#PrimeiraDieta

Oi,

Meu nome é Tamara, sou muito amiga da escritora do blog e também fui sua colega de faculdade, hoje sou nutricionista. Já escrevi antes para o blog, a convite, sobre assuntos abordados aqui. Hoje escrevo por iniciativa própria, um relato sobre mim.

Quando eu tinha 10 anos de idade fiz minha primeira dieta. Meus pais, por pressões familiares sobre a minha aparência acabaram me levando a uma nutricionista que não lembro o nome. A única coisa que me lembro de ela ter dito na época foi em relação a um registro alimentar (em que o profissional nutricionista solicita ao paciente que registre cada alimento e as quantidades que comer durante um período de tempo determinado). Na data do registro houve uma festa de aniversário na minha família, por isso uma das coisas que eu tinha comido era bolo, então o comentário dela foi o seguinte: “você não precisava ter comido dois pedaços do bolo, um satisfaria sua vontade” (eu deveria ter dito que eu é quem sei da minha vontade, mas ela era formada e adulta então devia saber mais que uma menininha de 10 anos)

menina

Nessa época, tanto pela minha mudança de hábitos alimentares quanto ao grande dispêndio energético da puberdade, eu emagreci , ou melhor, eu cresci e meu peso foi distribuído. E então comecei a receber elogios sobre minha forma física.

Minha família, altamente influenciada pelas mídias, sempre valorizou muito a aparência física, especialmente estimando formas magras.

Após isso, minha vida seguiu normal até os 14 anos, quando iniciei o ensino médio. Na escola em que estudei havia muitas modalidades esportivas para quem desejasse, gratuitamente, escolhi dança.

Na “segunda fase” da puberdade, garotas começam a ganhar mais tecido adiposo na região dos quadris e mamas principalmente, pois é a época em que o corpo começa a ficar da forma como será na idade adulta e também por questões reprodutivas.

Logicamente, como qualquer adolescente saudável, nesta época ganhei peso. No entanto, com a bagagem que eu tive associado ao tipo de prática esportiva que eu tinha, não consegui levar isso com naturalidade e rapidamente entrei em colapso, pois precisava manter meus 50Kg. Eu acreditava que aquele era um bom peso para uma mulher adulta e poderia muito bem mantê-los para o resto da vida.

Então mais ou menos no início dos meus 15 anos peguei a dieta que a nutricionista havia me passado aos 10 (sim eu guardei) e apliquei de novo a mim mesma. Era claro pra mim, já que havia “funcionado” da primeira vez, porque não agora?

(Pelo amor de Deus pessoal, isso é completamente errado! Um plano alimentar é feito para uma pessoa só, personalizadamente, e obviamente eu não era mais a mesma pessoa, não tinha mais dez anos!)

Eu não consegui emagrecer e já estava com 55Kg, o que me apavorava e enlouquecia. Então eu apelei pela internet. Foi um período que conheci a Ana e a Mia (que vocês devem saber o que é). Não considero ter tido anorexia em algum momento, apesar de ter restringido muito minha alimentação. Praticava o mesmo “registro alimentar” que tinha aprendido 5 anos antes, porém anotava cada caloria, que na minha mente não podiam somar mais de 500Kcal por dia.

contas

Juntamente a isso tomava laxantes, pois por mais que tentasse (até a garganta sangrar) eu não conseguia vomitar. Então comecei a ter compulsões alimentares, alguns meses depois de intensa restrição. Após esses episódios, realizava dias de jejum, exercícios exagerados (do tipo, 4hrs de caminhada) e tomava até 3 comprimidos de laxante. BULIMIA (dos 15 aos 17 anos). Com isso emagreci dois quilos apenas, ficando com 53Kg.

Eu passei por uma psicóloga, que me ajudou a parar de realizar punições, mas não conseguiu tirar a culpa que eu sentia, então desenvolvi o TCAP (transtorno compulsivo alimentar periódico) em que a única diferença da bulimia é a inexistência da purgação pós episódio. Nessa época fui dos 53 Kg aos 68 Kg em dois anos.

Entrei para a faculdade de nutrição, e não vou mentir, parte do meu interesse era a crença de que se estudasse muito, poderia aplicar em mim e ser magra.

