Somos todas Bruxas. (ou meu Brainstorm Infinito)

NÃO SE PREOCUPE: este texto não contém nenhum Spoiler. Não sou dessas.

Ontem eu fui ao cinema assistir ao filme “A Bruxa”. O filme retrata o cotidiano de uma família de imigrantes protestantes durante o período colonial nos Estados Unidos (Séc. XVII) tudo isso é permeado por acontecimentos estranhos que levam a família a cogitar a influência maligna de uma bruxa na localidade em que vivem.

Eu gostei do filme. Tenho certeza que muita gente que me lê assistiu e não gostou… Mas é o tipo de filme “ame ou odeie”. Não há como gostar “mais ou menos”.

Eu gostei por diversas razões. Pela ampla reconstituição histórica das comunidades puritanas nos Estados Unidos durante o período colonial. Porque todos os atores são BONS (inclusive as crianças…), porque eu fiquei intrigada e envolvida pela história.

(quando eu assisto um filme e eu NÃO ME IMPORTO com o destino ou os sentimentos de nenhum dos personagens, a coisa desanda…)

… Mas principalmente porque quando o filme acabou, a primeira coisa que eu falei não foi “Que droga de filme”.

Mas eu sei perfeitamente que muita gente achou o filme uma droga.

Mas vários detalhes, diálogos, símbolos e representações me suscitaram muitas reflexões. Quando eu fico reflexiva, passo por um Brainstorm Infinito que me faz visualizar TUDO o que eu penso sobre algo de uma vez só. É um engasgo mental. Queria saber se alguém mais passa por isso, ou se é algum tipo de problema que eu tenho.

Eu sofro disso, por exemplo, quando eu vejo uma capa de revista.

(Uma capa de revista)

Eu penso em: valores contemporâneos, culto ao corpo, lipofobia, machismo, representação da mulher, sufragistas, mística feminina, mito da beleza, magreza, dietas, aeróbica, Olivia Newton John, Jane Fonda, Karen Carpenter, padrões de beleza eurocêntricos, desvalorização da cultura nacional, racismo, Brasil, números recordes de cirurgias plásticas realizadas, Doutor Rey é um imbecil, prótese de silicone, sexualização das glândulas mamárias, amamentação, inversão de significados, mercado pornô, Playboy, Carnaval, musas da mídia, cultura de celebridades, perda da privacidade, sociedade da imagem, selfie, espelho de academia, individualismo, musculação, modismos, lactose, glúten, blogueira fitness, pote de whey.

Eu penso em TUDO ISSO AO MESMO TEMPO… Porque eu vi uma capa de revista.

“- Não, não, não!! Ninguém tá VENDO isso?”, me pergunto desesperada, olhando para os lados.

…Mas não. Ninguém tá vendo. Passam. Olham. Seguem.

Eu passo. Olho. Interpreto. Fico sofrendo.

Talvez eu seja meio doida.

VOLTANDO Á BRUXA.

Eu tive um Brainstorm Infinito por causa desse filme. E mesmo horas após ter assistido, eu fiquei pensando nele. Fiquei falando sobre isso incessantemente com o meu namorado (que é todo ouvidos) até que ele disse: “escreva sobre isso no teu Blog”.

Uia. É difícil planificar os meus Brainstorms Infinitos.

Missão dada, missão cumprida. Vejamos se eu consigo…

Eu lembrei da quantidade de comentários que eu recebo no meu texto Sobre o Blog dizendo:

“Como você perde tempo discutindo uma coisa inútil. Sempre foi assim.”

…Sempre foi assim.

Não, colega. Nem sempre foi assim. O corpo da mulher nem sempre foi vigiado, controlado, castigado, domesticado.

“Mulher tem que se dar valor”, “mulher tem que ser elegante e decente”, “A mulher não pode usar roupa curta e decote. Provoca. O homem tem instinto.”, “mulher que dá para todo mundo é piranha”, “moça honrada é pra casar”.

Por que é que o nosso corpo começou a ser visto como um erro? Um corpo revestido de malícia, que tem que ser controlado por pudor, bons modos, cautela? Um dedo fora da linha e…pronto. Você foi vulgar.

