Não perca 20 quilos até o verão

[Texto de Rafael Budni]

Este texto é tão bom, TÃO bom que eu preciso dele reproduzido aqui no NSE. Se você não teve acesso ao texto no site medium.com

Pare. Sente. LEIA.

(Mandamento nº1 de todo gordo: prestar contas de seu peso a toda e qualquer pessoa.)

Desde criança eu tenho zumbido. Um barulho inexistente, mas que eu ouço. Sabe aquele bzzzzzz que você ouve um dia depois de um show ou de uma queima de fogos? Exatamente aquele, só que o tempo todo. É desesperador e preocupante até descobrir que zumbido não causa surdez nem é uma doença: é apenas um sintoma de que algo está errado. Você pode estar perdendo a audição e seu corpo está tentando corrigir a perda. Ou ainda você teve um trauma e barulho fantasma é um sinal disso. Ou pode ser uma simples falta de irrigação sanguínea. O incrível do zumbido é por mais que ele alerte que algo está errado, às vezes não está. Eu já fiz diversos exames para chegar a diagnóstico nenhum. Ou seja: eu tenho zumbido e ele não é um problema. Poucos amigos sabem. Ninguém se incomoda muito menos eu mesmo. Já me incomodei muito, lógico, mas não me incomodo mais.

Mas e se meus amigos ficassem me infernizando pra eu cuidar do meu zumbido? Dizendo que se preocupam comigo, que querem meu bem, que pode não parecer nada mas que é pra eu continuar insistindo e que é só questão de saúde? Sim, seria exagerado, mas não seria a primeira vez.

O MITO DA SAÚDE

Quem está acima do peso (e eu estou e sempre estive) sabe como é essa preocupação alheia. Uma preocupação de outros sobre o seu corpo e sobre sua pele. E por não assumir que aquilo é feio aos olhos delas, nossa sociedade trata de jogar usar a medicina como pretexto. Veja bem, não é pra você emagrecer por estética, mas por saúde. Sinta-se honrado: diversas pessoas, mesmo as que não conhecem você, se preocupam com sua saúde. A saúde é a única desculpa aceitável para controlarem seu peso.

Mas o peso não prova nada. Assim como o zumbido, ele é um sinal de outros fatores. De que você está se alimentando com mais calorias do que gasta. Ou de que possui alguma descompensação hormonal ou metabólica. Seu corpo pode estar retendo líquidos ou você pode ter comido demais no Natal e o seu sono não tem deixado você acordar cedo e seu trabalho não deixa você sair a tempo de fazer academia. Ou muitas outras coisas. Simplesmente porque ninguém ainda sabe explicar muito sobre o peso.

Você pode ter um AVC? Pode. Você pode ter um infarto? Também. Um câncer?Todos podemos. Mas não pelo peso. O sobrepeso não causa doenças, ele é um documento, um registro do seu corpo, de suas atividades. De que algo pode estar errado. O mesmo pode ser aplicado ao contrário: ninguém vai morrer por estar abaixo do peso, mas pelas características que levaram a isso. Sua alimentação, seu sedentarismo, o fato de fumar ou se estressar no trabalho podem causar todas as doenças conhecidas e relacionadas à obesidade. Mas não seu peso. Pois você pode estar com saúde e estar acima do peso.

É por isso que a preocupação social sobre o peso, no geral, não é científica, nem tem a ver com saúde. Pode parecer que é, mas não é.

Ninguém ensina a perder 30 pontos de colesterol em duas semanas. Ninguém tem um truque pra reduzir a glicose até o verão. Ninguém quer saber se o seu ácido úrico subiu 20 pontos depois que você casou. Ninguém vai a academia para melhorar o índice de triglicerídeos. O seu condicionamento físico, sua capacidade respiratória ou cardíaca não valem nada. Porque não são visíveis.

O pânico social que envolve a gordura é sim uma questão estética. Talvez por não suportarmos ver alguém que não malhe tanto, não abra mão de suas comidas favoritas, alguém que não se sacrifique como nós. Ou porque o corpo gordo foi desconstruído nas últimas décadas: antes atraente e desejado agora repulsivo e frígido. Junto com isso entra o inconsciente no qual o gordo é estigmatizado como o preguiçoso, o que falhou em cuidar de si, compulsivo. Crescemos vendo filmes, livros, quadrinhos, novelas com vilões, gente patética e os dignos de pena gordos, enquanto os heróis, os mocinhos e os virtuosos são magros ou fortes.