Eu estava com 68 Kg, sem nenhuma auto estima, me sentindo um lixo e fracassada. Aí um conhecido endocrinologista me forneceu um estoque monstruoso de sibutramina, amostras grátis. E eu fiquei muito feliz, pois vi uma luz no fim do túnel.

Eu tomei por uns 8 meses se não me engano, atingi 62kg, fiquei pseudo feliz. Mas aí acabou o remédio.

sibu

A Sibutramina é feita a partir de anfetamina, uma droga que quando você toma tem diversos efeitos como elevar a energia, tirar o sono, perder o apetite… Porém tem efeito rebote, que quando você para, sente com menos energia do que nunca, mais sono do que nunca e mais fome do que nunca. Resultado? Três meses depois eu tinha 78 Kg .

Entrei em depressão grave, em que o motivo principal era meu peso e minha aparência, eu acreditava que nunca teria um namorado, filhos e nem carreira (porque nutricionista “tem que” ser magra) e que minha vida seria um fardo pra mim baseado em solidão.

Passei a frequentar uma psiquiatra, tomei mais de 4  tipos de remédios, tive muitos altos e baixos, emagreci, me machuquei, cogitei suicídio e perdi a capacidade de chorar. Minha vida melhorou muito graças ao tratamento.

No início de 2015, formada, namorando o melhor homem do mundo e amor da minha vida, decidi que não precisava mais de remédios para me sentir feliz.

Estive bem durante um tempo e logo voltei a ter pensamentos obsessivos novamente, em que quando não estou comendo penso “nossa agora estou queimando calorias, não estou comendo” ou “que droga que eu tenho que comer, vou engordar porque quando começo não paro mais” ou em qualquer situação em que estou me movendo penso que estou queimando calorias.      

loneliness

Isso é completamente insano. Até porque, sabendo como isso é horrível, nunca incentivei esse tipo de pensamento ou prescrevi planos alimentares para os meus pacientes que levassem a isso. Ou seja, fui hipócrita.

Eu luto todos os dias contra minha obsessão, contra meu medo sem fundamento de perder tudo que eu conquistei por causa do meu peso, contra a vergonha, contra a baixa auto-estima. Estou aprendendo com a Alimentação Consciente e Intuitiva, com a ajuda deste blog, com artigos científicos e livros da área e com (nessa ultima semana) o CONACI. Pois quero aplicar a minha vida o comer intuitivo que perdi aos 10 anos e aplicar a minha profissão, para que eu não contamine a vida de ninguém como a minha vida foi contaminada.

menininha

Gostaria de iniciar um movimento, como foi feito anteriormente no twitter o #primeiroassedio. Podíamos fazer um #primeiradieta. Que não deixa de ser um abuso e uma violência. Deixei aqui minha trajetória partindo da primeira dieta, o quanto de sofrimento me causou. E pensando nisso, sei o quanto de sofrimento pode ter causado a tantas pessoas , e o quanto de sofrimento pode vir causar. Por isso precisamos chamar a atenção de quem faz essas dietas, de quem prescreve essas dietas, de quem cria arbitrariamente dietas sem nem mesmo ter formação para isso.

Desejo de fundo do meu coração que todos que um dia sofreram com isso possam conhecer a Alimentação Consciente e Intuitiva e se libertar das dietas e de toda a obsessão.

Muito obrigada.

Grande Beijo!

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3 ideias sobre “#PrimeiraDieta

  1. Greice

    Gostei muito da sua contribuição, acho importante falar, refalar, desmascarar essa vida paralela que muitas pessoas levam por não conseguirem aceitar seu corpo, porque a mídia faz parecer ser fácil e necessário ter um corpo magro.
    Muito Obrigada!

  2. Daniela Ferreira Araujo Silva

    Gostaria de agradecer à autora do post pelo corajoso depoimento, pois acredito que assim como eu, muitas pessoas reconhecerão a própria história no seu relato. Parabéns pela coragem. É possível retomar posse da vida, da mente e do corpo, mesmo que tenham sido sitiados por um transtorno alimentar ou pela mentalidade de dieta por anos a fio. Eu também continuo aprendendo, agora com mindfulness, mindful eating e muita autocompaixão. Deixo aqui o meu abraço para autora do post, para autora do blog, e para tantas outras pessoas que também atravessam histórias como as nossas.

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