transição capilar, onde deixei o cabelo natural crescer sem química e hoje uso ele natural. O processo de transição capilar não é nada fácil e requer muita paciência, desenvolvimento de autoestima e resistência para saber lidar com todas as criticas quem vêm. Entretanto, posso dizer que vale muito a pena, com o acompanhamento do psicólogo e o processo de transição eu desenvolvi meu amor próprio e me aceitei do jeito que sou. Construí minha identidade:

SOU NEGRA COM CABELO CRESPO LINDO!!!

Racismo é um assunto muito sério!!! E os negros que sofreram racismo precisam procurar ajuda, pois o racismo prejudica nossa construção de identidade e autoestima e ao longo do todo tempo isso pode trazer muitos problemas. Não, não é fácil procurar ajuda e admitir que algo de errado está acontecendo, admitir que você é desvalorizado por causa da sua cor de pele, mas é preciso encarar esse assunto para descobrirmos que somos muito mais que o padrão imposto pela sociedade. Que nós não somos errados por sermos negros (afinal isso é natural) e sim a sociedade que criou valores deturpados.


(Só mais um pouco… 3 minutos obrigatórios!)

Bem, é isso! Espero que esse depoimento possa despertar reflexões e questionamentos em vocês, pois nem tudo é natural, mas sim construído!!!

(Relato de uma leitora muito querida ❤ , que preferiu não se identificar)

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