♪ Doce, Doce! ♬

Eu já vinha pensando em escrever sobre isso (a ideia sempre me vem à cabeça, na hora do banho ou quando estou caminhando pela rua…)

Então eu vou escrever sobre o assunto hoje.

Digo isso porque hoje eu recebi esta imagem inbox de nada menos do que oito pessoas:

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E dói no coração dizer isso (até porque sempre aparece nutricionista falando que eu estou desmerecendo a categoria) MAS eu já vi nutricionistas compartilhando a seguinte imagem no Instagram e no Facebook:

 

Eu vi. Com estes olhos que a terra há de comer.

Pois bem.

Vou discorrer sobre uma dúvida clássica que aparece quando falamos sobre alimentação intuitiva:

– “Se eu deixar de controlar o que eu como, não vou começar a comer enlouquecidamente?”

Pra início de conversa quero esclarecer que comer intuitivamente é quando a conduta alimentar acontece de dentro para fora e não de fora para dentro.

O que isso significa, Paco?

Significa que a pessoa que passa pelo processo de começar a comer de modo intuitivo deve fazer um resgate da consciência corporal, para se conectar de forma mais íntima com os seus sinais de fome e saciedade e possa ter condições de escolher O QUE comer, QUANDO comer e O QUANTO comer sem seguir normas externas ao organismo (como regras alimentares, restrições e/ou dietas)

MAS COMO ASSIM?!

Oras, nós nascemos sabendo comer. Nós sabemos quando temos fome [berramos] e paramos de mamar quando já nos sentimos saciados.

O que faz a gente perder essa percepção?

As normas, as regras, o “tem que limpar esse prato”, o “se não comer a berinjela, não ganha sobremesa”, a primeira dieta aos 13 anos… Todas as experiências desagradáveis e taxativas que tivemos em relação à comida e que deixaram nosso cérebro e nosso metabolismo desnorteados.

Ter que limpar o prato é uma tradição cultural que assombra as mentes desde a infância e desrespeita completamente os nossos avisos corporais de saciedade. E isso interfere no nosso comportamento quando adultos.

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Tem tanta gente que, depois de grande, carrega a incumbência de limpar o prato “porque é desperdício” ou em solidariedade àqueles que passam fome…

Meu namorado faz isso. Quando saímos para comer, às vezes observo que ele não quer mais o que tem no prato, mas fica “empurrando” a comida.

O que eu digo para ele nessas horas?

“Vinicius… Essa comida que o seu organismo está rejeitando provavelmente seria jogada no lixo e com certeza não será mandada diretamente às crianças famélicas da África. Então você já parou para pensar que você está tratando seu próprio corpo como uma lata de lixo?… E que essa atitude continua sendo uma forma de desperdício?”

Enfim. O assunto não é esse.

Eu quero falar sobre: se seguir a alimentação intuitiva faz com que as pessoas COMAM feito um rinoceronte desgovernado.

(Aaaaaaeeeeeêêeehhhhh!!!!!)

R: Não.

O que causa os episódios de compulsão, os exageros e a sensação de descontrole diante da comida são os seguintes fatores:

– A ideia de que temos que aplicar rígida disciplina ao ato de se alimentar.

-A ideia de que existem alimentos bons e ruins, e que os ruins são proibidos.

– A ideia de que é salutar encerrar a refeição sentindo um pouquinho de fome, ou seja, comer menos do que o seu corpo realmente queria (e precisa).

– A ideia de que não podemos confiar em nós mesmos, porque se soltarmos as rédeas, com certeza sairemos por aí comendo feito a Magali.

Não vou mentir: pode ser que no começo aconteçam alguns excessos. Por causa do recebimento da carta de alforria, pelo fato da pessoa se ver finalmente LIVRE das dietas, mitos e normas alimentares.

Mas aos poucos a pessoa vai percebendo que o controle nasce justamente quando deixamos de lado a vontade de controlar tudo.

Vamos agora cantar uma música do Plunct-Plact-Zum

(quem é dessa época? Quem lembra disso? Quem ainda tem o LP? Eu tenho!)

