Ei, moça do Youtube!

Uma leitora do Blog me enviou inbox um vídeo de uma dessas Youtubers na Internet (nem sei se o canal é grande, ou se a moça é wannabe. Não olhei.)

E ela está argumentando sobre suas impressões sobre gordofobia.

Eu vou transcrever o que ela diz porque o vídeo dela jamais, jamais, JAMAIS merece estar aqui na minha página (ou em qualquer outra página do mundo…)

youtuber

“A mulher tá lá, com 300Kg, parecendo um elefante, com fio dental. Fio dental não, porque tem que ser uma cortina para caber naquela bunda. Aí vai lá nos comentários:

– Linda amiga, arrasou, uhu.

E aí, gente!

Hoje eu estou aqui para falar sobre o incentivo à obesidade. SIM, estão incentivando as pessoas a serem obesas.

E adivinhem quem começou com isso, quem poderia ser? Senão as FEMINISTAS?

Tudo começou com uma onda inocente de “aceite-se como é”… E agora estão incentivando a obesidade.

Como é que estão fazendo isso?

A feminista posta a foto de uma mulher de 200Kg, com obesidade, uma pessoa doente.

E se alguém comenta simplesmente que “você não deveria estar incentivando isso, não deveria estar incentivando uma doença.”

– Isso é GORDOFOBIA (em tom sarcástico)

Gente, não é gordofobia não, é questão simples, de SAÚDE…”

Fechei o vídeo. No exato instante em que ela disse “saúde”.

Falou “saúde”, comigo não tem conversa.

“…SAÚDE”.

. Fechei. Foram 54 segundos de besteirol e tortura.

Então, moça da internet. Essa é a temática do meu Blog:

“Questionamentos sobre imagem corporal, amor próprio, saúde e comida.”

Nada de feminismo, ok? Nem vou entrar no mérito.

Você não suporta feministas. Pude perceber.

Mas você pode ler e considerar o que diz uma NUTRICIONISTA…certo?

Feminista? Não falemos disso. Você não gosta.

Nutricionista. Ok? Uma profissional de saúde… certo?

Você não tem nada contra enfermeiras, psicólogas, fisioterapeutasné?

Então vamos lá:

Você é ignorante.

Não estou falando isso de modo pejorativo, te xingando.

Estou dizendo que você IGNORA fatos a respeito do processo saúde-doença, antropometria, indicadores de saúde e a natureza biopsicossocial do ser humano.

Quando você OLHA para a foto de uma gorda (“que tem 200Kg”, de acordo com a maneira em que você amplia a realidade…), você não pode dizer NADA sobre a saúde dessa pessoa.

Você não pode dizer que ela É doente ou ESTÁ doente.

…Não pode.

Vou te dar exemplos bem simples:

1) Um lutador de sumô

Ele é visivelmente GORDO, certo? E ele pode ser classificado como “obeso” a partir de parâmetros antropométricos.

Observe a aparência dele:

 

Você sabia que eles enfrentam uma dura rotina de treinos? Às 5 horas da manhã, eles vão para a arena (dohyo) onde começam a se aquecer para um treino pesado que inclui abdominais, flexões de braço e uma série extenuante de outros exercícios e lutas.
Os lutadores de sumô têm bastante gordura subcutânea, mas não se engane: eles têm MUITA potência muscular. Eles treinam para isso. 

Essa forma física, combinada com força é conquistada através de um cuidado meticuloso de: alimentação, treino e sono. Tudo isso tem que ocorrer na medida certa e no momento certo.

Eles têm mais de 100Kg? Normalmente, sim. Mas eles são atletas.

2) Whitney Thore

Ela é dançarina. E tem 159Kg. Ela dançava desde pequena, e engordou muitos quilos repentinamente por causa de uma síndrome de ovários policísticos.

Ela passou por 10 anos de depressão, e então deu a volta por cima e não se deixou abater: ela dança, é ativa, se alimenta bem e leva uma vida saudável.

(Desnecessário dizer que ela está no meio. Você DANÇA que nem ela? Duvido. Duvido. Duvido.)

Ela é gorda. Bastante gorda. Mas ela não se encaixa no estereótipo que você imagina sobre gordos: preguiçosos que só comem junk food. (Zzzzzzzzzz………)

Ela faz exercícios três vezes por semana, é professora da dança gosta de correr na esteira e nadar.  Ela segue uma dieta composta por vegetais e proteínas – come massas ocasionalmente quando vai a restaurantes (não venha dizer que o problema é a massa porque todo mundo consome massa de vez em quando. Até você.)

3) Dana Falsetti

Ela tem mais de 100Kg, está muito bem de saúde e pratica posições de Ioga que você, na sua vida, JAMAIS será capaz de reproduzir.

Porque: ela é forte, equilibrada e flexível.

Norte-americana virou professora de ioga

Dana virou professora de ioga

Você acha que essas pessoas “promovem a obesidade”? Por que?

O fato de uma gorda se expor, dançar, ir à praia de biquíni (fato que te incomoda) ou participar de concursos plus size é um incentivo à obesidade?

Novamente: por que?

– Quando você vê uma pessoa fumando, você fica com uma vontade louca de começar a fumar?

– Quando você vê uma pessoa de tipóia, você sonha em quebrar seu braço?

– Quando você vê uma pessoa careca, você sente uma urgente vontade de raspar a sua cabeça?

POR QUE uma foto de uma pessoa gorda promoveria a obesidade?

Qual é o sentido disso? De verdade: QUAL é o sentido dessa alegação?

Sinto te informar, mas a sua preocupação não é com a saúde. Delas e de ninguém.

Não é.

