#DesafioCFN

Está sendo amplamente divulgado nas redes sociais e por folhetos enviados a nós, nutricionistas, as propostas apresentadas pelo CFN (Conselho Federal de Nutricionistas), com estratégias para combater a obesidade. Segundo o Conselho:

“Pacto do bem – a corrente pela alimentação saudável e adequada”.

Vamos falar sobre isso.

Uma estratégia que nos vem à mente é a desconstrução de modismos alimentares como glúten free/low carb/zero lactose/detox, e, consequentemente conscientização do quanto este terrorismo alimentar, feito pela mídia e por vários nutricionistas, pode ser prejudicial ao comportamento alimentar dos indivíduos.

Uma estratégia que nos vem à mente, e que nos parece eficaz, é o resgate do amor próprio.

Uma estratégia que nos vem à mente, é a desconstrução da mentalidade de dieta e o resgate da responsabilidade e autonomia alimentar.

Nenhuma dessas estratégias são levadas em conta.

No “pacto do bem” encontramos orientações do tipo: evite gorduras/frituras, evite refrigerantes e produtos industrializados. EVITE! EVITE! EVITE!

Encontramos orientações do tipo: “Coma de 3h em 3h/6 refeições por dia“. Onde está o reconhecimento dos mecanismos fisiológicos e psíquicos de fome e saciedade que desaprendemos quando crescemos?

 

(“Confie nos SEUS instintos”)

Acreditamos que repetir essa informação aos quatro cantos não promove mudança de hábitos. Não promove reflexão. Apenas mostra o mais do mesmo. As mesmas orientações que até mesmo crianças reproduzem. Reproduzir informação não garante mudança no padrão alimentar. É apenas uma frase repetida várias vezes na esperança (que nunca morre!) de uma mudança que não se sustenta.

A sociedade inteira já ouviu falar sobre evitar frituras/açúcares em excesso/industrializados. Saber não é sinônimo de tomar consciência sobre algo. O que de fato isso influencia nos hábitos alimentares?

Encontramos também a seguinte afirmação:

“Articular ações para enfrentar a obesidade e doenças decorrentes da má alimentação”.

No mesmo folheto temos os termos “reflexão sobre saúde e qualidade de vida”.

Perceba que ainda se associa obesos à má alimentação. Perceba que obesos precisam refletir, e muito, sobre saúde e qualidade de vida, pois pressupõe-se que eles não as tenham.

Constituição física e peso corporal é pré julgamento para dizer se um indivíduo tem uma alimentação saudável ou não. Magros podem se alimentar do que desejarem, mas as consequências não serão visíveis aos olhos alheios, então não há o que se preocupar. O grande problema é o incômodo visual que se tem ao olhar um obeso. Apontar o dedo para um corpo gordo virou uma epidemia.

E os comportamentos anoréxicos/vigoréxicos/ortoréxicos de indivíduos magros/marombas? A sociedade encara como normal a moça que não come, o homem que passa horas na academia, a mulher que está pensando obsessivamente em alimentos saudáveis, afinal ela está buscando saúde. E o gordo é ridicularizado por não ter a controversa força de vontade, inventar desculpas e não se permitir ser saudável.

O que é ser saudável?

Ter um corpo socialmente aceitável e sentir culpa ao comer, esquecendo da saúde mental? O que é uma alimentação saudável? Classificar alimentos bons e ruins, pode/não pode, se encher de suplementos TOP DE LINHA e viver uma dicotomia alimentar? Comida se resume a açúcar veneno/gordura do mal/salmão causa câncer/sal inimigo da saúde? Não somos criaturas complexas demais para nos reduzirem a isso e aquilo e desconsiderarem toda a função biopsicossocial do alimento?

Sabemos que muitos podem argumentar que precisamos melhorar a estrutura urbana, com mais espaços para a prática de atividade física e lutar pela regulamentação da quantidade de sódio e gordura trans nos alimentos industrializados e promover mais pontos de feiras de orgânicos (e dessa forma também fomentando a valorização da agricultura familiar).

Mas ALÉM de tudo isso… existe a pessoa. Existe o gordo. Existe um ser humano que pensa e sente.

A palavra GORDO/GORDA tem uma conotação tão negativa que as pessoas preferem empregar eufemismos como “gordinho” ou “pessoa acima do peso” – que peso? – para amenizar o impacto desse grande tabu. Vamos dizer que a pessoa é gorda. É uma característica física e não deveria ser mencionada como se fosse uma coisa ruim ou associada a ofensas.

Mas a verdade é que na nossa sociedade, que é lipofóbica, venera massa magra e tem pavor de gordura… O gordo está em desvantagem.

Existe um estigma da obesidade e precisamos, sim, voltar o nosso olhar para essa questão.

