Engordar como: experimento social.

O post de hoje foi escrito por Ellen Guimarães Pinheiro.

Ela está falando sobre um fisiculturista (vegano) que vai se render ao SACRIFÍCIO de engordar para ‘experimentar’ como é viver sendo uma pessoa gorda.

E ele vai viver o que é ser gordo (uuuuiiiii….gordo….) comendo baldes de pipoca.

Aí ele vai comer calorias vazias, ou seja, “porcarias“. Porque é isso que gordos fazem, certo? Comer porcaria.

(pausa para atolar a mão na testa)

Ele vai se SACRIFICAR (mas que mártir…) porque na época de verão, carnaval, ele poderia estar com: “um corpo legal, curtindo na praia etc.”

(Gordos não podem ir à praia, certo? Corpo do gordo não é “legal”…certo?)

Mas não: ele vai profanar o seu templo de hipertrofia, permitindo a presença das terríveis gorduras.

“Vai ser muito mais que um Off sujo: eu vou ficar gordo.”

(porque não existe abominação maior do que ser gordo)

Mas ele vai fazer este nobre experimento.

Então, sabe o vulcão que você fez na feira de ciências?

É tipo isso.

Só que esse cara vai engordar para estudar de maneira aproximada a espécime que é a pessoa gorda.

A ideia: “Entender como funciona a cabeça de uma pessoa que está com sobrepeso”

A realidade: Constatamos como funciona a cabeça lipofóbica de um fisiculturista.

Quantidade de vezes em que ele menciona a palavra “sacrifício“: três vezes

(“Eu não nasci para ser servido, eu nasci para servir” – Felipe Garcia)

Então fale, moço, sobre o seu EXPERIMENTO:

Legal, cara.Toma aqui o troféu de:

eu-não-estou-verdadeiramente-ajudando-ninguém Awards 2016

Segue texto da Ellen:

“Precisamos falar sobre gordofobia.
Precisamos falar sobre gordofobia no meio vegano.

Acabei de ver o vídeo de um atleta vegano que, enfiando um monte de pipoca na boca, relata seu novo projeto para 2016: ele vai “se sacrificar” e entrar em “dieta de engorda” por cerca de dois meses para compreender como funciona a mente de uma pessoa com sobrepeso – o limite dele é quando seu corpo começar a apresentar problemas de saúde.
Segundo o atleta, mesmo sendo verão e ele podendo estar na praia com seu corpo sarado, ele, que “nasceu para servir”, vai fazer o sacrifício de comer loucamente para engordar e compreender o psicológico de um gordo para assim ajudar essas pessoas posteriormente, quando iniciar o processo de emagrecimento. Tudo, claro, relatado em forma de diário através de um canal no YouTube, com a expectativa de muitos acessos, seguidores e visualizações.

Vamos lá:
1. Gordos não são experimento social. PARE de objetificar gordos;
2. Ser gordo não é sinônimo de ser doente;
3. O atleta em questão não vai engordar de tudo, efetivamente. Parte significativa do aspecto visual que remete à gordura será na verdade retenção hídrica, e o processo de emagrecimento dele vai ser muito mais fácil do que de uma pessoa realmente gorda, inclusive pelo histórico como atleta e familiaridade com treinamentos/seguir dieta rígida;
4. Nem todo gordo está insatisfeito com sua aparência, nem todo gordo sofre por ser gordo. Pelo contrário, tem gordos absolutamente empoderados e satisfeitos com seu corpo, e isso é ótimo;
5. Não é possível uma pessoa magra, atlética, fazer uma dieta de engorda para compreender como um gordo pensa, como o psicológico dessa pessoa funciona. Isso é absurdo, é ofensivo! Gordos que sofrem com o estigma social da gordura, que é o tipo de pessoa que ele se refere, tem muitas vezes transtornos de ansiedade, comem por compulsão, disforia com seu corpo, transtornos alimentares e – pasme! – muitas vezes engordam mesmo comendo pouquíssimo. Nem todo gordo é gordo por enfiar a boca num balde de pipoca às 11 da noite, como a caricatura ridícula feita pelo atleta no início do vídeo. NENHUM experimento, ainda mais caseiro e amador, vai conseguir emular esse tipo de sofrimento, NENHUM.

Eu passei a minha vida inteira lutando contra a balança, já pesei 105kg e fui obesa, sei o que é sofrer gordofobia desde a infância – e olhe que tem pessoas em situação muito pior do que a minha. Sei o que é ser comparada a pessoas magras, sei o que é ouvir “seu rosto é tão bonito, por que não emagrece?”. Sei o que é viver a base de dietas, me culpar por não conseguir cumpri-las e comer ainda mais, sei o que é por vezes não ter vontade de sair de casa por estar acima do peso e não corresponder aos padrões de beleza. Sei o que é ter pavor de entrar em uma academia, pois esse tipo de ambiente é tóxico para pessoas gordas, que são julgadas e ridicularizadas ali. Sei o que é o efeito sanfona, emagrecer 30kg e engordar tudo de novo depois de um tempo. Sei o que é brigar comigo mesma, sei o que é odiar o meu corpo – ainda mais porque sou mulher e a cobrança é muito maior, pois a misoginia torna tudo ainda pior. E sei que o processo de empoderamento e aceitação é difícil, é longo, mas é necessário, porque não é o percentual de gordura que define nossa beleza e nosso valor.

Eu estou absolutamente ofendida por esse experimento grotesco e humilhante. Gordos são PESSOAS, são seres humanos complexos como qualquer outro, não se resumem a montanhas de comida (“calorias vazias”) e aumento de volume corporal. Fazer “dieta de engorda”, “se sacrificar” pra engordar em tempo recorde não vai fazer NENHUMA pessoa atlética compreender o que se passa na cabeça de quem é realmente gordo vivendo em sociedade gordofóbica. O que essa pessoa escolheu viver, num momento absolutamente egocêntrico, para se sentir “salvador” de alguém…os gordos vivem muitas vezes sem nunca ter se voluntariado.

Isso é revoltante. Ainda mais quando a pessoa usa o veganismo pra se promover, misturando direitos animais com algo absolutamente nojento e preconceituoso como esse experimento. Fica aqui minha consideração final: os animais não tem nada a ver com isso, o veganismo existe para defendê-los e não para ser palanque de divulgação de projetos pessoais, egocêntricos e perpetuadores de opressão social que nada tem a ver com a causa.

Quer falar de emagrecimento? Fale!
Quer falar sobre treinamento, musculação e esporte? Fale!
Mas não ridicularize, objetifique e trate pessoas gordas com tamanho desrespeito!

Nossa mente e nossas vidas não são experimento social pra render likes e fama pra fisiculturistas.”

É, cara. Errou rude.

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8 ideias sobre “Engordar como: experimento social.

  1. Amanda Marques

    Paola, se puder assista o filme “To be fat like me” é com a Penny do The big bang theory e fala basicamente sobre isso. Só que no filme a menina magra finge ser gorda pra “entender” o bullying que os gordos sofrem. É interessante.

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