Quatro amigas e um cirurgião plástico

Thaiana Vaz(Mulheres Que se Transformam)

Outro dia eu saí para jantar e fui em um restaurante que gosto muito. Era uma quarta ou quinta feira pelo que me lembre e o lugar estava razoavelmente vazio. Acho que tinham 4 ou 5 mesas.

Estava eu saboreando minha comida deliciosa (bota delícia nisso!) quando ouvi por acidente uma voz feminina dizer “Ah, mas ele é ótimo. Minha amiga fez lipo com ele e ficou linda”.

Olho para o lado (sim, sou dessas) e vejo na mesa ao lado 4 moças que não deviam ter nem 30 anos, super bem vestidas e todas muito bonitas se formos considerar o padrão de beleza atual, resumindo, magras, loiras (ou quase), do cabelo liso, comprido e todo aquele blablabla que já expliquei antes.

(Recapitulando brevemente pra quem perdeu)

A nossa noção de beleza é pautada em um padrão e ele está aí em tudo quanto é lugar, basta observar. “Belo” quer dizer de acordo com a norma ou o mais próximo possível dela.

Em anúncios, novela, séries de TV, filmes, revistas, capas de revistas/anúncios, propagandas, o que vemos é a reprodução da mesma imagem: mulher objeto de consumo e desejo, sendo ela, claro, a moça magra, loira, caucasiana, de preferência bronzeada e alta. É um estereótipo que se propagada como o da gordinha-engraçada e mulher feia-inteligente. Pode reparar, a maioria das novelas trabalha com essas imagens e discursos sobre a mulher, como se tivéssemos que ser um ou o outro.

(conceito contemporâneo de “beleza”)

No geral, a magreza é algo que buscamos desesperadamente, seja no menor porcentual de gordura possível, o braço fininho, o corpo desproporcional.

Digo desproporcional porque até queremos a gordura desde que seja nos lugares certos. Ter busto e bumbum avantajado é algo positivo, desde que seja super empinado, definido e o resto seja seco. É o famoso “padrão panicat”. Magro, definido, sarado, magro.

(Conceito contemporâneo de “beleza” – Versão 2.0 )

Você pode ser sarada, desde que não tenha gordura ou tenha pouquíssima.

Você pode ser baixinha e ter o corpo curvilíneo, desde que seja magra.

Você pode ter curvas, desde que não sejam muitas e sejam nos lugares ‘certos’.

É absurdo na verdade.

(Fim do resumo)

Bem, voltando à cena que estava descrevendo.

A discussão se segue da seguinte forma (que eu me lembre foi mais ou menos isso, claro ;D)

A) Nossa, realmente, já ouvi muito falar dele. Eu sou louca pra fazer uma lipo!

B) Ai, eu também queria fazer, mas vou esperar eu ter filho, eu acho. Ai faço a geral logo sabe?

C) E o melhor é que ele é muito sincero sabe. Fulana foi lá e ele disse que não ia fazer o que ela queria porque não tinha necessidade e não ia ficar bonito.

D) Nossa, muito sincero mesmo, imagina falar isso !

Acho que vocês entenderam meu ponto.

Lá estavam quatro jovens, bonitas, bem de vida (pelo que eu pude perceber todas tinham profissões e trabalhavam, sendo assim, deviam ter uma condição financeira razoável já que estavam em um restaurante um tanto quanto $$$$$), com tudo a seu favor e um futuro pela frente falando sobre… plástica.

(gorda, inútil, feia)

Se vocês se lembram, recentemente ultrapassamos os EUA e nos tornamos o país onde mais se realizam cirurgias plásticas. Não estou com isso demonizando a prática, acho que existem casos e casos e que a plástica pode ser algo extremamente positivo, como cirurgias reparadoras de seio para mulheres que tiveram câncer, entre muitas outras situações.

O que preocupa é a escala. Veja bem, é muita mulher colocando silicone, fazendo lipo e afins… É muito corpo e muito “conserto” que nem sempre são necessários.

Eu arrisco dizer que na maioria das vezes, essas meninas e mulheres querem se sentir bem com o próprio corpo, querem se sentir bonitas, querem ter uma auto estima melhor. A cirurgia aparece então como uma solução imediata, um conserto e tudo vai dar certo na minha vida.

Mas quem garante que isso é verdade? Ou que a cirurgia é sempre a melhor opção?

Eu lembro que na minha época de escola, quando eu tinha por volta dos 17 anos, 3 colegas minhas de sala já tinham colocado ou iam colocar silicone17 anos, repito.

Agora voltando ao caso acima, pense que estou falando de mulheres que mesmo estando dentro do padrão estão querendo se modificar. Imagine as que não estão!

Agora pense no dinheiro que elas vão investir, além do tempo que poderia ser gasto com algo mais duradouro, mais saudável.

Esse é o tamanho da pressão que nós mulheres sofremos todos os dias.

Agora pense se ao invés dessas mulheres investirem tanto em cirurgias, elas investissem em ter tempo e energia para perseguir suas metas, fossem elas financeiras, profissionais, de relacionamento e etc. Se investissem em cursos, formação, em um processo psicoterapêutico, uma viagem, um retiro, tempo com familiares… enfim, algo que acrescentasse mais que aparência.

É preciso urgentemente repensar a maneira com a qual nos relacionamos com o nosso corpo ou corremos o risco de ficar presas eternamente numa corrida sem fim (e sem ganhadoras) rumo ao “corpo perfeito”, “aparência ideal”, melhorias e “consertos” intermináveis.

(Atingir o inatingível?)

Tire um tempinho e pense, é isso que você quer pra você?

Se sim, tudo bem. É seu direito de escolher.

Só peço que seja uma escolha consciente.

Texto de Thaiana Vaz Cutini.

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