UMAS e OUTRAS

Há tempos estou reservando um tempo para discutir sobre uma das tirinhas mais absurdas e controversas que já recebi.

Hoje é Dia Internacional da Mulher, então achei justo discutir sobre “umas e outras”

A imagem foi postada por uma nutricionista que não enxergou nenhuma irregularidade na imagem:

tirinha masmorra

1) Sobre “curtir a gula e a preguiça”:

Os pecados capitais foram instituiídos no Século VI, pelo Papa Gregório Magno. Gula e preguiça fazem parte deles.

(Hieronymus Bosch, “Gula”. Séc. XVI)

Só que por vários séculos, entendia-se que esses vícios de conduta corrompiam o espírito. A retidão das intenções. A alma. A proximidade do homem com o divino.

Se preservar dos pecados capitais era uma atitude importante para educar e fortalecer as virtudes cristãs.

Não se falava em corpo. O intuito, de maneira alguma, era esse.

A temperança é a virtude contrária à gula.

A diligência é a virtude contrária à preguiça.

(Tarô: A Temperança)

Nada disso tem a ver com publicar foto no Instagram.

Em 2016, o bem máximo que temos é o corpo. Devemos cultivá-lo (ou cultuá-lo). A gula e a preguiça nos aproximam do pecado (leia-se: gordura) … E isso corrompe a proximidade do homem com a massa magra. É uma mácula.

(Amém.)

Se preservar da preguiça e da gula é uma atitude imprescindível para alcançar o corpo perfeito.

Quem tem corpo perfeito (de acordo com padrões rígidos e exclusivistas) merece indulgência (não ser julgado pela sociedade), o paraíso, o privilégio…o céu.

(Fiquem avisados de que quem tem “corpo perfeito” perde automaticamente a cabeça)

2) Sobre a umas e a outras:

UMAS: são as “preguiçosas”, sedentárias, portanto gordas, portanto derrotadas, indesejadas e feias.

A tirinha aborda comportamentos extremos. Então o café da manhã da “preguiçosa” é composto de: pãobacon, três linguiças e uma montanha de purê.

Certo.

Deixemos de lado este fato irrealista.

(Ou quem come uma montanha de purê, bacon, pão e três linguiças pela manhã se pronuncie, porque você é uma criatura mitológica que eu desconheço)

A “preguiçosa” dorme até as 8:00, em seguida toma um farto café da manhã antes de sair (deixemos de lado o fato irrealista, repito)

…E é isso que sabemos sobre ela.

Talvez ela durma mais porque faz hora extra no trabalho.

Talvez ela durma mais porque o seu trabalho lhe demanda muito fisicamente.

Talvez ela durma mais porque quando chega em casa, precisa fazer comida e dar banho em três filhos.

Talvez ela durma mais porque, por alguma circunstância pessoal, ela vai dormir mais tarde.

Talvez ela durma mais simplesmente porque tem outras prioridades.

Talvez ela não faça atividade física porque não tem tempo, condições financeiras.

Ou tem vontade mas não consegue incorporar isso na rotina por alguma razão (isso não é uma coisa tão simples. Não basta saber o que deve ser feito. Não basta querer. Mudança de comportamento é uma coisa difícil que exige diversas competências que precisam ser negociadas e trabalhadas com o indivíduo).

Talvez ela tenha vergonha do corpo (fato que não é incomum, visto que a nossa sociedade venera um tipo específico de corpo, diferente do da ampla maioria da população) e não se exercite porque não quer se expor.

Talvez um pouco de tudo isso. Não sabemos.

OUTRAS: são as magras, belas, dedicadas, esforçadas que são “vencedoras” porque transmitem essa mensagem através das suas características físicas.

abdome

(…E SEM CABEÇA!)

Umas estão erradas.

Outras estão certas.

>>>>> ALERTA VERMELHO <<<<<

Eu não estou discriminando magras. Eu não estou dizendo que fazer atividade física não é legal. Eu não estou advogando contra a alimentação saudável. Eu não estou celebrando o consumo de fast food. Eu não estou incentivando a obesidade. Eu não estou blablabla.

>>>>> OBRIGADA <<<<<

Sobre as outras que estão “certas”:

A primeira coisa que eu pensei quando eu vi essa tirinha foi “dieta da masmorra”

Essa expressão veio na minha cabeça automaticamente.

Primeiramente porque na tirinha me pareceu que ela está comendo duas fatias de pão e água. Provavelmente é um café sem açúcar. Mas num primeiro momento eu enxerguei um copo d’água.

Me lembrei de todos os filmes e livros que contêm a frase “Trate o prisioneiro a pão e água”

“O prisioneiro”

…A prisioneira.

A prisioneira da ideia de que a mulher precisa ser magra e portanto, bonita.