É errôneo pensar que deixar de fazer dieta é um bilhete único de ida para o Planeta Doce:

♪ Gasolina é guaraná e jorra em qualquer lugar
Polícia é brigadeiro e é sempre um bom companheiro
O Sol é um quindim e brilha doce até o fim
Nuvens de algodão doce, pirulitos no jardim

Doce, doce viver no planeta doce
Doce, doce viver no planeta doce ♪

Não é assim que acontece. Eventualmente nós iremos perceber que um pedaço de chocolate tem a mesma representatividade de uma maçã. E eu posso escolher comer chocolate (ou maçã) amanhã. E depois. Talvez na semana que vem. Não é proibido. Não tem problema.

E não serão necessárias cerimônias de despedida e nem praticar o:

comer-o-mais-que-puder-porque-não-sei-quando-poderei-comer-isso-novamente

A Nathalia Petry explica sobre isso maravilhosamente BEM neste vídeo:

Eu arrisco dizer (e me perdoem os nutri-terroristas de plantão: tenho certeza que estou certa) que o que faz uma pessoa comer feito um rinoceronte desgovernado é a proibição. E não a permissão.

Mas vamos pensar no seguinte:

SITUAÇÃO I

A pessoa recebeu uma dieta hiper-restritiva para seguir. Hipocalórica, zero carbo, zero lactose, zero glúten. Gelatina diet à vontade.

E essa pessoa deseja ardentemente comer chocolate, mas ela não pode. Porque a nutricionista não permite.

Aí ela vai tentar desviar dessa vontade de comer chocolate.

…Aí ela vai comer dois cookies gluten-free (extrapolou a meta da semana, mocinha...)

…Aí ela vai comer palitos de cenoura (muitos).

…Aí ela vai beber três copos d’água.

…Aí ela vai comer uma banana. Ou duas.

 

E raios!

NADA DISSO foi capaz de aplacar a vontade de comer chocolate. Aí a pessoa pensa:

– “Droga! Vou comer o maldito chocolate, já que eu enfiei o pé na jaca mesmo!”

…Aí ela come a barra inteira.

(E mais as calorias dos cookies, das cenouras e das duas bananas.)

E se sente triste, frustrada e culpada. Dá uma bronca em si mesma e diz que não tem “força de vontade”.

SITUAÇÃO II

A pessoa não está de dieta. Nenhum alimento é “veneno”. Nenhum alimento é vilão. Nenhum alimento é proibido. Não existe uma maneira errada de comer.

Ela come QUANDO quer, O QUE quer e O QUANTO quer. Sem neuras, sem regras…e sem medo.

Ela sente vontade de comer chocolate.

Ela SABE que o chocolate estará disponível. Ali. Hoje. Ou quando ela quiser.

Ninguém vai tirar o chocolate dela.

O chocolate não é uma iguaria proibida…É só um alimento.

Então ela come uma única fileira da barra de chocolate.

Fim.

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15 ideias sobre “♪ Doce, Doce! ♬

  1. Sabrina Delduque

    Uma amiga mandou esse texto e outro que fala sobre os “exageros” publicado na Páscoa. Me identifiquei muito com esses 2 textos.
    Obrigada pelos textos e por me mostrar o que realmente importa. Um abraço

  2. silvia

    A questão de limpar o prato para mim é uma decisão anterior: colocar pouca comida e se quiser mais repita. Se sobrar no restaurante leva para casa.

  3. Não sou Exposição. Autor do post

    Oi Loti.

    Nessa questão eu discordo… Primeiro porque eu não acho legal fiscalizar o prato alheio. Cada um cuida do seu. No mais, COMER quando você não está com fome é um desrespeito com o seu corpo e é um dos fatores que interferem no desequilíbrio entre fome/saciedade que as pessoas sentem.Deixa o organismo perdido. Se sentir “estufado” ou comer sem querer e sem estar precisando é uma experiência corporal muito ruim. O ideal é colocar pequenas porções no prato, repetir se necessário, para que não fiquem sobras. À medida em que a pessoa vai tomando consciência da própria fome, ela vai compreendendo quanto alimento ela deseja comer e faz um prato de acordo com a necessidade.

    No caso dos restaurantes: os recursos naturais são limitados. Claro. Mas a ANVISA preconiza que todas as sobras dos locais que produzem refeição sejam descartadas (sim: é um desperdício imenso. Mas o estabelecimento NÃO PODE reaproveitar e nem dar para pessoas pobres. Tem que jogar no lixo)

    De maneira alguma me posiciono a favor de “limpar o prato” por que isso nada mais é do que comer sem estar querendo/precisando. E isso é muito ruim quando a pessoa está no processo de construção do comer intuitivo.

    Beijo!

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