Aqui embaixo as leis são diferentes!

Eu e a minha colega Ana Perdigão temos uma certa predisposição ao envolvimento com polêmicas.

E nós ficamos bastante consternadas após a leitura DESTE TEXTO.

Eu até argumentei com a Ana… “Mas Ana, esses caras são de Harvard… não tem como a gente querer discutir, sabe?”

Mas quer saber?

Tem sim.

Vamos lá.

Era uma vez… um especialista em nutrição (humana?), de Harvard. O lugar de onde surgem os sábios, o lugar no qual os mortais não podiam ter acesso. Sequer contestar os mandamentos daqueles que lá habitavam. Montado em seu unicórnio azul, ele acenava para as pessoas que passassem por perto, prendendo a atenção das mesmas e contando histórias sobre a inutilidade do comer com moderação.

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Cantarolava artigos científicos, sussurrava o mantra de uma alimentação saudável baseada em evidências. Sobrenaturais. As pessoas, encantadas com seu discurso mirabolante (à la Lair Ribeiro) voltavam para seus afazeres cotidianos certas de que tinham encontrado a chave para todas as suas dores e dramas alimentares.

…E viveram infelizes para sempre.

Nós, Paola e Ana (who?), podemos não ter o cacife e o reconhecimento de um ESPECIALISTA EM NUTRIÇÃO (humana?) de Harvard (Uh! Harvard. Parece científico). Mas nós temos conhecimento de uma coisa, que talvez esteja distante do conto de fadas do honorável doutor:  A vida real.

Sim. Essa bandida. Essa que nos acorda para vivê-la.

Doutor… vá para casa. Você passou a noite na farra, em orgias acadêmicas, extasiado pela magia da teoria. Você está bêbado de literatura, palestras, aulas e laboratório.

(You know were you are? You’re in the JUNGLE baby! (ROSES, Guns’n. 1987) )

Na vida real, as pessoas têm sentimentos, afetividade, questões mentais, psicológicas e corporais, uma vida corrida (Doutor, você já parou para imaginar o que é trabalhar 8 horas por dia, e possivelmente fazer hora extra para depois chegar em casa, dar banho e alimentar três filhos, e se tiver MUITA SORTE, contar com a ajuda do marido?).

No seu mundo técnico (não conseguimos decidir se o seu unicórnio azul pertence a um mundo técnico ou mágico/fantasioso) todas as variáveis se encaixam:

NUNCA comer doce
NUNCA comer pizza
NUNCA comer coxinha
NUNCA comer alimentos industrializados
NUNCA comer emocionalmente

SEMPRE comer tomates frescos que caíram do pé sem contato humano, na mais perfeita harmonia com a natureza. (sniff… é lindo.)

BANIR qualquer alimento processado, desviando os olhos de um hambúrguer delicioso entupidor de artérias, pedir perdão pelos pecados e fazer fotossíntese, vivendo de luz.

Quem nunca preparou um miojo por falta de SACO e TEMPO… atire a primeira pedra.

A rotina que você está propondo, Magnífico Doutor, é absolutamente surreal. Impossível. Grosseira. Insustentável.

Teoricamente é perfeita. Ótima. A solução-final para erradicar a obesidade do planeta.

Mas você precisa entender, Vossa Excelência (em conhecimento sobre nutrição)… que não é assim que a banda toca.

(Eu sou do povo. Eu sou um Zé Ninguém. E aqui embaixo, as leis são diferentes (CAVADÃO, Biquíni. 1991) )

Como pode alguém considerado especialista em nutrição (h-u-m-a-n-a?) falar que comer biscoito e salada não é o mesmo que ser saudável? O que é saúde?

Precisamos cair na real. 

O Guia Alimentar para a População Brasileira preconiza que se dê preferência (… que se dê… preferência…..) aos alimentos in natura ou minimamente processados.

Isso é coerente. Isso é ter uma mentalidade saudável sobre comida. Isso é executável. Isso é ótimo.

“NÃO COMA NENHUM DOCE JAMAIS”… é ridículo, para não dizer desumano.

Sim, Senhor Cientista de Harvard… Nós, umas nutricionistazinhas mequetrefes que moram em cidades que você nunca ouviu falar (porque você deve pensar que a capital do Brasil é o Rio de Janeiro e todos por aqui andamos com nosso macaco no ombro…), estamos alegando que a sua proposta é ridícula.

“Portanto, comer muitos vegetais parece ser melhor ideia do que apenas uma quantidade moderada.

Outro estudo descobriu que o risco de diabetes tipo 2 diminuiu quando as pessoas comeram uma grande variedade de frutas ou vegetais, principalmente quando elas comiam muitos vegetais. “

Muitos vegetais. Muitos vegetais. MUITOS…VEGETAIS.

Você REALIZA que na prática clínica nós temos pacientes que não comem NENHUM vegetal? Quando muito, uma folha de alface?