Será que o pensamento dominante que fez com que queimar dezenas de mulheres em aldeias protestantes nos Estados Unidos (e na Europa também, a mando da Igreja Católica) no século XVII fosse algo aceitável, normal e legítimo… Não permanece entre nós de forma residual?

Será que dois ou três séculos é um período representativo para que uma cultura desapegue de certos conceitos? Ou considerando todo o curso da humanidade, isso é apenas um sopro?

O corpo da mulher é visto como errado, sujo, provocativoAté hoje.

“Ah, mas nós vemos um monte de mulher pelada diariamente”

Pois é. Só que a mulher pelada aceitável é aquela que foi capturada, processada, direcionada e vendida para o consumo do público heterossexual masculino.

Seios pincelados de glitter no carnaval: Ok.

A mulher que está amamentando seu bebê no ônibus: pouca vergonha.

O corpo da mulher só se torna aceitável se ele for embrulhado, entregue e vendido ao homem.

(Bem assim)

No entanto repito: nem sempre foi assim.

Quando eu fiz meu TCC no final da faculdade (que foi sobre a história do pão), eu precisei estudar bastante sobre a transição do período paleolítico (2 milhões a.C. até 10.000 a.C)  para o neolítico (10 até 6 mil anos a. C. )

Ou simplesmente a passagem da Idade da Pedra Lascada para Idade da Pedra Polida.

No Período Paleolítico, os humanos eram essencialmente coletores e nômades. No período neolítico, o homem se apropriou da semente, descobriu a agricultura e se tornou sedentário. E isso provocou MUITAS DIFERENÇAS no funcionamento das coisas. E nos papéis ocupados por homens e mulheres.

Quando o homem vivia totalmente inserido na natureza, era um coletor e para tudo Dela dependia, as mulheres eram profundamente respeitadas e veneradas. Porque elas tinham o poder de gerar a vida, portanto representavam fertilidade, abundância e fartura.

(A Vênus de Willendorf  é uma estatueta de 11cm que foi encontrada por um arqueólogo na França, às margens do Rio Danúbio em 1908. Calcula-se que ela foi esculpida há cerca de 22 mil anos. Ela tem características sexuais femininas muito pronunciadas – seios, quadril, ventre, genitália – acredita-se que ela representava fertilidade e fartura. Como ela não tem pés e não pode ser apoiada em superfície plana, acredita-se que se tratava de um amuleto ou talismã)

Acreditava-se que a mulher engravidava dos deuses, portanto o homem não identificava o seu papel de inseminador.Nem só de inveja do pênis viveu o mundo. Há milhares de anos, existia a inveja do útero. Porque o útero é a força da vida. E a vida era, para o homem, um mistério não compreendido.

As coisas mudaram no período Neolítico. Porque o homem dominou a agricultura e a natureza passou a estar nas suas mãos. Diversos avanços técnicos aconteceram neste período… cerâmica, cestaria, tecelagem, roda, domesticação de animais e o arado de boi.

Como o homem se tornou sedentário e passou a viver em comunidades fixas, a TERRA se tornou um valor fundamental. Apropriar-se da terra era uma manifestação de poder (e assim é até hoje).

Mas como a coisa funcionava? A grosso modo (e para não deixar o texto mais gigante do que já está), além dos homens e mulheres começarem a cumprir papéis distintos na comunidade (o desbravamento, a caça, a força e a disputa territorial se tornou departamento masculino. As mulheres permaneciam na aldeia realizando tarefas domésticas e criando os filhos) a terra passava a pertencer aos herdeiros de um homem.

Como isso afetou a mulher?

A este ponto, o homem já havia realizado que era ELE quem promovia a concepção. Então desse modo, descobriu-se uma maneira de controlar a mulher. O relacionamento entre o homem e a mulher se tornou monogâmico, a mulher devia ser entregue ao homem virgem pela mão de seu pai, e em seguida, apenas àquele homem pertencer. O adultério era absolutamente proibido porque as mulheres não podiam gerar herdeiros de outros homens, uma vez que a posse da terra estava em jogo.

Esses sistema de dominação e controle da mulher tolheu a sua sexualidade, e, para que o domínio fosse pleno, a sexualidade feminina passou a ser interpretada e representada como uma coisa maligna, suja, negativa… que precisa de rédeas.

