“Dear Fat People” e nota da autora

I) Dear Fat People

Estou momentaneamente afastada deste Blog, mas não podia deixar de comentar o vídeo impertinente e polêmico de Nicole Arbour.

dear fat

A comediante canadense fez piadas com pessoas gordas e teve a sua conta do Youtube deletada (já foi restaurada…) por causa disso.

Ela compara pessoas gordas com Frankensteins e Zumbis, diz que gordofobia não existe e afirma, ainda, que humilhar gordos é uma técnica válida pois assim eles mudarão de postura e tomarão medidas para melhorar a sua saúde.

Ora, Nicole. Gordofobia existe. Quem não percebe isso está imerso em privilégio magro e não gosta de (ou não quer) pensar na situação daqueles que são diferentes. O fato de uma pessoa gorda não encontrar roupas que lhe sirvam (ou então encontrar, só que somente no cantinho especial “tamanhos grandes” ou “plus size”) é SIM, uma discriminação. Porque todas as lojas deveriam ter tamanhos democráticos e sem distinção e as pessoas gordas não deveriam ser “punidas” ou marginalizadas por não terem o corpo pequeno o bastante para encaixar nos tamanhos-padrão.

As araras de roupas que vão do 34 ao 42 dizem às gordas: “quem mandou não ter o tamanho correto e esperado para uma mulher?”. A ditadura da magreza tem muita relação com obediência feminina. São medidas para conter, aprisionar, limitar nossos corpos.

E o preconceito no mercado de trabalho, transporte público e os olhares tortos que os gordos têm de tolerar a todo momento? E os conselhos não solicitados e os comentários desnecessários?

TODO GORDO SABE QUE A OBESIDADE É UMA DOENÇA. Todo mundo sabe disso. Pessoas que “só querem ajudar” não entendem que todos já foram suficientemente avisados desse fato.

Na concepção de pessoas como Nicole, é como se simplesmente chegar para uma pessoa gorda e dizer “você precisa emagrecer” fosse promover uma transformação mágica porque a pessoa, antes de receber o aviso, não havia percebido a sua situação.

Não muda nada bater na mesma tecla, e muito menos quando isso é feito de maneira dolosa, para escarnecer e ferir.

Existe também a ideia errônea de que gordos podem um dia ficar magros como os modelos nas capas das revistas. Só não querem. Ora, o referencial é absurdo. Uma pessoa gorda pode melhorar significativamente seu estado de saúde perdendo em torno de 10% do seu peso, sem ficar com o corpo magro como as mulheres da Vogue. Existem pessoas constitucionalmente magras e pessoas constitucionalmente gordas (e isso não tem nada a ver com “ossos largos”). Devemos fazer o melhor possível pelo corpo que temos, sem expectativas irrealistas de mudança. Uma pessoa gorda pode, SIM, estar saudável e se alimentar bem.

Nem todo gordo é diabético, cardiopata, hipertenso. E quando essas doenças acometem os magros, ninguém tem nada para dizer, certo? Simplesmente porque é o gordo quem sofre estigma.

(E mesmo quando a pessoa gorda está efetivamente doente, isso não faz com que ela mereça deixar de ser tratada com dignidade e respeito.)

Comparar pessoas gordas a Frankensteins e Zumbis é desumanizante e desrespeitoso, e Nicole o faz de maneira absolutamente malvada e ácida.

Liberdade de expressão? Existe, claro. Nicole fez uso dela, mas isso não torna a sua fala isenta de canalhice. Ou o discurso desprovido de ódio.

Sem falar na lenga-lenga sobre saúde. Não podemos fazer suposições sobre a saúde física, mental e psicológica de alguém OLHANDO para ela e sem saber NADA sobre ela. E é evidente que ela não está preocupada com a saúde de ninguém. Gordos, para Nicole, são só material para tirar sarro.

Muitos fatores podem fazer uma pessoa engordar. A obesidade é um quadro multifatorial e complexo e encarar tudo isso de uma maneira simplista e taxar todos os obesos de “sem vergonhas” é, no mínimo, um ato de preconceito (e/ou ignorância). A obesidade acarreta diversos problemas de saúde, muitos deles incapacitantes, e tirar sarro de pessoas que têm esses problemas só faz dessa comediante uma bruta sem compaixão.

Sabemos o dano que esse tipo de bullying pode causar. Sabemos o que é ser adolescente e ser exposto a ”inocentes zoeiras” que levam à baixa autoestima, depressão, transtornos alimentares e até suicídio.

Nicole está “Ok” com o ato de envergonhar pessoas gordas publicamente, porque isso supostamente as fará mudar de comportamento.

Errado.

Isso não é ok.

Há estudos que indicam que uma abordagem negativa não ajuda ninguém a adquirir hábitos de vida mais saudáveis. Nossa própria experiência de vida confirma isso. Quem conseguiu sair de alguma situação difícil, qualquer que seja, sendo humilhado e pisoteado na cabeça?

(Gordofobia NÃO ajuda)

Ficamos repetindo frequentemente que os gordos são feios, sujos, indesejáveis, indisciplinados e esperamos que isso culmine numa epifania de transformação de vida?

Não. Quem afirma que gordos são feios, sujos, indesejáveis, indisciplinados não quer o BEM de nenhum deles. Pouco importa se a pessoa gorda vai morrer amanhã: gordofóbicos não gostam de gordos e não se importam com o futuro/saúde deles.

Triste é essa geração que se esconde atrás do argumento da ~liberdade de expressão~ para transformar o humor em algo apelativo, maldoso, cruel. Triste é RIR do sofrimento dos nossos semelhantes e não nos importamos com nada além do nosso próprio umbigo.