A obesidade é fator de risco para doenças crônicas como diabetes, cardiopatias e hipertensão? Sim. Todos sabem disso. Todos mesmo. Qualquer pessoa atualmente consegue raciocinar dessa maneira.

Contudo, acreditamos que dificilmente uma pessoa que passa a vida ouvindo que ela é preguiçosa, glutona, descontrolada, indisciplinada, feia, burra e até mesmo suja e fedida desperte um genuíno interesse (talvez por mágica?) em cuidar do seu corpo. Da sua saúde.

Nós CUIDAMOS daquilo que amamos. E nos importamos.

Ninguém pensa em cuidar de um punhado de lixo, algo que não valha nada.

E infelizmente é assim que tratamos e retratamos o gordo: com escárnio, desprezo, asco, olhares tortos.

O corpo do gordo, com a audácia de ocupar tanto volume, é chamado de “epidemia” e constantemente lembrado de que as doenças resultantes “da sua intemperança e falta de moderação diante da comida” causam uma enorme despesa aos cofres públicos, ao orçamento destinado à manutenção da saúde pública.

O gordo é inconveniente. O gordo incomoda. E um simples olhar sobre seu aspecto físico suscita um rebuliço de opiniões, estereótipos e preconceitos.

“Todo gordo é doente”

“Gordo só come junk food”

“Todo gordo é preguiçoso”

“É gordo porque quer”

Quando falamos sobre estratégias para combater a obesidade, não podemos ignorar o contexto. O cenário no qual os obesos estão inseridos .

A pessoa gorda precisa ser respeitada e adquirir a profunda convicção de que ela é um ser humano que tem valor e que não é inferior aos magros.

A pessoa gorda precisa se desfazer do pensamento de que as coisas vão dar certo na vida somente quando emagrecerem.

É como se o gordo não tivesse dignidade e a única forma de alcança-la seria através do emagrecimento e da busca pela perfeição através de um padrão de beleza. Que JAMAIS será alcançado.

Gordo é gente. Gordo é digno. Gordo merece respeito. Gordo não é “epidemia”. Gordo não é estatística.

Podemos desenvolver o melhor conjunto de estratégias de enfrentamento da obesidade do mundo. Podemos ter a melhor política pública, de fazer inveja aos países estrangeiros .

Ok.

Mas mudanças significativas não vão ocorrer se não incentivarmos a pessoa obesa a enxergar seu valor.

As mudanças significativas não ocorrerão repetindo por diversas vezes orientações falhas sobre mudanças de hábitos que ficarão apenas no pensamento e nas lágrimas de “mas eu não consigo seguir a dieta. O que há de errado comigo?”.

Não há nada de errado com você. É a forma com que se lida com a alimentação e a relação com a comida, atualmente.

Mudanças significativas não ocorrerão se a pessoa gorda não encontrar um motivo para efetivamente CUIDAR do seu corpo, mente e alma.

E essa mudança começa com o combate ao preconceito contra o obeso, que é chamado de gordofobia e acontece na sociedade e também dentro da área da saúde. E como ocorre. Pacientes saem chorando dos consultórios, odiando nutricionistas e médicos porque não são ouvidos. São olhados com desprezo por serem gordos. Medidos e pesados como carne em açougue.

(“Dr!! Eu fui empalada!” – Talvez você se sinta melhor se perder peso.)

Não podemos confundir combater a doença com atacar, culpabilizar e humilhar o portador.

É possível que nosso texto não tenha ido exatamente ao encontro do Desafio proposto pelo CFN, mas acreditamos que, além de informar a população e incentivar hábitos saudáveis (sendo que o próprio conceito de SAÚDE não é tão simples de definir) o profissional nutricionista deve também apresentar uma visão global do contexto que envolve o processo saúde-doença, que não deve, jamais, ser analisado ou discutido como fato isolado. Alimentação adequada envolve fatores econômicos, sociais, culturais, afetivos, emocionais, psicológicos e inúmeras particularidades individuais. Muito além da maltratada e distorcida individualidade bioquímica, de nutrientes e calorias, existe o ser humano. A espécie humana. Que se encontra desorientada diante do tamanho paradoxo promovido pelo excesso de informações e os problemas de saúde relacionados à alimentação que crescem vertiginosamente.

#DesafioCFN 

AUTORIA:

Paola Altheia, Nutricionista e autora do Blog “Não Sou Exposição”

Ana Perdigão, Nutricionista e psicanalista.

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6 ideias sobre “#DesafioCFN

  1. Ana Carolina Silveira

    Que texto perfeito, nossa, quero imprimir e distribuir, quero tatuar no meu corpo. É TÃO DIFÍCIL AS PESSOAS ENTENDEREM ISSO???? E vale pras pessoas comuns, para nutricionistas, médicos e demais profissionais da saúde, para a onda fitness do mundo…

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