É ilegal, imoral ou engorda.

(Feliz Dia dos Pais!)

No dia de hoje muitas famílias estão se reunindo para celebrar. Aqui em casa tivemos um almoço bem gostoso, com direito a doce de sobremesa. Enquanto comia o doce, fiquei pensando em quantas pessoas se encontram num mal estar causado pelo almoço de dia dos pais. Temos que justificar nossos pecados, certo?

Discutimos sobre isso durante a refeição. Quantas pessoas há que desconhecem o prazer de comer?

Vivemos em uma profunda incoerência entre um amplo e crescente interesse por gastronomia e técnicas culinárias… e a promessa de que a boa comida (a saborosa) irá nos deixar gordos e, portanto, doentes e feios.

Esta é a mentalidade de dieta. O constante controle sobre comportamentos alimentares e corpos. Por causa dos discursos científicos/midiáticos, ideais de beleza  ou do blablabla em torno de nós, não sabemos mais o que comer, nem o que é fome e o que é saciedade, perdemos conexão com os sinais internos da alimentação. Qual é a hora de comer? Qual é a hora de parar de comer? Que fome é esta que sinto? É fome de comida? Essa fome tem cor, formato, nome?

Temos fome de quê?

Neste mundo lipofóbico, comer é tabu. A moralidade outrora já permeou profundamente a sexualidade, que era impregnada de culpa, medo e desconforto. A nova luxúria é o apetite. O nosso novo pecado é engordar.

Temos a obrigação de fazer a manutenção dos nossos atributos físicos e confessar nossas culpas, principalmente se formos mulheres. Ser bela é ser magra … e a urgência de se cultivar a magreza (que se confunde com saúde e beleza) interfere na nossa atitude em relação aos alimentos.

Assim somos nós. Corpos angustiados, controlados, famintos ou super-alimentados, ansiosos por fazer “a coisa certa”… Escolher o alimento ‘certo’, ter a aparência ‘certa’, gerir nossa saúde do jeito ´certo´.

(A refeição não termina quando eu estou satisfeito. Termina quando eu me odeio)

É imperativo ser magro, lindo, saudável e jovem. Perseguimos este ideal, que nos causa angústia por ser inatingível e impossível. Inatingível pelo fato de ser quimérico. Impossível pelo fato de ser imagem.

Esta é a era do corpo prisioneiro. Prisioneiro do discurso biomédico, do olhar alheio, do preconceito, da culpa, da beleza, da magreza, da incerteza e das próprias limitações corpóreas.

Somos orgânicos e não queremos ser orgânicos. Temos defeitos e não queremos ter defeitos. Envelhecemos e não queremos envelhecer. Comemos e não queremos comer.

Quando nos alimentamos, sentimos prazer. Ai de nós. A comida deveria ser só “combustível” ou “lenha na fogueira”. É tudo uma questão de disciplina, não foi isso que nos ensinaram? Então por que perdemos o controle diante da afetividade, a arte, a cultura, a identidade intrínsecas ao alimento?

Cada deleite secreto é uma incômoda demonstração da nossa falta de controle.

Porque é assim. Dizem que tudo que é bom é ilegal, imoral ou engorda. Que nem o pudim de doce de leite que eu comi depois do almoço.

E eu? Comi sem pudores: gosto de subversão.

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4 ideias sobre “É ilegal, imoral ou engorda.

  1. Sandra

    “O nosso novo pecado é engordar”. Perfeito. Qdo será que as pessoas irão se permitir ter prazer sem culpa?

  2. Carmen

    Excelentes reflexões, como de hábito. 🙂

    Sabe, às vezes me pergunto se não há um certo masoquismo das pessoas em suportar tudo isso. Muitos me olham torto por eu não ter celular com Internet, nem conta em rede social. Mas foi assim que encontrei minha liberdade! Não preciso postar fotos das minhas comidas, nem receber imagem de pessoas fazendo exercício, nem nada disso! Quando navego pela Internet, visito um ou outro blog que gosto, e pronto!

    Quem sabe o caminho não seja largar um pouco dessas redes tão perversas? Ou, caso não seja possível, usá-las como forma de subversão, como você faz aqui no blog e no instagram?

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