A garotinha

Ontem eu estava com o meu namorado comprando roupas em uma loja de departamento e vimos uma garotinha muito pequena, não passava de dois anos, brincando muito.

Ela corria pra lá e pra cá, dava risada e sacudia os cabelos encaracolados, experimentava óculos três vezes maiores do que o rosto dela. Parava na frente das colunas revestida de espelhos e dançava despreocupadamente, fazia poses e se beijava.

Fiquei olhando para ela por uns momentos e pensei sobre o quanto nosso corpo sofre pressões, exigências e doutrinamentos até que tudo isso se perca e nossa aparência física passa a ser uma vergonha.

Nós, adultos, temos vergonha. Do nosso cabelo, do nosso rosto, nossas pernas, nossa pele, nosso quadril, nossos braços, dos nossos movimentos… De tudo.

Não só o corpo é questão de desconforto constante. Mas a nossa autoimagem anda muito abalada. De todos nós. A baixa autoestima é uma das maiores causas de perda de qualidade de vida entre os adultos.

Não nos sentimos inteligentes o suficiente, capazes o suficiente, interessantes o suficiente, determinados o suficiente, válidos o suficiente, suficientes o suficiente.

Eu também me sinto assim. O monstro me mordeu também.

Eu nunca vi o monstro, mas tenho quase certeza de que é um bicho de sete cabeças. É difícil ficar imune à sua mordida tóxica que nos espalha o veneno de que não somos o suficiente.

Todos os dias, precisamos nos preocupar. É imperativo melhorar a aparência, melhorar o rendimento acadêmico, melhorar o currículo, melhorar a vida pessoal, melhorar a vida financeira, melhorar a vida pessoal. Melhorar, melhorar e melhorar. Porque o que somos e temos não é o bastante.

Claro eu é bom melhorar (não queremos piorar, certo?) mas às vezes o perfeccionismo é tanto que a busca em si é o próprio objetivo e o objetivo não tem propósito.

Acho isso triste.

Em algum momento do caminho perdemos a segurança e a espontaneidade. Éramos crianças, ríamos e brincávamos, tínhamos certeza do que estávamos fazendo, sem pensar se estava certo ou errado, se passaríamos vexame ou se seríamos julgados. Atualmente, somos adultos amendrotados e preocupados.

Aquela menina não pensava no dia de amanhã. Divertia-se com a sua aparência. Não só com a sua aparência, mas com ela mesma.

Haverá possibilidade de resgate da nossa criança brincalhona?

Recentemente assisti “O Pequeno Príncipe” no cinema (uma graça, recomendo!), e fiquei pensando na máxima O Essencial é Invisível aos Olhos.

Às vezes me sinto esmagada combatendo a perversidade mercadológica e a força da mídia que insiste em nos vender padrões exclusivistas de beleza que causam tanto sofrimento entre a população.

Por que focamos tanto na aparência? Por que não enxergamos o essencial? Por que a vida das pessoas é uma eterna disputa de quem é mais o mais jovem, bonito, magro? Por que somos adultos sem graça, mesquinhos, sem candura, sem doçura, sem sonhos no coração? Por que não valorizamos a experiência, a sabedoria, a gentileza, as características únicas de personalidade? Porque não conseguimos enxergar além da beleza processada que nos circunda?

Terrorismo nutricional, culto ao corpo, falsas definições de saúde… Como tudo está desajustado!

O que exatamente estamos buscando quando cultuamos a magreza com tanto afinco?

Vou ser honesta: bate um desânimo.

Há vezes que tudo fica espantosamente difícil, não? Estou passando por um desses momentos.

Mas quando o desânimo bater, podemos pensar nas coisas que verdadeiramente valem a pena no meio dessa nossa busca atordoada .  Podemos pensar nas crianças que brincam despreocupadas nas lojas de departamento. Podemos pensar na beleza que é entender que o essencial é invisível aos olhos.

Quem sabe assim possamos continuar.

Quem sabe assim possamos nos enxergar de modo amplo e verdadeiro, sem bloqueios, traumas, inseguranças.

Quem sabe algum dia tudo faça sentido.

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3 ideias sobre “A garotinha

  1. Patrícia

    Concordo com a Gracie e com a Naddie! Ah, Paco, que triste! … Mas, sabem, meninas (Greice eu faço 46 agora em setembro!) talvez o caminho seja começarmos a REALMENTE não nos importarmos com a opnião alheia! É trabalho duro, endless e muito solitário, já que só a minoria pensa como nós, mas acho que é o único caminho! É se questionar: “isso REALMENTE me fará FELIZ!”, ou seja: ficarei + feliz mais magra/botocada/definida/parecendo+jovem/cabelo liso/loiro/comprido (os meus são curtíssimos, obrigada! rs)/acompanhada de um(a) parceiro(a) mesmo que seja alguém que me maltrate, só prá não passar atestado de “fracassada social”? Eu, realmente QUERO isso? Eu quero a p***a (desculpem!, rsrs) da Herbalife, do botox, da roupa de grife, do carro importado … ? Eu quero respeito, quero paz, quero AUTO ACEITAÇÃO! Quero liberdade! Bem estar! ESTAR BEM, sentir-me bem! Adoro seus posts, e este foi especialmente BOM! Vamos brincar de ser menininhas beijando o espelho, com nossos cabelinhos soltos/selvagens (perfeitos!) balançando ao ritmo de nossas não contidas e alegres risadas! Bora! Beijo!

  2. Greice

    Paola, quando vc pensar em desistir pense em quanta gente você consegue influenciar, quanta gente muda o olhar para o mundo através de suas palavras, quantas pessoas tentam melhorar (verdadeiramente, e não na aparência) com base no que aprendemos com você.
    Eu sou uma dessas.
    Não só por mim, mas porque tenho três filhos, e entre eles uma menina. Quero que eles consigam ver muito além das aparências no mundo, quero que se vejam e vejam o resto do mundo além de objetos com a função de enfeitar o mundo, mas que consigam ir muito além.
    Mas também por mim. Como mulher, chegando aos 40 anos, com a eterna luta contra a balança, preciso acreditar que a aparência não pode continuar movendo o mundo e destruindo sonhos.
    Você não está sozinha nessa luta. Obrigada sempre.

  3. Naddie

    O consumismo se aproveita. Em um futuro próximo haverá pele de silicone e cabelo sintético, pra não envelhecer e não ter pontas duplas. Também cansei, sabe. Ás vezes acho que o caminho da destruição do ser humano é tentar ser Deus.

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