Andy Dwyer ou Star Lord? Se você não queria no pior (gordo, claro) não merece o melhor.

Ainda que a pressão do peso caia sobre homens e mulheres, são elas quem mais sofrem. Elas que acabam prestando contas de seu peso, induzidas a serem magras (enquanto a gordura masculina é aliviada). As revistas femininas em seu geral falam sobre perder peso. Atente que não é sobre o peso, simplesmente: é sobre o perder peso. Secar até o verão. Recuperar o corpo de antes da gravidez (quando não é a preocupação em ganhar o mínimo de peso possível). Todo programa feminino vai abordar, mais cedo ou mais tarde, a busca pelo corpo dito perfeito (leia-se: magro).

Se o importante é a saúde, por que só falamos do peso?

Alguns chamam todo esse pânico de lipofobia ou gordofobia: medo de estar, ser ou parecer gordo. Coincidência ou não a própria palavra gordura causa um espanto. Um exemplo? Você precisa dizer que azeite e abacate têm gorduras boas. Se apenas tiver gordura, ela é ruim e fim de papo.

Um dos programas mais famosos de emagrecimento tem o nome Vigilantes do Peso. Vigilantes. Do peso. Não é algo como um Amigos da Saúde ou um Apoiadores do Bem-Estar. Não vou entrar nos méritos do programa, seus benefícios ou aplicação mas apenas na forma opressora que o nome é colocado: um monitoramento social coletivo sobre o peso alheio. Quase um espetáculo orwelliano sobre calorias e atitudes. Mas não é assim a sociedade?

Um Big Brother para todos vigiar

A verdade é que a gente caga regra. Muita. Esse texto mesmo é uma cagação de regra sobre a cagação de regra. Como podia ser diferente? Nossa criação é baseada assim: não mostre a língua, não fale de boca cheia, sente como uma mocinha, homem não chora. E quando crescemos, é passado a nós esse direito sobre a vida dos outros, sobre o comportamento alheio. Seja nossa irmã mais nova, nosso colega de trabalho ou nosso namorado. Temos por direito a possibilidade de controlar, palpitar ou opinar sobre o corpo dos outros.Afinal, todos temos direito a ter uma opinião, certo? Certo. Quer dizer, errado. Quer dizer, mais ou menos.

A verdade é que não temos direito sobre o corpo de ninguém como ninguém tem direito sobre nosso corpo. Mas nosso policiamento sobre o comportamento dos outros é tão grande, tão intrínseco, que quando vemos estamos fazendo o mesmo. Perceba que mesmo pessoas que se pregam libertárias ou lutam pela quebra de preconceitos volta e meia escorregam publicamente comentando ou replicando preconceitos sobre outros grupos sociais. Hipocrisia? Não. Faz parte de nós. Nossa sociedade foi criada a base de comportamentos, posse e controle. Controlar os outros para que nossa sociedade se mantenha. Nossa sociedade. Nosso jeito. Nós. Quem controla não é controlado e não se submete aos outros. Non ducor duco. Um trabalho constante para que a gente saia vencedor culturalmente.

Faz parte de nós esse controle e ele só é desconstruído com muito esforço, muitos “textões” e muita conscientização. A melhor forma de acabar com o problema do peso é fechar a boca principalmente na hora de palpitar sobre o outro. Se você vir um gordo, não critique nem julgue: não é o seu corpo e você não tem direito algum sobre ele. O peso dos outros não tem nada a ver com você. O corpo de ninguém é da sua conta. Não é um problema seu.

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3 ideias sobre “Não perca 20 quilos até o verão

  1. Raquel

    Ah… O velho conto de estarem preocupados com a minha saúde! Já está chato igual ao trocadilho do tio no Natal perguntando se o pavê é “pavÊ ou pacumê”. Ninguém gosta, não tem utilidade e misteriosamente ainda tem gente fazendo. Como se mulheres magras e homens (gordos ou magros) não ficassem doentes.

  2. Erika

    Outro dia, meu filho me perguntou porquê ele via mais mulheres gordas do que homens gordos e eu respondi que a margem de tolerância para o homem era muito maior e que um homem com barriga não é considerado gordo e, se aquela mesma barriga (do mesmo tamanho) fosse de uma mulher, ela seria chamada de gorda. Muito difícil desconstruir este pensamento…

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