Você não gosta de gordos. Porque isso te causa desconforto visual. Você não gosta de observá-los.

E pelo fato de você NÃO GOSTAR deles (porque você é preconceituosa e gordos te desagradam), você acha que nenhum gordo merece ser feliz.

– Gorda não pode ir à praia.

– Gorda não pode se sentir feliz.

– Gorda não pode se sentir bonita.

– Gorda não pode participar de concursos de beleza.

– Gorda não pode ser sexualmente ativa.

– Gorda não pode publicar fotos na internet.

(Logo NA SUA Timeline??? Me poupe, néam?)

Sua verdadeira opinião, minha cara:

Gordos têm que se esconder embaixo de uma pedra para todo o sempre, por terem a AUDÁCIA de ostentar corpos tão volumosos.

E mais:

A pessoa gorda pode até estar doente. Pode, é claro. Ela pode ter síndrome metabólica, diabetes, cardiopatia, pressão alta.

E daí?

Ela vai deixar de viver? Ela não tem direito de viver bons momentos? Ela não pode aparecer em público (do contrário, será um “incentivo” às doenças crônicas?)

Gordos não INCENTIVAM nada. Eles só querem viver. Como eu e você.

E as pessoas altas, baixas, brancas, negras, ruivas, asiáticas, azuis amarelas e xadrezes

Olhe isso:

vai sorrir.jpg

 

A sociedade equipara “magreza” e “felicidade”.

Sabemos disso.

E o ideal de beleza que é propagado representa modelos EXTREMAMENTE magras.

Então vamos pensar.

IMC 15 e IMC 30 são indicadores antropométricos que podem significar problemas de saúde.

15 e 30

…E o “argumento” da SAÚDE cai na cabeça de QUEM?

Você já assistiu o Desfile-Show da Victoria’s Secret? Pois é.

Alguém menciona “Aain, mas e a saúde?”

ALGUÉM??

Não. Nunca. Todo mundo acha lindo.

Porque este é o tipo de corpo estipulado para ser o bonito, desejável, aceitável (e acredite, isso já mudou muito ao longo dos séculos e mulheres gordas já foram consideradas muito bonitas.)

E você sabe o que acontece no Twitter no dia do Victoria’s Secret Fashion Show?

ACONTECE ISSO:

VS 2

VS 1

TODOS os prints: fui eu que tirei.

Agora me diz, com sinceridade:

O que está verdadeiramente promovendo doença?

a) As modelos de uma magreza surreal que estampam as capas das revistas?

Ou

b) Uma gorda na praia?

Nós podemos não gostar de algo. Normal, Ok.

Tem gente que não gosta de: acordar cedo, revista sentinela (eu tenho gastura de revista sentinela), engarrafamento, jiló, desenhos animados, Nicolas Cage, Herbalife, instagram fitness (eu não gosto de Instagram Fitness), bater o dedinho na quina, pisar numa peça de lego, levar susto, filme da Julia Roberts, batata salsa, malabarismo no sinaleiro, Romero Britto (eu não gosto de Romero Britto), o Olaf, o Jar Jar Binks (eu gosto do Jar Jar Binks), cachorro, gato, PT, PSDB, Carta Capital, Veja, Mickey Mouse, Funk carioca, pagode, Opera (eu gosto de opera), Igreja Neopentecostal, Crocs (não tenho opinião formada sobre crocs. É um calçado muito controverso), suar, tomar sol na cabeça, inverno, Paulo Coelho, 50 tons de cinza, perder o ônibus, Jornal Nacional, dança contemporânea, bebida destilada, dreads, sombra verde (eu não gosto de sombra verde), bota branca (eu não gosto de bota branca), sorvete de abacaxi, remake de filmes clássicos (eu ODEIO remake de filmes clássicos), secar o cabelo, bicho de pelúcia, montanha russa, Julio Iglesias, Jim Carrey, Beatles (EXISTE gente que não gosta dos Beatles!), filme dublado, café preto, sushi, comercial de ômega 3, dormir no escuro, dormir no claro, pera, uva, maçã, salada mista…

…Beleza.

VOCÊ: não gosta de gordos.

(e de feministas, você deixa isso muito claro)

Mas simplesmente ASSUMA que você não gosta de gordos e não venha com esse

Papinho MIXO de “é questão de saúde”

Eu tenho mais uma coisa pra dizer para você, mas como o texto vai ficar MUITO GRANDE se eu escrever, vou te passar o recado em vídeo:

 

É simples assim, moça.

Basta dizer: “eu detesto gordos.”

E se você estudar, repensar seus valores, abrir a mente para ter um pingo (ao menos) de empatia… Talvez você entenda a importância do movimento Fat Pride.

Obesidade é fator de risco para doenças diversas? É.

As doenças crônicas precisam ser tratadas? Sim.

Isso tem alguma relação com o fato de você ficar emputecida quando vê a foto de uma gorda na praia? Não.

Tá dado o recado, moça.

Cordiais saudações

 

 

 

 

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14 ideias sobre “Ei, moça do Youtube!

  1. Marina

    Eu reconheci esta youtuber pelo cabelo e pelo discurso que descrevestes. Tive a infelicidade de ver um vídeo dela linkado a outro que estava assistindo e cliquei. Não dá para ouvir mais de cinco minutos do discurso desta garota, regado a palavrões, generalização e zero empatia. Uma pena que exista gente que acha que só consegue defender suas ideias xingando os outros.
    E pior ainda se for ver os comentários e o monte de gente que concorda com as ideias dela. Parei de assistir quando ela chamou um conhecido político com ideias machistas de “papai”. tsc, tsc.

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