Para ser magra, é necessário limitar a alimentação para limitar o tamanho do seu corpo. Limitando o tamanho do corpo, atinge-se uma zona de segurança e conforto: aceitabilidade, privilégio social, o patamar das “belas”.

Prisioneira da mensagem de que a mulher existe para que o seu corpo seja observado pelos outros.

Prisioneira da sensação de que seu corpo é domínio público e todos foram convidados a opinar sobre ele.

Prisioneira do pior tipo de julgamento que existe: o próprio.

Prisioneira da insatisfação.

Prisioneira da necessidade de ser aprovada por terceiros.

A MASMORRA que aprisiona milhares de mulheres num sofrimento inenarrável.

Já cansei de ler, ouvir, testemunhar histórias assim (mentira, eu não cansei. Se eu tivesse cansado eu não manteria o NSE)

…Então voltemos para a moça “CERTA” que se exercita e cuida da “QUALIDADE ALIMENTAR”

Ela acorda às 5:30 da manhã. Corre em jejum.

Às 6:30 ela se mata numa série de exercícios completamente desprovidos de prazer e significado.

(ela não pensa nas coisas legais que um corpo pode FAZER. Dificilmente isso a faz se sentir bem. São apenas movimentos repetitivos que ela faz com obstinação, pensando em quantas calorias está gastando e em quanta gordura está “queimando”… Quando mais o corpo arde, mais ela insiste. No Pain, No Gain)

Até aqui, não observamos alguém que se exercita de forma fisicamente, mentalmente e emocionalmente saudável: é uma autopunição.

Porque desde pequenas, nos ensinaram que temos que sofrer para sermos bonitas.

Em seguida, às 8:00, ela toma um café da manhã composto por um volume de comida limitadíssimo

(e ISSO não é fato irrealista. Infelizmente esse comportamento é muito verdadeiro na realidade de muitas mulheres).

Ok. Comecemos os comentários previsíveis.

Reclamem e digam que isso é “bem estar” e que ela faz isso para “se sentir bem com ela mesma”. 

Eu digo que dificilmente alguém quer acordar às 5:30 da manhã.

Eu digo que dificilmente alguém quer sair de casa sozinho antes do sol nascer para correr em jejum.

Eu digo que dificilmente alguém quer passar uma manhã solitária repetindo a série de exercícios que aprendeu na revista.

 (revistas femininas existem para você se sentir a criatura mais triste, feia, errada e incompleta da face da Terra)

Eu digo que dificilmente alguém quer, depois de ter feito tudo isso, se alimentar de pão e água (…ou café sem açúcar)

A situação final:

UMAS têm inveja do corpo das OUTRAS. São recalcadas e sem força de vontade e não se sacrificam para atingir um corpo esfomeado, fatigado, maltratado, porém BELO diante dos olhos da sociedade.

Será que UMAS estão verdadeiramente interessadas no corpo e na presença das OUTRAS?

Será que as OUTRAS não estão vivendo o famoso “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”?

Será que UMAS não são como as OUTRAS simplesmente porque não têm as mesmas prioridades (ou realidade de vida)?

Será que o comportamento das OUTRAS verdadeiramente significa saúde?

Será que as OUTRAS consideram sua conduta um bem para si mesmas? Ou na verdade é uma batalha que precisam enfrentar em nome do corpo emaciado que desejam, ou melhor, que foram ENSINADAS a desejar?

Eu enxergo: sacrifício, dor, punição, torturaMasmorra.

Como eu já disse, a tirinha aborda comportamentos extremos.

UMAS: não fazem nada e se entopem de comida “não saudável” (conceito que por si só, já é discutível)

OUTRAS: se exercitam loucamente e comem o volume de comida ofertado a um prisioneiro da Idade Média.

Será que não existe um meio termo são, confortável, benéfico e saudável entre UMAS e OUTRAS?

EPÍLOGO

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. É o dia de ouvirmos “parabéns” porque nascemos mulheres (?), recebermos homenagens no Facebook sobre como somos a força da vida, a luz, a graciosidade (Zzzzz……)

É o dia dos gifs de Flores e frases lisonjeiras no Whatsapp.

(Eu não uso salto alto…Comofaz?)

[…embora eu tenha acabado de ver um “Feliz Dia da Costela do Homem”…]

Muitas mulheres lutam por causas muito importantes: direitos da mulher, combate à violência doméstica, combate à violência obstétrica, combate ao assédio sexual…

São muitas as causas.

A minha causa é combater a masmorra.

A masmorra úmida, escura e fria que uma infinidade de mulheres vivenciam quando se posicionam diante do espelho.

#8deMarço #NSE

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 ideias sobre “UMAS e OUTRAS

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