Continuemos.

Existem inúmeras maneiras de interpretar o Mito da Criação que predomina na sociedade ocidental (o jardim, a árvore, a serpente, o fruto etc.)… Existe até gente que interpreta literalmente.

(“Adão e Eva”, Tiziano Vecellio)

Uma das interpretações mais interessantes é justamente a prevalência das civilizações agricultoras sedentárias em relação às civilizações nômades e coletoras:

A humanidade vivia no jardim dos prazeres (quando estava completamente imersa na natureza e coexistia com ela – período paleolítico)… A partir do momento em que provou o fruto da árvore do conhecimento (o domínio da semente e das técnicas agrícolas) foi amaldiçoado:

“Comerás o pão com o suor do teu rosto”

A própria natureza que o homem dominou tornou-o escravo: a partir desse momento, para comer é necessário trabalhar. E o castigo do homem é o trabalho sistemático em ordem de sobreviver.

A mulher foi criada a partir de uma costela de Adão. Como a costela é curvilínea, a mulher é naturalmente propensa ao pecado, porque não tem retidão.

A mulher se relaciona com a sexualidade e o prazer em suas diversas naturezas. O prazer é o fruto proibido. Porque afasta o homem do seu trabalho e da sua disciplina, que é seu destino.

A partir daí podemos entender porque a mulher passou de matriarca à feiticeira.

Muitos séculos depois (porque eu não quero escrever um livro, isto é um post) perseguir mulheres se tornou uma prática absolutamente legítima.

O fundamentalismo religioso colocava a mulher em posição inferior à do homem. Porque a mulher, tal como Eva, carrega o pecado. E a mácula da mulher pode corromper o homem.

Princípios para transformar a figura feminina em uma bruxa:

– Todas as feiticeiras são mulheres.

– Todas as feiticeiras são mulheres porque as mulheres têm menor retidão, menor juízo e maior propensão ao pecado, sendo mais vulneráveis à ardilosidade do demônio.

– Como a mulher é inerentemente detentora da luxúria, ela pode copular com a besta e desse modo adquirir poderes malignos, enganosos e inebriantes.

Por esta razão, mais de 100.000 mulheres foram acusadas de feitiçaria na Europa e nos Estados Unidos, torturadas e queimadas vivas.

Estamos em 2016 e ainda carregamos este estigma.

O nosso corpo é castigado pela vergonha, pela culpa e pelo julgamento.

As coisas mudaram muito. Conquistamos o direito ao voto, ao trabalho, à participação ativa na sociedade. Mas não tá certo, certo?

Nós, mulheres, livres, independentes, com domínio da nossa capacidade reprodutiva, e que cada vez mais aceitamos nosso corpo, nossa sexualidade, deixamos de rivalizar com outras mulheres e redescobrimos nosso potencial criador e divino, recuperamos o nosso valor e a harmonia…

Nós que podemos escolher se iremos casar ou não. Ter filhos ou não. Nós que não pertencemos a homem algum e que recusamos permitir que o nosso corpo se torne domínio público.

… Somos bruxas. Feiticeiras. Todas nós.

Só que queimar pessoas em estacas não é permitido.

Resta ao homem (mais especificamente, ao homem babaca), agora com identidade e papel social confusos, nos chamar de: feminazis, putas, piranhas, piriguetes, biscates, vadias, feias.

”Gordas” também.

Mas não falemos sobre como “gorda” se tornou um xingamento.

Deixo para o próximo Brainstorm Infinito.

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5 ideias sobre “Somos todas Bruxas. (ou meu Brainstorm Infinito)

  1. Ananda

    Não gosto do uso da palavra “homem” como sinônimo de ser humano. As mulheres que inventaram a agricultura. Esse uso de vocabulário faz parecer que tudo que os seres humanos criaram/fizeram surgiu da cabeça dos homens (seres do sexo masculino). Faz tempo que não uso “homem” e “ser humano” como sinônimos. Só um toque mesmo

  2. Erika

    Tô batendo palmas aqui!!! Pra quem se interessa em saber um pouquinho sobre essa época que tanto está na moda hj, recomendo o livro Ayla. É ficção, mas é muito bem escrito.

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