NÃO TEM uma pedra no seu sapato.

Estou tentando organizar as ideias desde que recebi ESTE COMENTÁRIO numa postagem que eu fiz na minha Fanpage:

femimismo

Esse comentário me suscitou uma mistura de sentimentos, e sentimentos muito misturados precisam ser organizados. Vamos ver se consigo. Por partes.

Não que eu tenha me sentido ofendida por ter sido chamada de “balofona revoltada”.

Eu acho que ser balofona revoltada deve ser algo mais ou menos assim:

Até que é legal. Ser uma balofona. Revoltada. Quebrar tudo por aí…

Às vezes dá vontade, certo?

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(só a critério de curiosidade, as três pessoas que curtiram o comentário são mulheres)

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Então é nessas horas a gente vê que algumas minas estão precisando desconstruir alguns conceitos.

Deborah, Carol e Chelly… se puderem deem uma olhadinha nisto aqui. Ou aqui.

“A palavra “sororidade” tem origem do latim, sororis (“irmã”) e idad, e diz respeito a um pacto entre mulheres que são reconhecidas entre si como “irmãs”, em uma dimensão ética, política e prática”

Então moças, não é legal competir com outras mulheres chamar as irmãs de feias, sirigaitas, putas, recalcadas, balofonas revoltadas etc.

*errata* A Carol Ag acabou me me enviar uma mensagem inbox dizendo que ela NÃO QUERIA curtir o comentário do Femimismo. Ela clicou sem querer. Menos mal. Agora temos somente DUAS mulheres que curtiram o comentário.

Continuando…

A questão foi engraçada porque, num primeiro momento, quando a gente passa os olhos no nome do perfil que comentou, parece que está escrito FEMINISMO.

Só que aí você percebe que a palavra “feminismo” é incompatível com o conteúdo do comentário.

(“A adm dessa page só pode ser uma balofona revoltada”)

Aí você olha de novo, e fica claro: o nome da página é feMIMIsmo.

(Ah tá!)

Porque feministas são mimizentas. Hahaha.

(agradeçam, caras, tô mencionando a página de vocês aqui. Ceis são engrassado.)

Eu poderia responder que eu não sou uma balofona. Nem gorda eu sou. E aí minha resposta “quebraria as pernas dos caras”, afinal eles não podem me ofender me chamando de balofona. Porque eu sou magra.

(Revoltada? …Sim. Sou. Com tudo aquilo que merece minha revolta)

Mas a ideia me incomoda, porque as pessoas verdadeiramente gordas ~não podem~ protestar contra a gordofobia, porque irão receber um “você é gorda” como resposta…

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(Ah, que cômico)

“Claro que você está reclamando de racismo, seu preto”

“Claro que você está reclamando de homofobia, sua bicha”

“Claro que você está reclamando de gordofobia, sua balofona”

Não tá certo isso. 

Aliás, se você não sabe o que é gordofobia, dá uma olhada neste vídeo ÓTIMO do canal Alexandrismos:

(Show!)

(ainda tentando organizar os pensamentos…)

Ser uma pessoa magra que combate a gordofobia é uma questão delicada. Muitas pessoas de movimentos Fat Pride e coletivos anti-gordofobia já argumentaram que eu estou me apropriando de uma luta que não é minha, ou tentando roubar o protagonismo.

Entendo.

Mas eu sou uma profissional de saúde e eu vejo gordofobia CORRENDO SOLTA dentro do meu meio. Nutricionistas e médicos que postam conteúdo absolutamente ofensivo nas redes sociais … e PENSANDO que o que estão fazendo é comunicação em saúde.

(Tipo ISSO. Tao sutil. O ícone diz claramente: “Proibido Gordos”. Estão misturando perigosamente combater a doença com atacar o portador. É feito um julgamento moral do gordo, como se ele fosse um indivíduo sem obstinação, sem disciplina, preguiçoso… Olhem para essa figura. Isso é positivo? Isso é respeitoso? Isso promove saúde? NÃO. É uma figura que retrata gordos como pessoas repulsivas. É uma figura que faz qualquer gordo se sentir um lixo, um fracasso, um pária social. )

Eu sou magra certo? Isso é um privilégio social, certo? De certo modo, isso me concede espaço e voz, certo?

Então eu acho que eu posso fazer uso desse privilégio que possuo para dizer as coisas certas. As coisas que precisam ser ditas.

não precisa ser gay

Eu não preciso ser gay para me posicionar contra a homofobia.

Eu não preciso ser negra para me posicionar contra o racismo.

Eu não preciso ser gorda para me posicionar contra a gordofobia.

É a atitude que eu acredito ser correta. Então eu assim ajo. Mas entendo que algumas pessoas discordam, e acreditam que seus movimentos têm de ser coesos, sem a presença de pessoas que representam o opressor.

Como no meu caso. Eu sou uma magra que discute sobre gordofobia.

Eu sou contra a gordofobia eu foco bastante nessa questão. Assim como o Femimismo pontuou. Sim.

…Mas isso só pode significar que eu sou uma balofa?