E quando a gente consegue aumentar essa ingestão, o mínimo que seja, é uma grande vitória? Para o paciente e para nós, nutricionistas?

Você compreende que o ato colocar um alimento na boca e comê-lo não acontece somente pelo alimento ser erroneamente considerado permitido ou proibido? Você compreende como o comportamento alimentar humano é bastante complexo?

Você compreende que temos mecanismos internos de fome e saciedade, muito bem ignorados (desaprendemos a reconhecê-los de fato!) e que antes de mandar alguém comer isso e aquilo, você precisa entender o que o alimento representa para aquela pessoa em específico? Depois de entender isso, você certamente não mandaria mais ninguém comer “isso e aquilo”. Você não manda na fome do outro.

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(Me serve, vadia. Me serve! (NINA, Novela Avenida Brasil, 2012) )

Você entende também que existe a questão da PREFERÊNCIA alimentar?

Você já viu propaganda de brócolis na TV?

SERÁ que a gente não precisaria pensar nas artimanhas das grandes corporações alimentícias que SABEM que o ser humano tem uma predileção por alimentos muito doces e muito salgados ? (leia-se: açúcar, sódio e gordura para realçar o sabor)

Acreditamos que você consegue descer do seu unicórnio azul cintilante e andar alguns metros para fora do seu conto fictício. Então te convidamos honrosamente a vir ao Brasil (a realidade dos EUA não está diferente da nossa), em uma de nossas escolas públicas, convencer um aluno que se alimenta primordialmente de refrigerante e salgadinhos a consumir uma QUANTIDADE SIGNIFICATIVA de vegetais.

Muitos vegetais. Muitos vegetais. Venham todos.

“Você não deve ser moderado com o açúcar – ou o que quer que isso signifique. Você deve se livrar dele o máximo que puder”

(Pausa para interjeição de impaciência da Paco: Aaaaahhhhh gente, pelamordedeus ¬¬’)

CORRAM PARA AS COLINAS. Livrem-se do açúcar! É veneno, é droga. Corram todos.

Aprendemos que fisiologicamente, o açúcar, esse danadinho, é o combustível essencial para gerar energia para o corpo humano. Sabe o Guyton, autor da bíblia de fisiologia humana? Ele mandou beijos.

Você, criatura encantada dos contos de fadas, reproduz o discurso de alimento saudável e de alimento não saudável. Ficamos realmente em dúvida se você é, de fato, especialista em nutrição HUMANA.

Se for o caso, nos colocamos à disposição para a punição cabível em decorrência da nossa audácia e desrespeito.

E acrescentamos também uma pertinente pergunta do nosso amigo Julio Dessoy
(que assim como nós, também é um Zé-Ninguém):

Comer MUITOS VEGETAIS…não seria comer “com moderação”?

AUTORIA: Paola Altheia e Ana Perdigão. Adendo de Julio.

 

 

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15 ideias sobre “Aqui embaixo as leis são diferentes!

  1. Natalia

    Bom, fui criada a pão branco com margarina, café, leite, arroz, feijão, frutas, verduras, açúcar, tudo que era normal para uma pessoa que nasceu em 1964. Até hoje, tenho 51 anos, não sou gorda. Nunca gostei de adoçante. Não suporto o sabor. Mas, ao contrário do que recomenda este site, precisei fazer dieta quando fiz 37 anos, dado que engordei 3 quilos e eles não queriam ir embora. Mas era uma dieta que me permitia comer o que eu quisesse, desde que não misturasse carboidratos com proteína. Mantenho essa dieta mais ou menos até hoje. Mas quando quero misturar, misturo. E se tenho vontade de comer doce, como. Penso que não tenho muita neura com comida. Gosto de ler sobre o assunto porque na minha família tenho irmãos diabéticos e pré diabéticos. Um pai que morreu em consequência da diabetes tipo II. Todavia, o que noto, é que meu pai, assim como meus irmãos, comiam muito. Eu não como pouco, mas também, não vivo para comer. Tenho outros interesses.

  2. Jessica Gosse

    Vendo pessoas com títulos e posições de alto escalão falando abobrinhas como aquele professor ganhador de Nobel dizendo que mulheres choram e não servem pra trabalhar em laboratório e do reitor da mesma Harvard que acha que mulheres não tem aptidão pra ciência, eu não me espanto com o discurso desse cara, que vai na mesma direção desses colegas babacas. O problema é que as pessoas se acham no direito de falar essas groselhas por conta das instituicao e do prestigio que elas carregam, mas não se enganem: instituição não molda caráter tampouco atesta qualidade profissional e de pesquisa. Harvard pode e deve ser questionada sim, bem como qualquer pessoa que faca ciência meia boca.

  3. Não sou Exposição. Autor do post

    Tem ali no link! (ESTE artigo)

    Mas diziam basicamente, que “comer com moderação é inútil é que temos que cortas TODOS os alimentos “ruins” da nossa vida para sempre e comer muitos muitos vegetais (perfeitamente possível, certo?)

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