Aliás, o que há de tão engraçado a respeito de gordos? É uma característica física como careca, negro, baixo,alto, magro, ruivo, xadrez, azul ou amarelo.

Temos um problema de saúde pública, com o crescimento da obesidade e doenças crônicas? Sim. Uma grande parcela da população está engordando? Sim.

Mas Nicole Arbour não está ajudando. Nem um pouco. Nem um pouquinho. E ela não está tentando ajudar. Ela só quer humilhar. Ela tem asco de gordos.

Tratar as pessoas com respeito e dignidade continua sendo uma fórmula mais eficaz para este mundo funcionar direito, fato que é frequentemente esquecido em nome da ””’liberdade de expressão””’ (já diria o apóstolo Paulo “tudo posso, mas nem tudo me convém”) e para “não perder a piada”

Gordofobia é uma invenção? Sim. Só que não é uma invenção da cabeça delirante dos gordos, mas sim de pessoas preconceituosas que se deleitam com a humilhação dos menos privilegiados.

E, definitivamente, existe.

II) Nota da autora

Por que o NSE entrou em pausa?

Assim como o apresentador Ricardo Boechat, eu também fui acometida de um surto severo de depressão. Posso dizer com toda a certeza que não é frescura. Não é “mimimi”. Não é coisa de gente desocupada.

É uma doença, doença grave e séria. E estarrecedora.

Começou de leve, como um breve desânimo. Ao longo de algumas semanas, se transformou em medo. Depois numa grande confusão mental. Precisei me afastar de todas as atividades acadêmicas e laborais por 10 dias.

Antes de acontecer comigo, admito que não conhecia muito sobre isso e imaginava que quem sofria de depressão passava por uma grande tristeza. Mas o sentimento (ou falta dele) vai muito além da tristeza. Durante os últimos dias sofri de uma crise aguda de anedonia e apatia.

Anedonia significa que nada te dá prazer e apatia significa que nada te interessa. NADA.

É a vida em preto e branco. É difícil descrever. Você perde a paixão por tudo o que interessava. Parece que você não ama nada e nem ninguém. Parece que a vida está completamente desprovida de sentido. É como se tudo estivesse imerso em um lodo espesso e invisível. As mais simples atividades se transforam em tarefas hercúleas. Tomar banho é um desafio. Sair da cama é impossível. Um dia de sol fica sem graça. Mil flores ou mil borboletas não despertam a menor sombra de sentimento..

“lembrando que isso não significa apenas um dia ruim, ou um contratempo, ou momentos de desânimo ou ansiedade, que são coisas que todos temos normalmente.

A depressão é muito mais que isso e muito mais séria. É uma aflição tão severa que restringe a capacidade de uma pessoa funcionar plenamente, um abismo mental tão profundo que ninguém pode achar que vai se safar apenas endireitando os ombros ou pensando coisas positivas.”

Passei 10 dias afastada fazendo tratamento e agora me encontro tentando recuperar a cognição, a coragem e o interesse pelas coisas.

Vou continuar compartilhando coisas interessantes no Facebook e vou tentar, na medida do possível, recuperar o trabalho aqui no Blog. Talvez demore um longo tempo até que eu tenha inspiração ou vontade de escrever, talvez não. Mas na psicoterapia devemos aprender a viver um dia de cada vez.

Devemos viver o que pregamos. Quando recebo mensagens de pessoas que estão sofrendo de transtornos alimentares ou quaisquer outros tipos de problemas de saúde/emocionais eu digo que tenham ânimo e não desistam.

Nunca imaginei que a próxima a precisar de ânimo e encorajamento seria eu.

Pensei muito sobre se deveria falar sobre o problema e escolhi não me manter em silêncio em relação à depressão que não é um erro, não é uma vergonha, não é uma falha de caráter. É uma doença que afeta 350 milhões de pessoas, e eu sou uma delas.

(Infelizmente estou sofrendo a influência do cachorro preto)

Não é uma questão de “se animar”, “sair dessa”, “tentar sorrir”… É um negócio colossal, mesmo. É uma doença que afeta severamente a qualidade de vida do portador.

O NSE continua. Mais tímido. Mais devagar. Menos dinâmico. Com maior espaçamento entre as postagens. Mas com o mesmo ideal e o mesmo espírito.

E o futuro? A Deus pertence.

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22 ideias sobre ““Dear Fat People” e nota da autora

  1. Não sou Exposição. Autor do post

    Disponha Raquel =]

    Não deixe as palavras cruéis te abalarem. Eu estou fazendo o possível para não desabar diante dos problemas. Também fui atacada com palavras MUITO cruéis por uma pessoa que não entende direito a minha situação. A gente fica muito, muito triste. Aconteça o que acontecer, temos que nos manter fortes. Quem sabe um dia eu possa escrever ou contar as pessoas sobre como eu superei esse problema!

  2. Raquel

    Paola, recebi essa manha um email muito, muito desalentador de umas 5 paginas do homem que eu amo listando as razoes pelas quais eu tenho que emagrecer. Depois, e claro, de chorar uns bons 15 minutos, me lembrei do NSE e vim aqui buscar forcas para seguir. E as encontrei, mas encontrei tambem esse post com a explicacao sobre seu afastamento e sua depressao. Espero que de setembro para ca as coisas tenham melhorado e que sigam melhorando. Muita forca para voce, que traz forca e alento para tantas pessoas. Muito obrigada. Um abraco apertado.

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