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Eu não sou.

Mas e se eu fosse?

Aí eu estaria me valendo de um VITIMISMO, alegando sofrer um preconceito que NÃO EXISTE, só porque não tenho DISCIPLINA nem FORÇA DE VONTADE para me tornar magra e, portanto, “bonita”?

A parte mais curiosa disso tudo, no meu entender, é a tentativa de pessoas que NUNCA VIVENCIARAM um determinado preconceito tentarem explicar para as vítimas que esse preconceito (ou opressão) não existe ou que não é uma causa legítima.

(que nem a página feMIMIsmo… Que prega que o feminismo não é um movimento legítimo. QUEM comanda a página? Omis.)

Ei, dono do Femimismo: se a sua esposa (sei lá se você tem esposa, mas enfim) se aproximar de você e afirmar que ela está com dor de cabeça, você vai discordar dela…só porque você não está sentindo nenhuma dor? Você consegue entender que isso não faz sentido?

Pensei em duas histórias para ilustrar a situação.

História I

Imagine duas pessoas caminhando juntas. De repente, uma delas perde o ritmo e vai ficando para trás. E a pessoa que seguiu em frente diz:

– Não fique aí atrás. Me acompanhe!

E a pessoa que ficou para trás responde:

– Não posso. Tem uma pedra no meu sapato.

E o resto do diálogo segue assim:

Não tem nenhuma pedra no seu sapato.

– Tem sim! Está me incomodando. Está doendo.

– Eu não estou sentindo dor alguma. Nossos sapatos estão perfeitos. Me acompanhe.

– Estou te dizendo que tem uma pedra no meu sapato. Me ajude a tirar, porque o cadarço está muito apertado.

– Posso observar perfeitamente que não tem NENHUMA pedra no seu sapato. Isso é um VITIMISMO que você inventou para parar de andar no meu ritmo. É minha opinião. Respeite minha LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Mas se você realmente acredita que tem uma pedra no seu sapato, porque você não toma VERGONHA NESSA SUA CARA e desamarra o cadarço você mesmo? Aliás, essa história de pedra no sapato vai virar MODINHA e daqui a pouco teremos uma DITADURA de pedras no sapato. Eu tenho ORGULHO de não ter pedra no meu sapato! Pedra no sapato é uma abominação aos olhos de Deus.

…E aí a pessoa vai embora. E deixa a outra para trás.

História II

Uma pessoa vai ao médico. Aí ela diz:

– Doutor, acho que estou com Dengue.

E o médico responde:

Você não está com Dengue.

E o resto do diálogo segue assim:

– Mas Doutor! Eu estou com febre muito alta, tontura, dor atrás dos meus olhos, dor de cabeça, dor nos ossos e nas juntas… Pode ser que eu esteja com dengue. Semana passada eu fui visitar a minha família em Mato Grosso do Sul, lá havia uma epidemia de dengue!

Dengue não existe. O combate à dengue não é importante.Dengue é uma questão menor. É uma invenção de gente fresca que não tem noção do que foi o SURTO DE GRIPE ESPANHOLA EM 1918. A gripe espanhola, sim, precisava ser combatida,eu concordo. Mas Dengue é uma modinha de gente desocupada. Não existe isso.

– Mas eu estou sentindo todos esses desconfortos…

– Não. Não está. Eu nunca senti isso na minha vida. Agora as pessoas estão tão chatas, frescas reclamando de qualquer dorzinha,TUDO é doença, TUDO é Dengue. Na minha época não era assim, ninguém aparecia no consultório médico se queixando por causa de QUALQUER COISINHA.

-…

Enfim, o que eu quero demonstrar com essas duas histórias é que você não pode querer explicar para uma vítima de preconceito que esse preconceito NÃO EXISTE só porque VOCÊ NUNCA VIVEU.

Não discorde de uma pessoa que está afirmando estar sendo marginalizada. Se ela está reclamando disso… Se ela está alegando que isso está acontecendo… Então acredite nela.

Não podemos deixar o nosso privilégio social nos deixar cegos diante do sofrimento das mulheres, dos negros, dos gays, dos gordos…

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Não queira explicar para um negro que racismo não existe.

Não queira explicar para uma mulher que machismo não existe.

Não queira explicar para um gay que homofobia não existe.

Não queira explicar para um gordo que gordofobia não existe.

Não é VOCÊ que está vivendo a situação. São eles.
E a questão não é sobre o que VOCÊ acha. É sobre o que ELES acham.

Vamos fechar com essa figura legal da Lu Medeiros:

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8 ideias sobre “NÃO TEM uma pedra no seu sapato.

  1. Desengordando

    Houve um momento, eu não sei dizer qual foi, como foi, mas sei que houve um momento, que eu percebi que o que o resto do mundo tinha comigo não era simples implicância, era preconceito, era gordofobia, uma opressão estrutural tão arraigada na nossa sociedade que nos faz afundar em depressão, isolamento e desespero, mas tudo bem, estamos só de mimimi… (contém ironia)
    COmo é difícil…

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